A beleza formulaica de Phineas & Ferb

A

Já faz 5 anos que Phineas & Ferb acabou, depois de 4 temporadas, e um filme lançados ao longo de 8 anos. E apesar de estar meia década longe de qualquer nova produção, vai lançar seu segundo filme agora logo logo, em agosto de 2020, no streaming da Disney, o Disney+. E esse anúncio me deixa ansioso pelo retorno desses personagens, pois eu sinto muita falta deles…

Digo os personagens fazem aparições em Milo Murphy’s Law, que se passa no mesmo universo, mas não é a mesma coisa. Quando Phineas e Ferb estão no centro da história o rolê é outro. E estamos todos prontos aqui esperando Candace Against the Universe.

Phineas e Ferb é um dos meus desenhos favoritos. Uma obra fascinante do humor que por mais que eu gostasse, não era a coisa mais fácil do mundo de recomendar pros meus amigos, embora eu tentasse. E isso se deve a um fato curioso do desenho. Seu apelo é incrivelmente não-intuitivo, expressão que aqui significa: os motivos que tornam esse desenho fascinante, são os exatos mesmos motivos que fazem ele soar ruim ou estranho para quem não está assistindo.

Não só não são muitos amigos meus que eu convenci a assistir, como os criadores do desenho Dan Povenmire e Jeff “Swampy” Marsh, ficaram 16 anos indo de estúdio em estúdio fazendo pitchings para lançar o desenho. Não era fácil convencer os produtores de que ali havia uma boa ideia.

16 anos depois, o desenho saiu com a exata mesma cara que tinha quando foi pensado..

E a ilusão da falta de apelo desse desenho é simples. O desenho se sustenta em uma fórmula repetitiva e fixa que torna seus episódios todos muito parecidos entre si. E olhando de fora isso parece uma péssima ideia.

A fórmula é a seguinte.

Phineas e Ferb são dois irmãos de criação que também são melhores amigos entre si. E eles estão nas férias de verão, e eles tem a filosofia pessoal de garantir que as férias sejam diversão e sobre aproveitar cada dia de férias que eles tem ao máximo. Então todo dia de suas férias eles têm uma ideia mirabolante do que fazer em seu verão, O lance é que suas ideias são incrivelmente hiperbólicas, industriais e só são factíveis pelo fato de que esses dois são dois garotos geniais que transformam o impossível em possível. Então suas ideias de como aproveitar o verão podem ser: construir uma montanha-russa gigante. Transformar o quintam em uma praia. Surfar o tsunami. Construir uma máquina do tempo e viajar no tempo. E por aí vai.

Como por exemplo um avião que possa seguir o sol e dar a volta ao mundo passando o dia sem ver o sol se por.
Todos os inventos reunidos juntos no filme.

Essa é a parte 1 da fórmula. Todo episódio vai consistir de Phineas e Ferb construindo algo surpreendente e hiperbólico só pra se divertir e aproveitar as férias.

Esses projetos de Phineas e Ferb incomodam profundamente a irmã mais velha dos dois: Candace. Candace sofre da síndrome-de-irmã-do-Ferris-Bueller, e ninguém nunca confirmou isso, mas eu não tenho dúvidas de que ela foi inspirada na mesma personagem.

Candace tem raiva de como não importa o que seus irmãos fizeram, o quão perigosa, inapropriada, ou impressionante sua atividade foi passa batido pelos seus pais, que acreditam que eles são dois meninos normais. Enquanto ela, não pode dar uma mera festa sem ficar de castigo. O sonho de Candace é conseguir dedar os irmãos pra mãe, mostrar pra mãe como eles passam o dia e fazer os dois entrarem em problema e ficarem de castigo.

Essa é a parte 2 da fórmula. Enquanto Phineas e Ferb estão se divertindo, Candace passa seu verão tentando mostrar pra mãe o que seus irmãos estão fazendo.

