Snowpiercer: O trem é uma metáfora, mas para quê?

Snowpiercer, filme que passou batido por muitos em 2014, dirigido por Joon-ho Bong, ele é uma mistura uma trama de ação e aventura com um nada sutil background politico metaforizado na forma de um trem onde o filme inteiro ocorre. Quando eu vi o filme eu fiquei fascinado de verdade, quis ler mil críticas e análises em todo local sobre o que estava realmente sendo dito ao longo do filme, e notei que embora a parte óbvia muitas pessoas consigam identificar (como o fato de que o filme é sobre luta de classes, isso qualquer mané nota), muitos discordam quanto qual é a mensagem ou a visão do autor sobre o assunto, e onde ele quer chegar com a metáfora.

E sempre lembrando que ao se pensar ficção, a visão do autor é importante, mas não é absoluta, diferentes interpretações de uma obra não são menos válidas porque o autor não as concebeu daquele jeito; existem tantas histórias quanto existem pessoas capazes de interpretá-las de modo diferente. Então embora seja válido refletir sobre o que o autor quer passar, é tão válido quanto refletir sobre o que o autor passou sem querer.

Snowpiercer também me chama a atenção pelo fato de que muita gente não gosta do final, e mesmo os que gostam do final não gostam dos últimos segundos do final. Eu costumo gostar de finais que a maioria não gostou, vide LOST, o que me dá uma grande vontade de refletir sobre porque aquele é o final do filme.

Bem, eu gostaria de dedicar um tempo para dar minha interpretação de qual é a grande alegoria do filme, e de porque o final é um bom reforço para seus temas. Como eu disse, assim que eu terminei o filme eu fiquei tão fascinado que comecei a devorar análises e interpretações e pensar a respeito e ler o que os outros disseram. Li algumas interpretações ótimas e algumas cretinas, e eu fui convencido pelo argumento de algumas das ótimas, então se por algum motivo algum leitor achar que eu falando a mesma coisa que outra pessoa já disse… isso é bem provável. Adoraria linkar todos os blogs com excelentes interpretações do filme no texto, mas esqueci do endereço de quase todos. Mas tem um vídeo muito bom que vou deixar no link no fim do texto.

Enfim, vamos ao filme.

TitleCard

Snowpiercer é um filme que se passa no futuro, onde em uma tentativa fracassada de contra-atacar o aquecimento global, uns cientistas imbecis congelaram o planeta inteiro em uma nova era glacial onde a sobrevivência é impossível. E os últimos sobreviventes da Terra estão atualmente morando em um gigantesco trem com milhares de vagões, que dá a volta ao mundo sem parar de correr jamais. Esse trem se chama Snowpiercer, pois ele é capaz de passar por qualquer neve ou gelo que se reúna nos trilhos com seu inabalável poder, e é uma máquina imponente com seu movimento perpétuo mantendo a humanidade estável e aquecida dentro dele, captando água do gelo e da neve que ele atropela, e produzindo calor.

Trem
O trem é gigante mesmo. O suficiente para conter uma população funcional inteira.

Esse trem é dividido por vagões, como era de se esperar, e esses vagões são uma alegoria nada transparente sobre classes sociais. Literalmente, a parte dos vagões é praticamente a Revolução dos Bichos de tão claro que é sua alegoria. Os pobres vivem nos vagões do fundo do trem, com condições de vida precária, tendo que diariamente lutar pela própria sobrevivência. Os ricos vivem nos vagões na frente do trem, com luxo e conforto e sem ter que se preocupar com nada a não ser ligeiras banalidades. Naturalmente, vamos acompanhar a história dos pobres que moram no fundo do trem.

VagaoPobre
Apertado, mal iluminado, e precário. Esse é o fundo do trem.

O vagão pobre é horrível. Ele não tem janelas, é superpovoado, com pouco espaço para pessoas, e conta com a constante presença da segurança do trem, homens armados de fuzis que garantem que os membros do fundo do trem vão respeitar suas fronteiras e não tentarão ir pra vagões melhores que eles não merecem. A única comida que eles têm é um bloco de proteínas gelatinoso nojento. E a única maneira de sair dos vagões pobres é se alguém de um vagão mais a frente precisar de você.

Por exemplo, no começo do filme, um membro do fundo do trem, é chamado para o meio do trem, onde ele trabalhará como violinista e servirá de entretenimento aos passageiros do meio do trem. O violinista quer levar a esposa junto, mas não só ele não consegue e é separado da esposa, como a esposa é espancada pela segurança do trem.

Gerald
O violinista e sua esposa.

A vida lá é uma merda, sem dignidade nem nada. Eles diariamente são contados, para ter sua população controlada. E o que é isso? Tem esse cara que não se abaixa quando o segurança manda durante a contagem.

Ele é o nosso protagonista. O Capitão América!

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Olha. Tem filmes em que eu acho que o casting cair como uma luva levando em conta papeis anteriores do personagem é mais uma coincidência que qualquer coisa (por exemplo, o Michael Cera e a Mae Whitman interpretarem namorados em Arrested Development, e depois Mae Whitman interpretou a ex-namorada da namorada de Michael Cera em Scott Pillgrim vs the World). Outros eu tenho certeza de que são propositais para ajudar a pensar nos personagens (como o Leonardo DiCaprio e a Kate Winslet, interpretarem um casal que é a antítese do sonho americano em Revolutionary Road, depois de terem feito um dos casais mais famosos do cinema em Titanic.) Porém com Chris Evans eu não consigo ter certeza se acho que é o primeiro ou o segundo caso, mas não importa. O rebelde protagonista revolucionário disposto a acabar com a luta de classes é o Capitão América.

O nome dele é Curtis Everett, e ele é o líder de uma revolução que está prestes a explodir nos vagões do fundo. Ele tem recebido mensagens escondidas de alguém nos vagões da frente que apoia a revolução, e está disposto a ocupar os vagões da frente e tomar o controle do motor e do trem, visando assim acabar com esse sistema de hierarquizar os vagões e dar uma vida mais digna para todos no trem. Porém isso significa desafiar Wilford, o inventor do trem, e o homem que controla o motor.

Mas Curtis é um líder mais militar. O líder ideológico é Gilliam, um velho sem um braço e sem uma perna, que já não consegue mais lutar, mas ainda inspira todos nos vagões do fundo a desejar uma vida melhor do que a que eles foram designados. Se Curtis fosse um Lenin, Gilliam seria um Marx.

