Quais as ciências que Dr. Stone ignora?

Q

Olá, quanto tempo gente.

Falar que estive sumido não faz justiça ao quão abandonado esse blog tem estado nos últimos meses e para dar aos meus leitores o mínimo de satisfação, quero pedir desculpas e falar que estou atualmente em um processo de tentar morar fora do país e lidar com a burocracia está lidando com boa parte do tempo que eu dedicaria ao blog, pois não está sendo fácil pra mim pra termos práticos nem psicologicamente, pois está sendo um processo difícil. Dito isso, o site teve um problema de ter ficado fora do ar por muito tempo, onde toda a minha completa leiguice em relação a como manter um site online foi posta a prova, pois eu não tinha ideia do que fazer até eu finalmente descobrir que era relativamente simples e eu só não sabia por onde começar.

Dito isso desculpas.

Enfim, dito isso. De uns tempos pra cá eu tenho visto menos filme, menos séries e lido mais mangás, por nenhum motivo exceto estar em uma fase mais otaku… cinema estar cada vez mais caro e meu computador ter quebrado e meu laptop não ser o lugar ideal para baixar filme por sua baixa capacidade podem influenciar no fato de eu ter visto pouquíssimos filmes esse ano.

Mas eu vi Detective Pikachu. Infelizmente não tenho muito o que falar a respeito.

Mas eu quero por a culpa em Green Book e falar que esse prêmio do Oscar foi tão nojento que broxou completamente minha relação com Hollywood. Então se perguntarem pra vocês o motivo oficial foi esse. Não existe mais amor pelo cinema em um mundo em que Green Book ganha o Oscar.

Que Oscar horrível meus amigos.

Enfim, não estranhem se os próximos 3 ou 4 textos aqui for praticamente sobre mangás como o último também foi, pois daqui a pouco eu volto a falar de animação. Quando as grandes animações novas começarem a estrear…. porque também sem Adventure Time, com Steven Universe indo para uma temporada que eu não sei se é necessária, não tem mais Gravity Falls e Star vs the Forces of Evil teve um final satisfatório, mas apressado que não me dá vontade de comentar.

Mas tem batido a vontade de falar de Phineas e Ferb também no futuro, então se liguem, esse blog não abandonou as animações como o pilar que o sustenta. O Dentro da Chaminé ainda ama desenhos animados, e isso é mais do que a Disney pode dizer hoje em dia.

Ok, chega de falar dos bastidores. O ponto é que nos últimos meses eu resolvi me afundar em mangás enquanto mídia, e parte dessa decisão envolveu entrar de cabeça nessa revista chamada Shonen Jump, que em resumo: se você não é otaku e já viu um anime na vida, 50% de chances dele ser da Shonen Jump. E eu resolvi pegar essa revista e ler todos os mangá que ela tem em públicação, cada um deles, entender com afinco em que direção o mercado dos mangás está indo.

E chegar na conclusão de que nenhum é mais legal do que um que eu já leio tem mais de um ano: Dr. Stone. Que vai ganhar anime daqui a pouco e provavelmente vai ser um dos animes comentados da próxima temporada. Então vamos falar sobre Dr. Stone.

Dr. Stone é um mangá que explora as aventuras de Senku Ishigami, um garoto fascinado por ciência, ele é um cientista, um gênio e uma das pessoas mais inteligentes do mundo. Porém nada disso tem valor pois o mundo acabou e a humanidade acabou…. por 3700

Sim, cada habitante do planeta Terra foi petrificado do absoluto nada. E eles continuam como pedra até que….quase 4 milênios depois, Senku se despetrificou, por sorte, e usou seu conhecimento de quais fenômenos causaram sua despetrificação para despetrificar seu melhor amigo: Taiju.