Em paralelo a tudo isso. Esses três irmãos têm um ornitorrinco de estimação chamado Perry. E Perry é secretamente um agente secreto chamado Perry o Ornitorrinco (ou Agente P). E todo dia do verão, Perry sai escondido de casa para combater o diabólico Dr. Heinz Doofenshmirtz, um cientista com ódio o suficiente por tudo e por todos que todo dia inventa uma invenção pra se vingar do mundo, destruindo ou conquistando-o. Não importa, pois Perry sempre o detém em uma luta.

Essa é a parte 3, Perry o Ornitorrinco vai impedir o plano maligno do Dr. Doofernshmirtz de destruir a Área dos Três Estados.

E as consequências da luta vão causar danos colaterais. Que vão destruir completamente o projeto de Phineas e Ferb, se deixar um único vestígio de sua existência…

…segundos antes de Candace poder mostrar o projeto pra sua mãe.

80% dos episódios são isso. Os garotos inventam algo. Candace tenta mostrar pra mãe. Perry luta contra Doofenshmirz. A luta destrói o invento, Candace mostra nada e é tachada de louca.

É sempre isso.

Toda vez!

E por que é que isso é bom?

Por que é que isso é bom?

Parte 1: Entendendo o Absurdo

A série tem um senso de humor muito pautado nos elementos clássicos do humor no desenho animado. O bom e velho slapstick, o absurdo, o uso extenso de piadas recorrentes e a quebra da quarta parede. Eu vou focar primariamente nesse último.

Um elemento tão fascinante quanto o formato rígido que dita a rotina dos personagens desse desenho é o fato de que os personagens não são burros, e percebem o quão rotineiro é seu dia a dia. Fazendo aquelas piadas que não exatamente quebram a quarta parede, mas encaram a quarta parede e reclinam na quarta parede.

Não que eles não quebrem a quarta parede sim, eles quebram várias vezes. Mas autoconsciência, não é o mesmo que reconhecer que eles são um desenho. O que eles reconhecem é o quão absurdas são suas vidas, e interagem diretamente com um absurdo que só existe pois eles são fictícios. Eles convivem com o absurdo questionando-o, aceitando-o, enfrentando-o. Mas nunca ignorando o absurdo. Nunca fingindo que não são estranhas as convenções que a linguagem televisiva coloca na sua frente.

Conforme a série progride, Candace é a personagem que mais se envolve com o quão convenientes e estranhas são as coincidências que impedem ela de dedurar os irmãos pra mãe. E sua relação com essa força vai evoluindo de alguém estranhando a uma força divina.

Em um determinado episódio, Candace manipula a curiosidade de Phineas e Ferb pra fazer eles quererem descobrir como que as invenções desaparecem, E eles passam o episódio inteiro observando o invento em vez de usando-o, pois o objetivo do dia era entender o fenômeno.

Em outro episódio, Candace tira vantagem de um dos amigos dos irmãos, chamado Buford e dá a ele a missão de não deixar o invento sumir, sabendo que Bufford teria familiaridade necessária com o momento em que o invento some pra preveni-lo.

Quando a invenção de Phineas e Ferb separa Candace em duas Candaces diferentes. Phineas vê o quão problemático são ter duas Candaces ao mesmo tempo e comenta: “Ferb, se o separador molecular não desaparecer espontaneamente no fim do dia, a gente deveria realmente considerar destruir ele.”

E o clássico momento em que Candace teve que justificar pro namorado o que ela tava fazendo em Paris, mas assim que ele viu que os irmãos de Candace estavam envolvidos, não precisava mais de explicação.

Porque é mais do que meramente reconhecer o absurdo de seu cotidiano. A maneira como os personagens reagem a sua rotina não tradicional é uma maneira de cada personagem revelar sua visão de mundo. O mundo em que eles vivem é um mundo estranho, e cada personagem tem sua própria relação com a estranheza.

Cada um dos cinco protagonistas tem uma personalidade clara e forte. Phineas é um menino energético, empolgado, otimista e feliz. Phineas está sempre de bom humor, olhando o lado positivo de tudo, e justamente por isso nem ocorre a ele que talvez as coisas que ele faz podem deixá-lo de castigo. Eles não tem medo de Candace triunfar, pois ele sequer entende que a mãe deles ver os inventos como algo ruim. Phineas não espera que nada de errado aconteça jamais, e nada jamais acontece, então ele não é questionado. Ferb é levemente mais cínico, porém ele vai sempre na onda de Phineas e herda o entusiasmo e desejo por diversão.