GILLIAM
Gilliam e Curtis

Porém os dois ainda não estão prontos para começar a rebelião que planejaram, estão quase lá, mas precisam de um detalhe, e o informante que eles têm nos vagões da frente deu o detalhe, em uma mensagem escondida nas barras de proteína. Esse detalhe é um homem que eles teriam que libertar chamado Namgoong.

Porém, antes da revolução começar eles recebem a visita dessa mulher vestida de amarelo que nunca é nomeada no filme. Ela pede para ver todas as crianças dos vagões de trás. Ela mede todas com fita métrica e decide que tem duas que ela quer levar aos vagões da frente.

MulherdeAmarel

Os pais não acham isso uma boa ideia e ficam putos de ter seus filhos sequestrados por essa mulher sem poder fazer nada. E por isso um deles taca um sapato na vaca.

MulherdeAmareloFerida

Péssima ideia. O incidente traz diversos associados de Wilford ao vagão dos fundos e estes decidem dar um exemplo a todos. Eles pegam o pai do menino sequestrado que atirou o sapato e amputam o braço dele, por congelamento. Não sem antes fazer um discurso sobre seguir a ordem natural das coisas e não questionar seu lugar nem tentar sair dele.

BracodeAndrew

O discurso é feito por Mason. Uma das principais associadas de Wilford. Mason originalmente era uma menina do vagão do fundo, mas foi escolhida por Wilford para fazer parte dos vagões da frente, e hoje anos depois, ela pisa em cima daqueles que estão numa condição que ela quer esquecer que já esteve. Ela não tem empatia pelos que não ascenderam socialmente como ela fez, e sadisticamente desfruta de seu status.

O lugar do sapato é nos pés e o lugar do chapéu é na cabeça Quando o sapato é usado na cabeça a ordem é quebrada. Sejam sapatos. Fiquem nos pés. Conheçam seu lugar e mantenham seu lugar.
“O lugar do sapato é nos pés e o lugar do chapéu é na cabeça Quando o sapato é usado na cabeça a ordem é quebrada. Sejam sapatos. Fiquem nos pés. Conheçam seu lugar e mantenham seu lugar.”

Ou seja, é uma péssima pessoa.

Bom, sem mais enrolação. Curtis começa a revolução finalmente. Ele tem o nome do cara que quer libertar e crianças foram sequestradas pelo Wilford. Ele tem que agir. Ele e seu principal parceiro Edgar debatem e chegam a uma teoria, de que os fuzis dos seguranças não têm mais balas, e que as balas foram extintas. Então que eles podiam aproveitar a vantagem numérica e passar pelos seguranças para invadir os vagões logo a frente dos vagões pobres com um longo cano que impedia as portas dos vagões de se fecharem.

O vagão logo à frente dos vagões do fundo é o vagão-prisão. Naturalmente todos os que quebravam as leis do trem e eram presos iam receber um péssimo tratamento e ser enviados para o fundo. E o preso que eles querem libertar, Namgoong, é ninguém menos que o cara que projetou toda a segurança do trem.

VagaoPrisao

Não tenho bem certeza de porque ele está preso. Mas ele é viciado nessa droga chamada Krenol. Um produto feito de resíduos químicos tóxicos que o trem produz. Namgoong é vidrado nessa droga, e aceita o acordo, de que ele recebe um pouco de Krenol para cada porta do trem que ele abrir. Na verdade ele recebe duas porções de Krenol, pois ele insiste em libertar também sua filha Yoona, que é igualmente viciada na mesma droga.

Yoona

Próximo vagão que eles encontram é onde começam a aparecer as janelas do trem. Pois os fodidos do ultimo vagão não podem ver o lado de fora. Eles têm que se manter alienados dentro do trem, e esquecer que existe um mundo fora dele. Porém dado que o mundo é congelado e inabitável, não faz muita diferença ver a janela agora, é meramente lembrar de como eles dependem do trem para sobreviver.

Janelas

Gilliam, que está acompanhando os revolucionários mesmo sem poder lutar olha pela janela e lamenta: “Damn. It’s still cold! Dead… all dead.”

O trem em sua perfeição é o que os impede de estarem mortos, e por pior que alguns vivam dentro do trem, não existe uma opção melhor que o trem; por isso ele é o que tem para hoje e todos devem se contentar.

No próximo vagão eles encontram Paul, um ex-habitante dos últimos vagões.

Paul
Paul

Paul agora vive nessa fronteira entre o fim do trem (a pobreza extrema) e o meio do trem (a classe média), sendo o operário que cuida da produção das barras de proteína que os habitantes do fundo do trem come. E Curtis ao ver a máquina descobre do que essas barras são feitas.

De baratas. Baratas processadas.

Vocês não precisam ver a imagem de milhares de baratas sendo processadas para alimentar os pobres.
Vocês não precisam ver a imagem de milhares de baratas sendo processadas para alimentar os pobres.

Curtis fica puto com Paul por dar esse lixo para eles comerem, mas Paul fala que não pode fazer nada, e que inclusive ele come as barras que ele faz. Paul não é um cidadão de privilégios, ele meramente não vive na merda, mas vive em más condições, e tendo mais noção do mundo além dos últimos vagões que seus ex-colegas, é mais ciente do quão sua vida é ruim. Curtis o chama para entrar na revolução, mas Paul responde “foi mal, mas meu lugar é aqui.” Ali, transformando barata em comida que ele mesmo e todos abaixo dele comerão. Curtis decide não contar para ninguém do que é feita a comida deles. Paul entrega a eles uma mensagem de seu informante nos vagões da frente, a mensagem era “água”, e Gilliam entende o que está sendo proposto.

Agua

Se ao invés de ocuparem o motor, eles ocuparem o vagão que transporta água para o trem (dois vagões à frente), eles podem negociar com Willford seus termos. Mas Curtis tem interesse em ir ao motor e tirar Willford do poder.

No próximo vagão, Curtis e seus aliados revolucionários são surpreendidos por uma multidão de mascarados portando machados, dispostos a não deixar a revolução prosseguir. Essas pessoas, ao menos para mim, sempre me pareceram diferente dos seguranças armados que ficavam na área pobre. Os seguranças armados me passavam uma sensação de só estarem fazendo seu trabalho. Esses mascarados, que não ganharam armas de fogo de Willford, mas tiraram a própria individualidade para ajuda-lo, me passam uma sensação forte de ideologia e de que eles fariam tudo para impedir que o sistema que Willford comanda seja destruído porque o povo do fundo não aceitou seu lugar.