Enfim, para resumir a história, Senku descobre também uma vila de pessoas que descendem dos únicos sobreviventes do processo de petrificação, que continuaram vivendo em condições pré-históricas por milênios. E também acaba despetrificando um homem chamado Tsukasa, que deseja remoldar um mundo utópico dominado pelos mais fortes e sem ciência. Enquanto Senku convence a vilazinha que ele encontra a seguí-lo e a ajudá-lo a restaurar todo o progresso tecnológico do século XXI do zero. Senku e Tsukasa iniciam uma batalha ideológica a respeito de que mundo vai nascer nesse cenário em que a humanidade não interferiu por milênios.

O mangá é do caralho. Uma das artes mais divertidas da Jump, o humor é pontual, os personagens são fantásticos, e é interessantíssimo, como o autor se esforça para mostrar como os poucos recursos de uma era pré-histórica podem ser usados para montar tecnologia com a qual hoje em dia estamos acostumados demais. Além de focar muito em como Tsukasa e Senku usam paixões muito simples para seduzir pessoas a se aliarem a eles, como amor por uma música ou uma comida específica que me lembra um pouco o que eu falei no meu texto sobre Hunter X Hunter, de como nos importarmos com o que não tem importância nos torna humanos.

O mangá é fascinante, acho ele atualmente uma das três melhores coisas da Shonen Jump junto com One Piece, que tem inúmeros textos no blog, e Promised Neverland, que eu fico muito espantado que não tenha sido adotado pela comunidade vegana como metáfora máxima dos maus tratos que a indústria alimentícia faz aos animais. Enfim Dr. Stone é maravilhoso, lindo, demais e eu adoro.

E tem algumas das expressões faciais mais engraçadas que já li num mangá, racho o bico com essas coisas.

Vamos falar mal pra cacete desse mangá hoje.

Digo, eu genuinamente amo esse mangá. O que não significa que eu não tenho críticas ao mangá em especial em como o mangá lida com seu tema central: a ciência. Eu gosto muito como o mangá valoriza a ciência, estimula a curiosidade e o eterno questionamento de querer experimentar como o mundo funciona. E honestamente em um mundo em que cada dia mais tentamos desvalorizar descobertas científicas, um mangá que abraça a ciência do jeito que Dr. Stone faz eu acho acima de tudo necessário.

É sério gente, esse tipo de cena é importante nos dias atuais.

O embate ideológico de Senku e Tsukasa me agrada, pois ao mesmo tempo eu entendo o lado de Tsukasa, que acredita que muitos dos problemas da sociedade foram causados pela ciência, e que quer criar uma seletividade forte no que deve ou não deve voltar na segunda chance da humanidade, ao mesmo tempo em que sua mentalidade que no papel é justa e busca evitar um mal maior, é temperada com o fato de que Tsukasa é um tremendo escroto, com indícios de vilania claros, pois ele é uma das pessoas que não tem o direito a fazer a revolução, mas isso entra no que eu vou falar no fim do texto.

O ponto é: o mangá defende a constante busca por ciência. Que as pessoas queiram descobrir como o mundo funciona e busquem o avanço do conhecimento e da tecnologia, valorizando um mundo moderno a um mundo pré-histórico. Ele fala de experimentação, de hipótese, e de como dominar a ciência é uma arma insubstituível pra sobrevivência humana. E eu gosto muito disso.

E com “gosto muito disso” eu quero dizer “gosto muito de metade disso.”, pois se eu gosto muito do conceito do que Dr. Stone se propõe a fazer, eu digo que quando ele de fato faz, é pela metade. E que mais comumente que não, quando o mangá fala: ciência, o que o mangá quer falar na verdade é “ciências exatas”, e quando o mangá fala “conhecimento” o que o mangá quer falar na verdade é “conhecimento de leis da física e da química”. E para um manga que se aprofunda tanto na verossimilhança de como fazer um celular funcional na idade da pedra e faz isso soar palpável e científico, eu sinto que tem muitos campos da ciência que o mangá não quer se aprofundar.

E para um mangá que é uma carta de amor a tudo que abrange ciência, eu sinto que tudo o que o mangá não quer se aprofundar é simplesmente o autor pensando “isso não é ciência”. E isso me deixa chateado, justamente porque eu acho importante um mangá que valorize tanto as descobertas que a humanidade fez, e gostaria que essa valorização fosse mais completa.