O que significa que esses dois não questionam nada, porque eles não temem nada. Nada impressiona eles e eles se divertem com tudo. Por isso eles estão de boa com a maneira como a diversão diária deles é interrompida por um raio estranho vindo dos céus. É tudo parte de como as coisas são, e o mundo deles é iluminado.

Candace é o contrário. Ela é uma garota ressentida, com ódio o suficiente pra deixar o Itachi orgulhoso. E ela projeta esse ódio nos irmãos, mas com o passar da série fica cada vez mais claro, que seu ressentimento é com o mundo, que parece conspirar pra fazer tudo dar errado pra ela.

Se Phineas e Ferb não exatamente ligam pro fenômeno que faz os inventos desaparecerem, Candace liga muito. Candace reconhece a existência de uma força superior lidando com ela. Chegando ao auge, quando no climax do filme, Candace usa a força superior como arma. Entendendo que se ela mostrasse pra sua mãe o que o vilão está fazendo, o vilão desapareceria antes da mãe ver, e portanto a cidade seria salva.

Candace estar constantemente gritando com os céus (literalmente), também afeta sua percepção de si. Conforme a série vai passando, notamos que ela vai ficando mais obsessiva, pois não é mais questão de somente castigar seus irmãos, ela precisa provar pra mãe, e pra si mesma, que ela não é louca. Pois após diversos encontros com o absurdo que é sua rotina, ela mesma questiona sua sanidade mental por não conseguir provar nada pra mãe.

Se Phineas e Ferb veem na própria fórmula um mero espírito de se deixar levar. E Candace vê na própria fórmula um inimigo direto a ser combatido. Perry e Dr. Doofenshmirtz vem na fórmula um alívio e um conforto. Dr. Doofenshmirtz é ciente do fato de que toda batalha sua com Perry é igual, e ele é ciente, pois ele constantemente estuda os padrões para iludir Perry.

E uma vez que Perry não é uma força invisível do destino, ele aproveita-se do fato de que Perry pode ouvi-lo para fazer pactos que melhorem sua rotina. Como por exemplo dar uma chave do apartamento pra Perry não ter que entrar quebrando tudo toda vez.

Nas suas tentativas de vencer Perry é muito comum que Doofenshmirtz tente mudar a fórmula para ver se derrota seu nêmesis. Mas a verdade é que no fundo Doofenshmirtz é um homem que gosta de rotina, e ele aprecia passar pelas mesmas etapas dia a dia. Tem gente que se acomoda em rotina e Doofenshmirtz é uma dessas pessoas.

Doofenshmirtz muitas vezes é retratado como o personagem mais normal da série, mesmo sendo um caricato cientista maligno, porque com normal aqui eu me refiro a identificável. Um personagem cujas frustrações e rancores com o mundo muitas vezes derivam das frustrações do humano médio para que projetemos identificação com a maneira hiperbólica com a qual ele se vinga das pequenas inconveniências com as quais nós lidamos. E bem, sua relação com a maneira como a rotina lhe dá conforto é parte do que o torna identificável.

Tem esse episódio em que ele faz um plano elaborado, para não passar vergonha quando as escoteiras notam que ele está fingindo que não está em casa pra não abrir a porta pra elas.
Ou se vingando dos mímicos que o constrangeram.

Não é como se metade do mundo não estivesse surtando na quarentena por não ter aonde ir.

E Perry gosta dessa rotina também. Os dois deixam bem claro que apesar de passarem seu tempo juntos em um combate agressivo, eles adoram a companhia um do outro. Fazendo a já batida metáfora de que ter um arqui-inimigo é que tem ter um relacionamento amoroso.

E mesmo fora dos protagonistas, as piadas casuais também investem muito na capacidade das pessoas que contarem com o absurdo. Como a piada recorrente desse casal sempre por perto, cuja esposa se frustra com o fato de que o marido está sempre confiando que algo fundamental pros seus planos vai simplesmente cair do céu. Quase sempre cai mesmo, na forma da invenção de Phineas e Ferb.