Mascarados

Isso é tão forte, que no meio do massacre, com baixas para ambos os lados, os mascarados vêm que o Snowpiercer vai passar pela Ponte Yekaterina, e como o trem, em toda sua perfeição, demora exatamente um ano para dar a volta no planeta, as datas podem ser lembradas pelo local, que ele está passando. E a Ponte Yekaterina marca o ano novo.

Roboticamente interrompem a luta para comemorar um feriado. Todos eles sem exceção. A falta de individualidade desses mascarados me assusta muito.
Roboticamente interrompem a luta para comemorar um feriado. Todos eles sem exceção. A falta de individualidade desses mascarados me assusta muito.

Os soldados param o massacre e param de lutar para comemorar “Feliz Ponte Yekaterina” e se saudar, cegos por comemorar uma data que pros revolucionários não realmente importa.

A verdade é que esses mascarados me intrigam muito, mas não sei muito bem interpretá-los. Minha teoria pessoal é que eles são voluntários de vagões mais a frente, ideologicamente comprometidos em manter os membros do fundo em seu lugar. Mas adoraria que o filme tivesse falado mais sobre quem são eles de onde vieram e qual a diferença entre eles e os guardas com fuzis descarregados no fundo do trem.

O importante dessa batalha com os mascarados são três cenas de morte.

A primeira cena de morte é quando um funcionário do trem, com uma notável autoridade sobre os soldados é capturado por um dos revolucionários. Ele olha para Mason, que assistia a batalha e implora que ela renda os soldados ou ele morrerá. Mason olha como se não fosse problema dela e deixa friamente o aliado morrer como a vaca que ela é.

Mason sendo uma escrota. É meio que o que ela faz o filme inteiro.
Mason sendo uma escrota. É meio que o que ela faz o filme inteiro.

A segunda é quando o Franco Jovem, o mais jovem de dois irmãos que trabalham para Willford, rende Edgar, o aliado mais próximo de Curtis, de quem ele é extremamente apegado. Curtis vê a chance de render Mason e fazê-la parar a batalha e deixa-los passar. Ele coloca a revolução acima do amigo e deixa Edgar morrer para não perder a chance, e Edgar morre.

MasonCapturada

A terceira é quando Franco Jovem morre. Yoona, a filha de Namgoong, passou a batalha inteira escondida e segura, pois o pai dela providenciou que ela tivesse onde se esconder e não tivesse que participar da batalha. Ao sair do esconderijo, Franco Jovem tem uma reação violenta e corre em direção a ela, e ela acidentalmente o mata. O Franco Jovem é chamado assim, pois é o irmão mais novo do Franco Velho que olha seu irmão morrer. Franco Jovem antes de morrer segura o rosto de Yoona violentamente e a encara. Namgoong separa o Franco de sua filha antes dele morrer.

A pergunta é: porque o Franco Jovem foi atacar logo Yoona que estava escondida?
A pergunta é: porque o Franco Jovem foi atacar logo Yoona que estava escondida?

É curioso como Namgoong parece durante o filme inteiro preocupado só em três coisas: em Kronol para drogar a si mesmo e a filha; em proteger Yoona de tudo que o trem de Willford ou a revolução de Curtis possa causar a ela; em olhar pela janela, e garantir que Yoona também está olhando.

Porém Curtis consegue seu objetivo, ele sequestra Mason e rendeu os mascarados e os revolucionários sobreviventes ganharam acesso ao vagão com o reservatório de água. Um dos vagões mais preciosos do trem. Gilliam diz aos sobreviventes que tomem um banho no vagão da água e se lavem do sangue. Para Curtis isso significa se lavar também do fato de que para continuar com sua causa ele sacrificou um amigo importante.

No reservatório de água, eles falam com Mason, e Mason percebe que Willford não fará nada para socorrê-la e decide traí-lo. Ela fala que vai ajudá-los a chegar até o motor se Curtis prometer matar Willford para que ela não seja punida como uma traidora.

Rendida, Mason trai Willford pela própria sobrevivência.
Rendida, Mason trai Willford pela própria sobrevivência.

Eles resolvem ir para o vagão seguinte em menor número. Deixam Gilliam e os outros ocupando o vagão da água e vão em diante; Curtis, Tânia que teve o filho, Timmy, sequestrado pela mulher de amarelo; Andrew que também teve filho sequestrado e é o cara que perdeu o braço lá atrás; Gray, um mudo e o maior seguidor de Gilliam. Namgoong e Yoona; e Mason.

Revolucionarios

E agora nossos revolucionários chegam oficialmente ao que pode ser chamado de “O Meio do Trem”, ou cruzam o limite para onde os habitantes do trem podem ser chamados oficialmente de Classe Média.

VagaoHorta

O primeiro vagão do Meio do Trem é uma horta, onde vemos plantações e laranjas e várias pessoas trabalhando. Com exceção de Paul, víamos muito poucas pessoas trabalhando na área pobre, mas também não precisavam de muitas. O que o pessoal do fundo consumia? Uma barra de proteínas, que era um bando de barata processada que o Paul cuidava. E água cujo vagão era na área pobre também. O que é produzido no meio do trem não vai pro fundo, fica no meio e vai para a frente.

Os trabalhadores estranham Mason estar algemada, mas continuam trabalhando, pois trabalhar é importante. E Namgoong pega um punhado de terra da horta e mostra para Yoona, ensina para ela sobre como antes de ter neve o mundo tinha terra. E que ela está debaixo de toda essa neve.

PaieFilha

O próximo vagão é o vagão-aquário. Onde Mason oferece Sushi aos revolucionários, falando que eles deram sorte, pois Sushi só é servido duas vezes ao ano no trem. Tanya questiona sarcasticamente se é porque falta peixe, e Mason friamente explica que o aquário é um ecossistema perfeito e o Sushi é servido pela necessidade de controlar a população do aquário para o equilíbrio continuar perfeito.

Todos comem Sushi em paz, mas Namgoong só fica olhando pela janela atrás do sushiman, os destroços do mundo fora do trem.

Janela

Mason tenta comer sushi, mas Curtis faz questão de coloca-la em seu lugar, e fala que ela vai comer a barra de proteínas. Confirmando que ela sabe do que as barras são feitas.

Mais alguns vagões e Mason pede para Curtis que ela entre no próximo com suas algemas escondidas pelo bem das crianças. O próximo vagão é a escola, um dos momentos mais centrais do filme.