E é sobre isso que eu quero falar aqui. Sobre os pontos em que eu queria que o mangá tivesse tido mais preocupação em nos mostrar como o mundo funciona, mas que eu sinto que o autor simplesmente não se importou, e eu queria que ele tivesse se importado.

Incluindo um pequeno disclaimer: eu não sou um especialista em nenhuma dessas áreas aí, minha especialidade é estudo de narrativas. Meus conhecimentos vão o tão longe quanto assistir as aulas do ensino médio, e artigos na wikipedia podem me levar. Se eu falar uma asneira muito grande me corrijam sim nos comentários.

Começando com um que veio logo nos primeiros capítulos:

Evolução das Espécies:

Cientistas nem sempre são pessoas populares em seu tempo, normalmente porque muitas vezes eles falam coisas que ninguém quer ouvir. E alguns deles se tornam famosos justamente pelo quanto suas descobertas contrariam diretamente os dogmas que regiam a sociedade. Isso se torna ainda mais famoso quando os dogmas em questão são impostos pela igreja católica, e entre exemplos famosos disso, um dos mais famosos é Charles Darwin, e sua teoria da evolução.

…que até hoje em pleno 2019, tem que lidar com gente que acredita que a palavra “teoria” em “teoria da evolução” é sinônimo de “palpite, pois não tenho provas” e usa isso para desqualificar completamente a descoberta e luta para que ela não seja ensinada em colégios.

No século XIX, Darwin publicou um livro chamado “A origem das espécies”, onde propôs que a seleção natural, fazia com que os animais mais aptos a sobreviver em um ecossistema sobrevivessem e passassem seus genes adiante, criando uma nova geração de animais aptos a sobreviverem. E que essa lei fez as espécies se adaptarem e se modificarem (evoluírem) com o passar do tempo para se adequar ao seu ambiente eternamente mudando. O que concluiu que o ser humano é resultado dessas mudanças, tendo descendido de uma espécie primata lá atrás, e portanto negando que sejamos a imagem e semelhança de Deus criado por ele. O que enfureceu a igreja, e bem, sério, essa merda dá treta até hoje.

E justamente por ser uma das descobertas científicas mais negadas por certos grupos, até a galera da Terra Plana sair do armário, que eu acho que era particularmente revelante o mangá ficar um pouco do lado da ciência que não tem medo de ser silenciada por falar o que grupos de poder não quer ouvir.

Apesar disso, até onde Senku Ishigami está interessado biologia não é ciência, e o mangaka visivelmente não se importa com o assunto. Logo no capítulo 3, vemos esse leão atacar Senku e Taiju. Um leão vivo no mundo de 3700 anos depois da extinção da humanidade, que Senku estima que seja um descendente dos leões dos zoológicos que se libertaram depois do fim da humanidade.

A noção de que daqui a 3700 anos, conforme o ambiente urbano vá se modificar para um ambiente selvagem aos poucos, o futuro reservará a nós as exatas mesmas espécies de animais inalteradas. Não estou pedindo um leão muito diferente, mas não é só o leão. Até porque honestamente eu não espero que um leão seja muito diferente daqui a milênios, mas levemente diferente, sabe? Uma diferença mínima. Só para introduzir o tema.

até porque descobrimos espécies novas o tempo todo.

As plantas do futuro de Dr. Stone são as mesmas, os animais são todos os mesmos, a natureza é a mesma. Era de se esperar que enquanto Tokyo passasse milênios deixando de ser uma selva de concreto para virar uma selva real, novas espécies surgissem e velhas fossem embora em uma renovação natural que ocorre o tempo todo.

existem estudos falando sobre como o pão que comemos hoje já tem propriedades diferentes do pão que comiam na época de Cristo, devido as mudanças que os milênios fizeram no trigo. E o valor nutricional não é o mesmo. Porém em 3700 anos fazer pão com o exato mesmo valor nutricional que o do presente vai ser só questão de talento de cozinha. Ignorar esses estudos também é ignorar a ciência.