“Você investiu todas nossas economias numa fazenda de coelhos e comprou tudo menos os coelhos? Você achou o que? Que coelhos cairiam do céu?”
E obvio que caíram do céu;

Mas o importante é, diferente de Phineas e Ferb que não ligam, e de Candace que combate, Dr. Doofenshmirtz não genuinamente quer mudar suas atividades diárias, mesmo que ele seja derrotado toda vez. Ele é teimoso em repetir seus erros, pois são um reflexo de como ele faz as coisas. Como o incessantemente parodiado eternamente presente botão de autodestruição em toda máquina que ele constrói. E a teimosia de Dr. Doofenshmirtz em manter a própria rotina, obriga Candace a enfrentar a rotina dela.

Parte 2: Dois mundos conectados.

A série tem esse elemento do acaso interferindo fortemente na trama de todo episódio como algo que não pode ser chamado de nada além da vontade de Deus. Literalmente. Porque é o desejo maior dos criadores do desenho que criaram todos os personagens. Enfim, apesar disso, apesar de existir essa força enorme que os personagens são capazes de entender e identificar, e ver em ação. Existe um fator muito mais simples e fascinante que os personagens simplesmente não percebem. O outro lado da moeda, se um lado é a autoconsciência, do outro está a ignorância de algo simples. A conexão das duas famílias, Flynn-Fletcher e Doofenshmirtz.

Por mais que essas tramas se cruzem e esses personagens dividam ambientes, e interfiram diretamente um na vida do outro de maneiras que são demais para contar ou listar. Phineas, Ferb e Candace simplesmente não sabem que Doofenshmirtz existe, e o oposto é real, Doofenshmirtz não sabe nada a respeito dos irmãos.

Digo, Phineas e Ferb encontram Doofenshmirtz no filme. E Candace encontra Doofenshmirtz no último episódio, dois encontros, em contextos de um evento particularmente marcante, e é isso. E não é só que o ornitorrinco de estimação deles é o inimigo jurado de Doofenshmirtz.

É o fato de Vanessa Doofenshmirtz, a filha dele, é a menina por quem Ferb é apaixonado, e também uma amiga de Candace.

É o fato da ex esposa de Doofenshmirtz ser colega de curso de culinária da mãe de Phineas, Ferb e Candace.

É o fato de que Doofenshmirtz e a mãe dos irmãos já tiveram um encontro que deu errado nos anos 80.

E o namorado da Candace é o professor de guitarra de Doofenshmirtz, e é sério. O número de vezes que os círculos sociais deles se cruzaram é incontável.

Mas um lado nunca está ciente da existência do outro lado. São mundos completamente separados. E a força que mantém pessoas tão essenciais pras vidas uma da outra separadas é a mesma força que conecta eles.

Existe certa magia de ver o quanto essas pessoas se afetam sem sequer perceberem e o quanto suas vidas se espelham.

Um dos meus episódios favoritos é o em que eles vivem uma completa inversão de papéis. Doofenshmirtz constrói uma cidade que boia para ser seu próprio país onde possa viver em paz sem inconveniências da cidade. Enquanto Phineas e Ferb constroem uma máquina de raios pra lançar um arco-íris. E Perry estava incapaz de ir atacar Doofenshmirtz. Porém os raios de Phineas causam a destruição da cidade de Doofenshmirtz, e Perry destrói a maquina de raios de Phineas por acidente.

É como se o mero fato de Perry ter ficado em casa naquele dia, tivesse invertido as tramas, e feito Phineas afetar Doofenshmirtz e não o contrário.

E existe uma beleza real em ver o quão bem sincronizada é a dança que Phineas e Ferb fazem com Doofenshmirtz sem nunca estarem cientes da existência de seu parceiro. É um desenho obviamente muito mais bobo, mas o espírito é o mesmo de observar as conexões dos personagens em LOST, ou Cloud Atlas. É ver as mesmas pessoas impactando os mesmos estranhos indefinidamente.