Escola

Aqui, vemos como as crianças do meio do trem são educadas. Elas falam que aprenderam que pessoas do fundo do tem são todas preguiçosas sujas e nojentas. Tanya e Andrew notam que seus filhos não foram levados até aquela escola. Aliás é interessante ver como somente a classe média vai a escola no trem. Os vagões pobres não tem uma, e dos vagões ricos eu falarei em breve.

Os revolucionários vêm um vídeo educativo sobre como Willford era um pensador, e após isso a professora e eles cantam uma canção que todas aquelas crianças já decoraram sobre a infalibilidade do motor. A letra diz que o motor nunca para de funcionar e o trem nunca para de correr, pois se parar, todos eles morrem. E que eles podem confiar que o trem não vai parar, pois se parar todos eles morrem.

Aula

A última lição da aula é o momento em que o trem passa em frente a sete corpos congelados de pé. São os participantes da “revolução dos sete” que ocorreu anos atrás. A professora explica pros alunos e pros revolucionários que aquelas pessoas tentaram parar o trem e escapar dele no passado, e após falhar em parar o infalível motor, eles fugiram mesmo assim, e os corpos congelados mostram o quão longe eles conseguiram andar no mundo exterior. Sempre lembrando que fora do trem existe somente a morte.

R7Alunos R7Namgoong Revolucaodossete

Já Namgoong dá a mesma lição para Yoona, mas dá de maneira diferente. Ele explica para Yoona que a líder da revolução era uma mulher esquimó que sabia sobreviver ao frio e lidar com a neve. E informações reveladas por fora, depois confirmaram que a esquimó que liderou a revolução dos sete era a mãe de Yoona.

Nesse momento já deu para pegar qual é a grande mensagem do filme.

O trem é regido por um sistema que se espelha muito no capitalismo atual e o maior sintoma do trem é a divisão por classes sociais, e o constante conflito entre elas, com os pobres tendo rancor dos ricos, e os ricos medo dos pobres ascenderem. E Curtis quer acabar com esse sistema, tomar o controle do motor e fazer algo melhor. O trem é uma linha reta, onde existe a o começo o fim e o meio, e todos os personagens têm como principal foco de sua atenção em que ponto dessa linha reta eles estão e como eles podem se locomover nessa linha, indo para frente ou para trás.

Snowpiercer

E ai tem o Namgoong.

Namgoong não tem interesse na revolução de Curtis, ele só ajuda pelo Kronol. Curtis e Mason e Gilliam e Willford só vêm o mundo como vagões de trem alinhados querendo avançar e não regredir. Mas Namgoong só se importa com o que está fora do trem. Onde todos os outros personagens acreditam só existir morte, e não ser possível de sobreviver, Namgoong vê esperança de um mundo onde todas as coisas erradas que existem no Snowpiercer não precisem existir.

Se o trem é um sistema capitalista, e Curtis quer torna-lo mais socialista com sua revolução. Namgoong seria um anarquista que acha que enquanto o trem existir pouco importa quem o controla, e é com esse pensamento que ele educa Yoona.

A aula termina com um enviado de Willford distribuindo ovos para todos na sala de aula, inclusive os revolucionários, o ovo de Curtis naturalmente tem uma mensagem de seu informante, que é “sangue”, indicando que haverá um massacre na sala de aula. O enviado chega até o vagão de água e é questionado se ovos não tinham sido extintos. Ele responde que muitas coisas que os habitantes do fundo do trem achavam estar extintas não estavam. E saca duas metralhadoras. Ao mesmo tempo no colégio, a professora saca uma arma e atira nos revolucionários.

Professora

Os soldados na parte de trás do trem possuíam fuzis descarregados. Eles só serviam para ameaçar os pobres, mas só ameaçavam. O trem tem poucas armas reais com balas para distribuir, e quem tem acesso a uma delas? A professora. Quem é que realmente tem o poder de atacar os membros do fundo do trem? A mesma professora que ensina a classe média a louvar Willford, adorar o motor e desprezar os pobres. Essa é a real arma que fere os revolucionários, mais potente que os fuzis dos guardas que ficam nos vagões do fundo.

Profundo, né?

Andrew morre. A professora é morta na luta por Grey. E ao final Curtis, puto com o ataque, é obrigado a testemunhar um vídeo transmitido por Wilford, do Franco Velho matando Gilliam. Isso é demais pro líder revolucionário e ele desconta tudo matando Mason, mesmo com ela jurando que não tinha nada a ver com esse ataque.

GilliamMorre

Curtis está devastado de ver Gilliam morrer e da batalha, e Tanya pede que ele os lidere, Curtis segue com sua mentalidade. “Vamos continuar indo para frente.”.

Mais alguns vagões a frente, e temos uma sutil cena de Yoona tentando segurar o braço de Curtis que guiava todos e Namgoong tira a mão da filha, pois ele não quer ver a filha tomando parte na revolução de Curtis.

Começamos a ver o vagão biblioteca, o vagão dentista, o vagão alfaiate, como a boa classe média, os vagões intermediários retratam serviços e comércio e pessoas com empregos que trabalham duro para se manter no meio do trem.

VagaoAlfaiate VagaoDentista

E quanto menor a distância entre elas e a frente do trem, mais óbvia é a surpresa e o desprezo que elas têm ao ver gente do fundo do trem andando entre eles.

ClasseAlta

Eventualmente o trem chega em um momento em que ele faz a curva, e Franco aproveita a chance para mesmo estando vagões atrás de Curtis atirar nos revolucionários. Ele mira bem e atira todos seus tiros mirando em Yoona. Ele erra todos e a adolescente sobrevive. Mas isso é relevante, porque ele mira em Yoona? Se ela é a personagem mais deslocada na revolução, meramente acompanhando o pai e sem tomar parte em nada? Seria porque ela indiretamente matou o irmão menor de Franco? Ou seria porque ela e o pai dela são os dois que realmente representam uma ameaça aos objetivos de Willford? Uma pergunta a se fazer.

YoonaAlvo
O que Franco Velho vê em sua mira.

Eles seguem andando em frente, perseguidos por Franco e finalmente chegam à área rica do trem. Como sabemos a partir de que vagão já é oficialmente a frente do trem?

Bom, os vagões do extremo fundo eram todos monocromáticos e sem janelas. Tornando impossível ver o mundo fora do trem. Conforme os vagões começam a ter janelas, começamos a ver os pobres que faziam parte da classe trabalhadora (Paul), e assim que entramos na classe média, o filme subitamente ficou muito colorido, cores vivas e gritantes. Agora, os vagões voltaram a ter uma única cor, e nenhuma janela.