Mas aparentemente “quais espécies vão habitar o mundo daqui a 3700 anos?” não é uma pergunta que o mangaka está disposto afazer. E se a ciência nasce da curiosidade, então biologia é uma curiosidade que não acontece no mangá.

Não tenha certeza de muita coisa, mas tenha certeza de que se uma civilização começar a criar animais para o abate daqui a 3700 anos, vão ser as mesmas espécies de 2000 anos atrás. A natureza é estática e podemos confiar nela para sempre ser igual independente da época.

E ainda no campo da biologia….

Genética:

Logo no começo do mangá no primeiro grande ponto de virada da série, Senku frauda a própria morte, pede que Taiju se una a Tsukasa, e vai pesquisar a existência de uma vila, formada pelos humanos da Nova Idade da Pedra. Um grupo pacato de pessoas que vivem em uma sociedade desprovida de ciência.

A grande pergunta é: Se toda humanidade foi petrificada, de onde saiu essa gente?

E a resposta é simples: eles são descendentes dos astronautas que estavam fora do planeta quando a petrificação ocorreu, mas que retornaram depois. E vendo o estado do planeta decidiram repovoar a terra…. esses astronautas eram seis.

Indo direto ao ponto: seis pessoas não podem repovoar o planeta.

A gente adora a noção de que alguns poucos casais proliferaram uma civilização inteira, e sempre vemos essa história. Um bunker com um punhado de gente que sabe que tem a responsabilidade de repovoar a terra se forem os únicos sobreviventes. Histórias de Adão e Eva são populares, mas não é assim que funciona, e cientistas não deveriam reconhecer verossimilhança em Adão e Eva.

Enfim, qualquer grupo pequeno de pessoas que resolver repopular o planeta vai de deparar com um problema. E esse problema não é o fato de que passaram 3700 anos e eles viraram uma vilazinha de só 40 pessoas. Isso é de boa. O lance de “todo o planeta” é ambicioso demais . O problema é que é uma questão de poucas gerações até todo mundo ser obrigado a ter filho com o primo, cair no incesto e foder completamente o futuro dessa nova civilização com uma quantidade grande de defeitos genéticos que venham do incesto.

Estima-se que a população mínima para poder se reproduzir em comunidade sem os descendentes serem obrigados a cometer incesto é de 50 pessoas. E mesmo assim isso deve manter a espécie saudável por uns dois milênios até dar ruim. E que a população mínima para que depois de gerações se reproduzindo os descendentes possam ter a variedade genética entre eles para poder seguir se reproduzindo sem medo, é de 500 pessoas. O que é chamado de “regra dos 50/500”, mas mesmo assim, essas 500 pessoas vão ter que tomar cuidado e pisar em ovos para ter certeza de que estão tendo filhos com as pessoas certas, e o ideal mesmo é serem mais de mil pessoas.

Porém aqui eles propõe que o tamanho perfeito pra uma comunidade é de 150 pessoas para evitar conflitos e divisões.

A vila atual, 3700 anos depois ainda não tem 50 pessoas, o que significa que eles não conseguem evitar casar entre primos sem se tentarem. Isso era para ser um caos.

Mas tirando o fato de que era pra vilazinha que o Senku encontra ser uma cambada de hemofílico com queixo torto e uma tonelada de problema genético, que eu acho que a gente devia, porque a gente cai na máxima de “se for assim todo mundo morreu e não tem história.” então acho que eles merecem a mesma colher de chá que os Targaryen merecem por terem retratado a Daenerys como alguém que não tem os genes mais fodidos de Westeros. E eu relevo sim. Não é isso que estou cobrando.

Ah, a mandibula fodida dos nobres que eram frutos de gerações e gerações de incestuosos.

Estou relevando que a Kohaku e a Ruri não tenham o queixo mais torto do mundo.