E os criadores elevara isso na próxima escala, quando criaram seu segundo desenho Milo’s Murphy Law, que não só se passa no mesmo universo e tem um episódio crossover com os personagens de Phineas e Ferb. Mas mantém a ideia de conexão, com a menção de que um dos traumas da amiga de Milo Murphy, Melissa, foi causado precisamente pelos eventos do icônico primeiro episódio de Phineas & Ferb, em que eles constroem a montanha russa. E a própria série segue fazendo Milo Murphy se conectar com secundários cuja existência ele demora muitos episódios pra reconhecer e entender o impacto do quão conectados estão.

Parte 3: Lidando com expectativas:

Sabem porque tem tanto filme que é difícil traçar a linha que separa terror de comédia? E o motivo pelo qual Jordan Peele, um ótimo comediante conseguiu migrar bem pro mundo dos filmes de suspense? Porque o segredo pro sucesso nos dois gêneros é o mesmo. É dominar a arte da surpresa e da antecipação. É saber fazer gestão de expectativas.

Não que isso seja uma regra que todo comediante siga, eu acho que o caminho pra comédia não é muito regrado. Mas isso é um dom que quem domina costuma encontrar resultados, e no caso de Dan Povenmire e Jeff “Swampy” Marsh, eu não tenho dúvidas de que isso é algo que eles aplicam a nível consciente. A grande técnica de te fazer antecipar uma punchline, entender de onde a punchline vem e porque ela é engraçada. E aí te entregar outra punchline, vinda de um lugar completamente inesperado.

Dando um exemplo. No episódio em que Phineas e Ferb fazem um canyon no quintal deles, para que seu avô pulasse o canyon de moto. O que a Candace quer mostrar pra mãe é um buracão. No mesmo episódio, Doofenshmirtz está sobrevoando a vizinhança com uma bota gigante e um balde de areia gigante, ele quer chutar o balde de areia gigante pra ela cair bem na casa do menino que fazia bullying com ele na infância. O expectador que já entende a relação causal entre os dois, já imagina o que vai acontecer. A areia vai cair no quintal de Phineas e Ferb e tapar o buraco.

Porém o que acontece é que a bota descola do veículo de Doofenshmirts e cai exatamente no lugar onde estavam os caminhões onde Phineas e Ferb colocaram a terra, o caminhão tomba e a terra cai exatamente no buraco, tapando-o.

E aí o grupo de escoteiras cantando a canção que faz chover permitiu que chovesse imediatamente depois para que a grama crescesse de volta.

Quintal novo em folha.

É normal acharmos que fórmulas são ruins, mas isso não é verdade, falamos sobre isso aqui. Fórmulas estabelecem em nós um sistema de presunções que dão aos criadores as ferramentas pra trabalharem conosco. Por sabermos da fórmula, alguns episódios podem começar na metade do dia que já sabemos o que rolou na primeira metade, está implícito.

Como um episódio que começa com Perry voltando pra casa pra descobrir que a casa foi afetada por um raio estranho.

E também podemos ter um episódio falado completamente em Uga-Buga das Cavernas mas que podemos entender todos os diálogos, pois está implícito o que está sendo dito. Sabem, dá um conforto só saber o que está acontecendo sempre, sem precisar de muito contexto.

Os criadores sabem que eles criaram um sistema em que sabemos o que vai acontecer e usam isso pra direcionar nossas expectativas. E muitos acham que o segredo é sempre estar um passo a frente pra superar o fã. Mas nem sempre é sobre superar, é muito mais sobre controlar. É saber quando subverter a fórmula e quando não, quando nos dar algo novo, e quando nos dar exatamente o que achávamos que ia ser, pois estávamos esperando uma surpresa dessa vez. É sobre estar no controle do público e da punchline.

E com isso, mais do que o riso que eles causam, e a surpresa que eles as vezes causam, eles trabalham no expectador o gostoso sentimento da expectativa. Porque esperar pela punchline e se perguntar de onde ela está vindo as vezes é tão bom quanto o final em si.