Franco caçando Yoona chega ao Vagão-Sauna.
Franco caçando Yoona chega ao Vagão-Sauna.

Pois os ricos vivem tão isolados e alheios ao mundo externo do trem quanto os pobres. A classe média tem que constantemente olhar o lado de fora, para se lembrar de que fora do trem existe somente a morte, e se motivar a trabalhar pelo funcionamento do sistema. Os pobres só se preocupam com a sobrevivência diária e em não ser completamente miseráveis, então eles devem ser alheios ao fato de existir um mundo fora do vagão deles. E os ricos, eles vivem somente por realizações hedonistas imediatas, em prazeres e ignorando tudo fora dos próprios vagões, alienados quanto a todos os conflitos do trem, iguais os pobres.

Franco alcança os revolucionários no vagão-sauna, ele acha que encontrou um revolucionário e atira nele, mas na verdade matou um passageiro da frente do trem por acidente. Quando questionado disso por um subordinado ele mata o subordinado. Franco não se importa com a revolução, com os soldados ou com o que os personagens estão diretamente envolvidos. Ele tem seu foco em matar Yoona.

FrancoMataSubordinado
Franco mata seu subordinado.

No vagão-sauna, Franco mata Gray e Tanya que o atacam diretamente, agora Curtis é oficialmente o ultimo revolucionário vivo para seguir com a revolução. Ele perde uma chance de matar Curtis e segue procurando Yoona. Mas Namgoong protege a filha e derrota Franco.

No meio da luta Yoona tenta ajudar seu pai e este não deixa, ele não quer ver a filha envolvida em lutas ou em nenhum dos problemas que o trem oferece a ela.

Namgoong impede Yoona de matar Franco.
Namgoong impede Yoona de matar Franco.

Em seu leito de morte, Tanya pede para Curtis salvar o filho dela sequestrado por Willford, ela implora para ele e morre.

Agora sobraram só Curtis, Namgoong e Yoona, eles seguem em frente, sempre em frente, o próximo vagão é um vagão balada, pros ricos se isolarem da realidade do trem, e o vagão seguinte é uma boca de fumo, pros ricos se drogarem e se isolarem da realidade do trem. Em ambos os vagões, Namgoong não perdeu tempo em roubar muito Kronol para ele e Yoona e em roubar casacos de pele também.

VagaoDrogas

Curtis está se aproximando do motor sagrado, ele passa pelo vagão com as máquinas que operam o trem, vagão desabitado. Curtis pede para Namgoong abrir a porta que o separa do motor, mas o anarquista se recusa.

NamgoongvsCurtis

Namgoong manda Curtis se acalmar e eles dividem um cigarro conversando. Curtis confessa que como quando o trem começou a andar ele era um animal irracional. As divisões do trem espelham as divisões do mundo antes do trem existir. As pessoas embarcaram no trem comprando passagens, os ricos pagaram caro para ter os privilégios dos vagões da frente, os pobres tinham pouco dinheiro. E os caras como Curtis que entraram de graça e foram pro extremo fundo eram pessoas que não tinham onde cair mortas.

O fundo do trem não era alimentado no passado, então quando o tempo passou e eles ainda não tinham conseguido comida no trem, eles apelaram para o canibalismo, e Curtis matou a mãe de Edgar, aquele rapaz jovem que seguia Curtis por todo lado, para poder roubar Edgar quando ele era um bebê e devorá-lo. Ele só foi impedido de ser um completo animal faminto e teve a chance de recuperar sua dignidade, quando Gilliam arrancou seu braço e deu para Curtis comer em troca da vida de Edgar. Por isso Gilliam era amputado, e por isso Curtis sentia um dever de proteger Edgar. Curtis vive com vergonha de como ele era até hoje, e por isso ele precisa acabar com o sistema de classes que domina o trem para impedir que pessoas como ele sejam criadas.

Só depois desse incidente que as barras de proteína passaram a ser servidas.

Namgoong fala que a história de Curtis é tocante de verdade, mas ele não tem a menor intenção de abrir a porta que o leva ao motor. Ele fala que ele quer abrir outra porta, uma porta que ninguém no trem pode ver, que todos confundem com paredes. Ele quer sair do trem. Curtis debocha de Namgoong dizendo que do lado de fora eles vão morrer.

Namgoong responde que o gelo e a neve esfraquecem e derretem com o tempo, que é possível se sobreviver, e Curtis acha que as ideias de Namgoong são loucas pois ele se droga em Kronol. O anarquista responde então porque ele se viciou em Kronol em primeiro lugar. Para ninguém suspeitar dele acumulando toneladas de Kronol, e presumirem que é só para ele ficar chapado. Mas Kronol é feito de dejetos químicos inflamáveis. Em resumo, se juntar muito Kronol junto, vira uma bomba.

NamgoongBomba
Namgoong e sua bomba de Kronol.

Namgoong quer explodir a porta do trem e escapar. Curtis quer impedi-lo. A briga dos dois é interrompida quando a mulher de amarelo sai do motor, dá um tiro em Namgoong e fala que Willford quer falar pessoalmente com Curtis.

NamgoongBaleado

Agora estão cara a cara: o homem que representa toda a opressão do sistema de classes do trem, estando no topo da pirâmide; e Curtis, o líder revolucionário que saiu do nível mais degradante que um homem poderia sair para tentar dar mais dignidade as pessoas.

Willford, em pessoa.
Willford, em pessoa.

Willford cumprimenta Curtis educadamente. Ele parabeniza Curtis por ser o primeiro ser humano a percorrer o trem inteiro. De uma ponta a outra. Ninguém chega até o motor exceto Willford. E Willford nunca foi ao fundo do trem, somente Curtis viu o trem inteiro com seus próprios olhos.

Isso é uma mentira do Willford, a mulher de amarelo está lá com os dois na sala do motor e ela foi pra área pobre. Mason falava com Willford, então se presume que ela já foi ao motor também. Willford não falou literalmente nesse caso, ele falou pois Curtis fez a maior escalada social possível de ser feita no trem, já que seu plano é tomar o controle do motor.

Curtis
A mulher de amarelo atrás de Curtis. Ela já foi ao fundo do trem antes.