O ponto é: mesmo que eles sejam seres humanos funcionais e saudáveis, um aspecto mais interessante que a hemofilia que podia ser retratado aqui é o excesso de consanguinidade entre eles.

Em resumo. Parentes se parecem pois tem muito genes em comum. Você leitor parece seu irmão, pois você tem 50% do DNA do seu irmão. Ou 25% do DNA dele se ele for seu meio-irmão. E quando casamentos e pares improváveis são formados, coisas interessantes acontecem.

Por exemplo. Pensem no Harry Potter. Harry e Dudley tem 12,5% de DNA compartilhado, por serem primos. Petunia e Lily eram irmãs e tinham 50% do seu DNA compartilhado. Petunia só mandou metade do DNA de Petunia pro Dudley que tem 25% de DNA compartilhado com sua tia, e metade disso com seu primo. Ou seja normalmente primos dividem 12,5% de DNA. Porém, se por algum acaso da improbabilidade, Vernom e James fossem irmãos também, então Harry e Dudley seriam primos duplos, o que significa que eles seriam duas vezes, uma vez por parte de mãe e uma vez por parte de pai, isso elevaria a quantidade de DNA que eles tem em comum pra 25%, o que faz que na perspectiva da genética eles sejam tão semelhantes entre si quanto meio-irmãos deveriam ser, e permitiria ao Harry doar um rim pro Dudley se esse não fosse um tremendo pau-no-cu. Ou seja não precisa nem ser incesto, só uma improvável proximidade já pode criar contexto em que duas pessoas na perspectiva genética sejam muito mais próximas do que são na perspectiva do real parentesco que elas possuem.

Normalmente em uma sociedade em que ninguém cometeu incesto duas pessoas não vão ter mais que 50% de DNA compartilhado, exceto no caso de irmãos gêmeos idênticos, mas em uma sociedade em que as coisas foram uma zoeira bizarra por motivos de uma população extremamente pequena…. e tenha certeza de que essa vila em Dr. Stone foi, era para todos esses personagens terem muito mais de 50% de consanguinidade entre si. Ou seja é para qualquer dois membros da vila pegos aleatoriamente para comparação, tenham mais semelhanças físicas entre si do que dois irmãos que você conhece teriam.

Ou, dando um exemplo prático. Essa foto:

Como esses dois monarcas que são muito mais parecidos entre si do que primos costumam ser. George V e Nicholas II.

Pois é, em vez disso, a vila não só é surpreendentemente diversa na aparência dos personagens, como apresenta elementos da trama justamente baseados na diferença deles. Como Magna nasceu com um corpo muito apropriado para lutar, embora a noção de que ele tenha nascido com um corpo muito diferente do resto da vila seja improvável, como no fato de que Senku descobre que dois membros da vila sofrem de miopia, uma condição no olho, que o pessoal na vila acreditava ser uma doença, e que como sabemos, é vinda de um gene muito dominante.

Eu tenho miopia, e sei que todos os descendentes que por ventura eu deixar nesse mundo vão ter. Meu pai biológico tinha e todos os descendentes dele tiveram, mas meus irmãos operaram pois não são otários, me largando como o último da família preso aos óculos.

A ideia de que por incrível coincidência dois membros da vila nasceram com a mutação genética da miopia é improvável demais. E a noção de que numa vila de 40 pessoas em que todo mundo é parente entre si, todo mundo tem uma consanguinidade mais alta que irmãos, e os míopes são a minoria. 5% da população? Improvável demais as chances.

Genética era o único assunto em biologia onde eu era bom. Nossa, eu arrasava na hora de fazer as tabelinhas do AA, aa, Aa, aA. Por isso sempre me incomodou quando eu vejo falácia sobre como genética funciona na ficção. Nossa, ver gêmeos idênticos de sexo oposto nos filmes me irrita tanto que minha reação já é automaticamente determinar que um deles deve ser trans para isso funcionar. E eu recomendo que façam o mesmo e do dia para a noite a quantidade de personagens trans não-estereotipados que aparecem na cultura pop vai aumentar consideravelmente. Enfim, eu espero que a maioria dos autores caguem para pensar se o que eles estão propondo em sua ficção científica faz sentido geneticamente, mas em Dr. Stone eu achei que havia uma preocupação maior com a ciência que poderia fazer ele não repetir as negligências do passado. Não rolou.