Parte 4: Positividade.

Mas o mais fascinante aspecto dessa série é sua mensagem. Independente das tentativas da Candace e Doofenshmirtz de ferrar os irmãos ou se vingar do mundo, a série em sua maior parte não contém vilões. Candace e Doofenshmirtz são personagens simpáticos ao público com os quais não sentimos nada negativo. No fundo Phineas e Ferb e sua irmã amam um ao outro, e em certas perspectivas, Perry e Doofenshmirtz também se amam.

A série é sobre dois garotos abençoados por Deus que nada que eles tentarem fazer vai dar errado jamais e eles só querem se divertir. Nada está em risco, nada pode ser perdido, e não importa o quanto o dia de Phineas e Ferb tenha sido o melhor dia de todos, o dia seguinte vai ser tão bom quanto.

A boa ficção é feita de bons conflitos e bons dilemas que forcem os protagonistas a tomar decisões interessantes que gerem consequências interessantes. Mas nada disso tem nesse desenho, nem conflitos, nem dilemas, nem decisões variadas, nem consequências. E em vez de isso condenar o desenho, só torna ele a coisa mais acalentadora e good vibes do mundo.

Todo episódio tem uma canção, boa parte delas sendo boas canções que ajudam a tornar os episódios memoráveis entre si. E no fim do dia a moral é sempre a mesma “Aproveite cada dia que você puder da sua infância. Se esforce pra cada dia ser o melhor dia possível, e não desperdice sua imaginação.”

E é isso o desenho.

Um esquema que contraria todos os bom-sensos do que uma série de televisão deveria fazer, e isso não só deu certo, deu certo por 8 anos, e segue dando certo, pois não acabou. O segundo filme está virando logo a esquina.

Porque no fundo o segredo de Phineas & Ferb está em sua falta de ambição, eles não queriam ser revolucionários, ou ser o desenho mais impressionante do mundo. Eles só queriam passar uma vibe divertida, Com um herói invencível, um antagonista que no fundo é um grande amigo, muitas frases de efeito e uso de música pra evocar uma memória feliz. Um humor autoconsciente. Muitas coincidências e literalmente nada em jogo, somente uns minutos de diversão. Sabem que estrutura é essa, tão difícil de agradar quando listada desse jeito?

Esse é exatamente o princípio pelos quais giravam desenhos como os Looney Tunes, lá antes da televisão ser inventada. E eu não acho que Phineas & Ferb foi uma tentativa direta de reviver o humor dos Looney Tunes da mesma maneira que Tiny Toon Adventures foi. Mas é muito claro que os criadores tem a fórmula do sucesso gravada em seu repertório.

E vou falar, seu projeto seguinte Milo Murphy’s Law é muito mais em sintonia com o que é um desenho do presente. Menos formulaico, com arcos e desenvolvimento de personagem, e um tom mais normal. E embora eu goste muito, eu acho incrivelmente menos memorável e menos carismático que o irmão mais velho.

Não precisavam ser uma ideia mais parecida com o que tava rolando, e não precisou ser intuitivamente bom, ele só precisou mostrar na prática seu apelo. E foi um desenho belo. Tão belo que eu quis fazer um texto só homenageando o que ele tinha de mais belo. E dizer que sinto saudades.

Na esperança de que esse filme desencadeie um terceiro filme. Por que não? Os cameos no desenho seguinte mostra que os criadores claramente não largaram o osso.

Sobre o autor

Izzombie

Sou um cara chato que não consegue ver um filme sossegado sem querer interpretar tudo e ficar encontrando simbolismos e mensagens. Gosto de questionar a suposta linha que separa arte de filmes comerciais, e no meu tempo livre pesquiso sobre a história da animação.

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Alertas

  • – Todos os posts desse blog contém SPOILERS de seus respectivos assuntos, sem exceção. Leia com medo de perder toda a experiência.
  • – Todos os textos desse blog contém palavras de baixo calão, independente da obra analisada ser ou não ao público infantil. Mesmo ao analisar uma obra pra crianças a analise ainda é destinada para adultos e pode tocar e temas como sexo e violência.

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