Willford explica para Curtis que estar no motor também tem desvantagens (é solitário), e que todo mundo no trem tem um lugar próprio pro sistema funcionar, e o único que não entende o próprio lugar é Curtis. “Isso é o que quem está no melhor lugar diz pra quem está no pior. Não tem um único passageiro que não trocaria de lugar com você.” É a resposta de Curtis. E a resposta de Willford é se oferecer para trocar de lugar com Curtis.

Willford começa a explicar para Curtis que o trem é um ecossistema perfeito e deve ser controlado para ser mantido em equilíbrio. E para isso se controla comida, bebida, e população. Que nem o aquário que Mason explicou lá trás. Onde só se servia sushi duas vezes ao ano. Para o trem não ficar com mais passageiros que aguenta, Willford tem que garantir que alguns passageiros morram o tempo todo, e por isso propositalmente manipula esse sistema de rancor das classes baixas para ocasionalmente revoluções gerarem um número satisfatório de mortes e a população ser controlada.

A revolta de Curtis não foi genuína, foi manipulada por Willford, e Willford quer um sucessor, agora que ele viu que Curtis conseguiu chegar ao motor, ele está pronto para deixar Curtis assumir.

Mas ai a dúvida é “Mas Curtis não é um comunista nojento? Ele não vai foder tudo que Willford quer pro tem?”, não, Willford confia em Curtis para manter o trem estável, pois Curtis e Willford ambos sabem que eles dependem do trem para sobreviver. Curtis vai ser obrigado a operar nos termos do trem e do equilíbrio e continuar as merdas que Willford fez se quiser controlar o trem.

E a cereja do bolo. Lembram do Gilliam? Ele e Willford eram cúmplices, Gilliam instigava revolucionários para o controle populacional de Willford existir. O chefe do trem prova para Curtis que toda a ideologia de Curtis e sua revolta só servem para manter o sistema que Curtis tanto odiou. Que Curtis nunca foi um inimigo de Willford e sim uma peça que fazia o trem continuar operando em sua perfeição, e que ele não podia fazer nada para parar a injustiça do trem.

Telefone exclusivo para conectar Willford e Gilliam, assim os dois falariam mesmo estando em pontas opostas do trem.
Telefone exclusivo para conectar Willford e Gilliam, assim os dois falariam mesmo estando em pontas opostas do trem.

Curtis encara o motor que ele tanto queria alcançar derrotado, vendo o quão nulo era o objetivo dele, e Willford ainda continua destruindo as esperanças de Curtis. Willford revela que ele era o informante da frente do trem que mandou todas as mensagens; o tempo todo ele guiava Curtis e sua revolução, pois esta servia aos seus interesses. de Willford.

Motor

Do lado de fora do motor um Namgoong, baleado e ferido, tenta instruir Yoona a explodir a porta do trem, enquanto a protege do pessoal da balada de quem ele roubou Kronol e que resolveu se vingar.

Baladeiros

Willford mostra a briga de Namgoong com os alienados da balada. Isso é o mundo sem ordem, sem um líder, e ele pede que Curtis passe a ser esse líder no lugar dele. Ele mostrou que o homem não sobrevive sem um sistema, por mais opressor que seja. Antes de Willford alimentar o fundo do trem, eles eram canibais. Eles precisam do trem para ser funcionais.

Será que dá para a situação piorar para Curtis? Ainda dá sim.

A ultima revelação e a mais chocante na minha opinião, é o destino das crianças sequestradas. Elas estão dentro do motor, operando ele manualmente. Afinal o motor é infalível em sua mecânica, mas suas peças estragam como qualquer outra. Então Wilford precisa achar algum ser humano pequeno o bastante para caber no motor e ser usado de peça viva para o motor continuar tão eterno e infalível quanto ele diz que é.

PeçaViva

Não é infalível. Requer o sacrifício e o trabalho escravo de crianças de cinco anos. A perfeição do trem de Willford é falsa. O trem é um sistema que pra se manter funcional requer constante conflito entre os passageiros, requer que parte das pessoas sofram diariamente, requer mortes e requer o sacrifício constante de crianças que sirvam de peças vivas.

E o que acontecerá se Curtis assumir e for o oposto de Willford? Nada vai mudar, pois sem o sacrifício das crianças, o trem não corre, e se o trem não correr não vai fazer diferença o quão bom líder ele foi, pois sem o trem só existe o lado de fora.

Curtis entendeu agora o quanto ele estava despreparado para combater o snowpiercer, que era um sistema muito mais forte e cruel que ele imaginava que seria quando organizava a revolução. Ele cede, e decide mudar de lado, pro lado que o filme tende a favorecer. Ele estava guardando os fósforos do grupo consigo, para Namgoong não explodir o trem. Após a revelação, ele decide dar os fósforos para Yoona explodir a porta. E após isso ele sacrifica seu braço para tirar o filho de Tanya de dentro do motor.

Curtis põe o braço dentro do motor para pará-lo a força.
Curtis põe o braço dentro do motor para pará-lo a força.

Assim como Gilliam sacrificou seu braço para mostrar um mundo fora de um ambiente selvagem para Curtis. Curtis vai sacrificar seu braço para mostrar a Timmy um mundo fora do controle sistemático do trem.

Yoona acende a bomba, se veste com o casaco de pele que pegou dos hedonistas drogados, e se prepara para a explosão. Antes do trem explodir, ela abraça Timmy para protege-lo da bomba. E Namgoong e Curtis cercam Yoona para protegê-la. Afinal, ela é quem deve sobreviver para ir para fora do trem.

EscudoHumano

Curtis não tem motivo para viver fora do trem, ele viveu a vida inteira como parte de um sistema, e fora dele nada que ele fez, pensou ou lutou tem significado. Curtis só consegue existir em oposição ao trem, e quando a porta explodir e o trem parar, isso não terá mais valor. Namgoong é um homem adulto e viúvo, ele não necessariamente precisa viver fora do trem. Ele quer é dar para a sua filha um mundo com menos sofrimento do que o mundo onde ele viveu. Os dois servem de escudo humano para Yoona, pois quando o trem explodir será Yoona que herdará o legado de um mundo sem um trem, sem um sistema de classes, sem um Willford controlando tudo em busca de equilíbrio e perfeição. Yoona é quem viverá tudo nesse ideal de oposição ao trem de Willford.

Agora faz mais sentido o alvo central de Franco ser Yoona. Ela é a única que tem algo por que viver fora do trem, os outros estão velhos demais para deixar de viver no sistema do trem, somente Yoona é jovem o suficiente para recomeçar do zero.  Isso torna Yoona a maior ameaça aos ideais de Willford. Achávamos que era Curtis, mas Curtis nunca ameaçou o projeto de Willford.

Servindo de escudo humano, Namgoong e Curtis morreram. E a explosão causou uma avalanche que derrubou o trem do trilho. O snowpiercer morreu e não existe mais, o motor que era tão fundamental que não morresse, morreu. Agora só sobrou o temido e misterioso mundo exterior.

YoonaeTimmy

Yoona e Timmy. Os dois únicos personagens que nasceram dentro do trem, que nunca viram o mundo exterior, agora são os grandes sobreviventes da humanidade. Um Adão e Eva novos por assim dizer, eles saem do trem e caminham nesse mundo que eles podem recomeçar do zero. E qual é a primeira coisa que eles vêm?

Se preparem, essa é a cena mais odiada do filme.

UrsoPolar

Eles vêm um urso polar. Eles vêm vida fora do trem. Eles vêm prova concreta que fora do trem é possível existir vida. Dentro do trem tudo que eles ouviam falar sobre o mundo fora do trem era “morte”, e “impossível sobrevivência” e o trem era um mal necessário que os protegi da morte. Mas isso era mais uma mentira, fora do trem existe vida. E a sobrevivência de Yoona e Timmy é possível.

Muita gente achou essa ultima cena do urso polar esperançosa demais, e que esse final do filme deu muita esperança pra situação. Mas acho que o ponto era justamente esse.

A primeira vista é fácil achar que o filme é uma grande crítica ao capitalismo. E é mesmo. Ele critica toda a desigualdade social que o capitalismo causa em uma alegoria bem clara da hierarquia entre vagões. Mas isso não é a grande crítica do filme. O título do post pergunta, o trem é uma metáfora para quê? Para o capitalismo? Não!

O trem não é o sistema capitalista em si. Willford é. Willford personifica o capitalismo. Ele defende toda a noção muito comum de que por pior que o Capitalismo seja, não existe opção melhor. Porém embora Willford seja o vilão, ele não é o trem que dá o título ao filme e que era necessário ser destruído.

Willford explica para Curtis o quão inevitaveis são as injustiças do Snowpiercer.
Willford explica para Curtis o quão inevitaveis são as injustiças do Snowpiercer.

Agora, o filme toma a perspectiva de Curtis que é a metáfora pro lado socialista. Mas o filme toma o lado de Curtis? Isso significa que é um filme pró-revolução-comunista? Não! Curtis era ingênuo e acreditava numa utopia que ele não podia realizar, ele só podia repetir as injustiças de Willford. Curtis não estava certo. O filme não pende para a esquerda.

A ideia de esquerda e direita é meio que nem a ideia do trem. Dois extremos, e um monte de meios do caminho entre esses dois formando uma linha reta. O que o filme ataca é essa visão de que só existe a esquerda e a direita. Assim como para Curtis só existia o fundo do trem e a frente do trem.

O filme é anarquista. E o trem, é o Estado. O Estado é segundo Hobbes necessário para impedir o caos. E Willford acreditava nisso, que sem a ordem dele, haveria o caos. O homem no estado selvagem se revelou nos drogados atacando Namgoong e no passado canibal de Curtis. O trem é um grande Estado e não importa quem seja o chefe de Estado, essa pessoa terá que sacrificar pessoas como peças vivas do sistema, para o Estado funcionar e proteger a humanidade de si mesma. Pois o Estado necessariamente vai oprimir as pessoas para poder gerar ordem.

E ai temos Namgoong. O anarquista. Namgoong é o único personagem coreano em um filme americano dirigido por um diretor coreano. Namgoong é a perspectiva que o filme defende. A perspectiva que em um mundo onde todo mundo vê frente e trás e nada mais, vê o que tem dos lados, olha pela janela do trem e vê esperança de um mundo melhor longe de um Estado onde é impossível ser justo.

Namgoong observa os flocos de neve que entram pela janela durante uma das batalhas da revolução de Curtis.
Namgoong observa os flocos de neve que entram pela janela durante uma das batalhas da revolução de Curtis.

“Você acha que isso é uma parede, mas é uma porta.” É o que ele diz pra Curtis. E no final quando Curtis vê o quão em vão era sua revolução e tudo que ele acreditava, ele passa para o lado de Namgoong, tira a peça-viva de dentro do motor e ajuda a explodir o trem.

Agora que não existe mais Estado, só resta aos novos Adão e Eva, refazerem uma nova e justa sociedade. E esse ideal anarquista só poderia ser completo se os personagens vissem a prova de que existia vida fora do trem. E por isso a cena do urso polar, para coroar que Yoona e Timmy tem um futuro possível, e que o sacrifício de Namgoong não foi em vão, ele tem esperança de que sua filha crescerá em um mundo melhor do que o que em ele cresceu.

A ultima impressão do filme que deixo é uma curiosidade. O trem foi construído antes do mundo congelar, na esperança de ser um luxuoso cruzeiro que depois que a humanidade se autodestruiu se tornou o ultimo refugio da humanidade. Isso é a mesma premissa da nave Axiom em Wall-E. Uma curiosidade interessante. Não sei traçar relação nenhuma entre esses fatos, mas fico curioso com esse conceito pós-apocaliptico em que os únicos humanos sobreviventes estavam em um cruzeiro autossustentável.

Conforme prometido, deixo um link no youtube que vai falar muitas das coisas que eu disse de maneira bem superior, analisando a fundo o filme.

6 thoughts on “Snowpiercer: O trem é uma metáfora, mas para quê?

  1. Snowpiercer foi me recomendado por um amigo que assistiu o filme e ficou em êxtase durante os dias seguintes, pregando como Joon-ho foi sagaz em sua metáfora. Vendo o filme, eu percebo como algumas leituras podem ajudar a interpretá-lo. A principal delas, diria eu, é “Ishmael”, de Daniel Quinn.

    Me arrisco a dizer que uma interpretação certeira não é considerar o trem como o “Capitalismo” ou como a “Sociedade”, mas sim como uma representação tenebrosa do viés pelo qual trabalha nosso sistema cultural como um todo. A cultura engloba tudo – religião, economia, trabalho, arte. Há um desespero por parte do personagem Namgoong em escapar do trem que pode ser visto como a corrente new age que urge em incentivar seus membros a se isolar da sociedade em comunidades de cultura autossustentável. Uma visão crítica classificaria tais desbravadores new-age não como os detentores da solução para o futuro da humanidade, mas sim como “mavericks” perdidos em meio a tempestade, que não sabem direito para qual lado remar.

    O trem precisa definitivamente ser descarrilhado. Ele não reduz a velocidade, ele não muda a ordem dos vagões, ele não faz caminhos diferentes, não importa quem esteja na cabine sendo o maquinista, seja ele um Donald Trump ou a próxima encarnação do Che Guevara.

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  2. Walter Benjamin acreditava que todo ressurgimento de fascismo é resultado de uma revolução que falhou. Algum potencial revolucionário que existe, não é aproveitado inteiramente ou apenas não se saiu vitorioso, seria o que faz com que o espírito fascista surja no seio das sociedades e ganhe adeptos e apoiadores dentre a população. Zizek vai ainda mais fundo ao dialogar com Benjamin e diz que todo fascismo é resultado do fracasso da esquerda.

    Me lembrei disso ao pensar nos mascarados que aparecem antes do vagão da água: o fato de serem uma massa sem rosto ou individualidade que celebra cegamente os feitos e símbolos do sistema (como mostra a cena do ano novo), além da aparência de terem a missão de frear Curtis acima de qualquer outra vontade etc, dão esse caráter ideológico mencionado que muito me lembra um viés fascista/ultra-nacionalista.
    Se pensarmos no trem como uma estrutura complexa que estimula e tem o aproveitamento parcial dos potenciais revolucionários como um dos seus métodos de se manter “saudável” – a eclosão de revoltas e motins vindos da cauda de tempos em tempos e que se tornam parte da lógica sustentável do trem, além de parte da sua história e de seu discurso de si – poderíamos também pensar que os lutadores mascarados são frutos dessas antigas revoluções que não se completaram. Nelas encontraram um motor de revolta que os tira de seu lugar de origem, encontram também um antagonista e um motivo a parte para se unirem, agem como se por si só gerassem um sistema de lógicas e motivações próprias, mas no fundo ainda são peças de um sistema mais amplo que não pode ser separado deles e de suas motivações enquanto surgir – o Estado capitalista personificado no trem.
    Pensando desse modo dá pra dizer que eles podem ter vindo originalmente de qualquer parte do trem, membros de vários locais do trem formam a multidão. Eu mesma creio que a grande maioria tenha vindo da cauda pois as linhas de frente desse tipo de organização ultra direitista sempre foram formadas pelo povo e dependem de certa aceitação entre as camadas baixas para terem força de combate. Qualquer pessoa que viveu durante uma eclosão revolucionária e viu a queda da mesma poderia estar ali no meio – cada um com sua origem e motivação, ambas apagadas em nome do coletivo.

    Se o trem pretendia mesmo fornecer metáforas para todo o jogo político do Estado e para as lógicas que movem ou brecam esses jogos, acho que faria muito sentido mencionar esses regimes de exceção e que essa cena foi o modo que escolheram para fazer essa menção.

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  3. Não consigo ver a “grandiosidade” deste filme. É uma crítica fraca ao sistema de opressão e discriminação da sociedade e como essa opressão pode detonar conflitos em que ambos os lados estão equivocados. Isso nem é novidade e muito menos algo tão profundo. No fim ninguém têm razão e a humanidade provavelmente foi extinta já que a japonesa era chapada demais para sobreviver e o moleque morreu devorado pelos ursos.

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  4. Muito boa a interpretação do filme, eu só não concordo sobre ter alguma crítica ao capitalismo. Só vi na história uma crítica fervorosa aos regimes totalitários, como o fascismo, comunismo e socialismo.
    Vejamos as pistas:
    – O diretor é sul-coreano, logo deve ter um repúdio pela ditadura do seu vizinho-irmão Coréia do Norte.
    – No filme não temos trocas voluntárias, nem moeda nem qualquer relação trabalhista capitalista. Aqueles que trabalham exercem uma função pré-estabelecida, como acontece no comunismo norte-coreano.
    – Temos o grande líder, endeusado, amado, a “locomotiva” da nação. Contradizê-lo é pedir para morrer. Ele é intocável, poucos súditos podem falar pessoalmente com ele.
    – A divisão de classes não é exclusiva do sistema capitalista como os marxistas tentam rotular. Nas ditaduras socialistas também ocorre essa divisão, ainda mais perversa, vide como vivem os chefes dos governos e financiadores dos sistemas cubano, chinês, norte-coreano e também nas teocracias islamicas comparado com a maioria da população.
    – A ascensão social no filme é escravocrata. “Precisamos de alguém que saiba fazer isso”, e o fará contra a sua vontade (o violinista não queria ir sem sua mulher, mas foi obrigado). Diferente de um sistema liberal/capitalista em que o crescimento social se dá por esforço próprio, a partir da liberdade de seguir o caminho que escolher.
    – As ditaduras comunistas precisam de barreiras para manter o povo preso, o trem é o muro de Berlim, as cercas dos campos de concentração norte-coreanos.
    – Temos os “camisas negras” ou as “milícias chavistas”, coletivos violentos defendendo o sistema opressor.
    – Não temos um sistema judiciário, elemento indispensável numa democracia liberal/capitalista.
    – A população é desarmada; a educação é doutrinária desde a infância, sempre favorável ao grande líder.
    – Temos no filme o seu próprio Holodomor, quando o sistema decide quem vive e morre deixando a população passando fome, culminando no canibalismo.
    – O que você chamou de ricos, penso ser a sociedade hedonista aliada ao partido, que sustenta ideologicamente e financeiramente o sistema. Por exemplo, é a nossa classe artística bancada com dinheiro público. São os empresários privilegiados pelas benesses estatais. Se podemos pensar em capitalismo, no máximo seria o Capitalismo de Estado, tão comum em sistemas totalitários.
    – Eu entendo que não existe classe trabalhadora assalariada no filme, portanto não existe classe média própria do capitalismo, os que trabalham são escravos, que cumprem uma função específica para manter o Estado funcionando, demonstrado no filme várias vezes pelo sushiman, o violinista, o agricultor, o cozinheiro, garçons…
    – Os pobres são mantidos no trem como massa de manobra, pois uma hora podem precisar deles, seja como escravos e outros fins abomináveis, como os judeus serviram aos cientistas alemães em experiências malucas ou os coreanos que trabalham forçados nas fábricas e nas lavouras produzindo para abastecer a classe dominante e membros do partido.
    Bom é isso! Abs e valeu pela bela análise.

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