Seguindo o bonde….

Linguística:

A, essa foi uma das maiores oportunidades perdidas pra shonenzar de vez os conhecimentos do Senku, e abordar um dos maiores obstáculos de se escrever história em todo lugar que é a barreira da língua.

Tudo bem que 3700 anos depois as espécies de fauna e flora da civilização dessa vilazinha são as mesmas sem nenhuma espécie nova. E tudo bem que depois de 3700 anos de reprodução incestuosa dos descendentes das mesmas seis pessoas, hoje eles sejam uma vila genéticamente diversa. Mas porra, a ideia de que o japonês que eles falam é o mesmo japonês que o Senku falava em seu tempo e a língua não evoluiu. Aí cês já tão de sacanagem.

Em seu primeiro encontro, Senku ainda não entende os hábitos de Kohaku perfeitamente, mas entende sua língua.

Línguas evoluem muito mais rápido que leões, e o português que a gente fala já não é o português que nossos bizavôs falavam. E 3700 anos atrás nem existia língua portuguesa. Vocabulários mudam rápido, e palavras ganham peso novo rápido.

Pessoalmente eu sou meio alvo fácil de cena de gente se provando o fodão. E eu acharia maravilhoso se o Senku, usando seu raciocínio lógico, sua intuição e seu conhecimento de troncos linguísticos para aprender o dialeto usado pela vilazinha em uma velocidade rápida. Digo, é pra ver cena como essa que eu leio shonen em primeiro lugar. Além é claro de que gostaria de ver enfatizado a importância de uma boa comunicação para uma sociedade funcionar. Mas isso é uma ciência humana e bem… ciência humana não é ciência de verdade, não é mesmo? Não na perspectiva do Senku. Então vamos pro próximo ponto.

Ciências Humanas no Geral:

Vamos lá. O que é que o Senku faz da vida? Constrói coisas que existiam e não existem mais. O que o Senku não faz da vida? Pensa por cinco minutos nas consequências das mudanças que ele apresenta ao estilo de vida do seu Reino da Ciência.

Em determinado ponto, ele revive um brother chamado Ryusui, pois precisava dele para navegar o navio que eles estavam construindo e do qual precisavam para explorar o mundo e tentar encontrar de onde veio o raio que petrificou a humanidade. Pois bem, o problema é que Ryusui é um típico rico arrombado do século XXI, e uma pessoa problemática. E instantaneamente assim que revivido faz o Reino de Ciência adotar uma moeda corrente só para monopolizar ela, e diminuir a autoridade do Senku perante a própria pois ele tem o dinheiro.

Um grande filho da puta com um ego giante e uma necessidade de poder.

Naturalmente Senku é um homem inteligente e consegue rapidamente reverter a situação, se tornar rico e tornar a fortuna de Ryusui interessante, esse não é o ponto. O ponto está em nenhum momento Senku se perguntar a seguinte coisa: “Mas será que essa civilização que eu estou criando devia ser capitalista?” ele não se fez essa pergunta para achar a resposta sim, nem a resposta não. Para Senku isso simplesmente não é um assunto.

Apesar de Senku ter literalmente fundado o próprio reino. Senku não se interessa por política, não se interessa por como é a organização social do próprio reino, não se importa em refletir sobre nenhum aspecto social de um povo que ele lidera. Ele não curte sociologia, ele não curte economia, ele não curte filosofia. Ele se importa com química, física e mecânica e o resto ele essencialmente deixa as coisas se resolverem naturalmente sem sua influência.

O que não é a obrigação dele também. Não é problema nenhum ele ser um cara das ciências exatas.

Senku ignorando completamente a subjetividade de um dilema na hora de tomar uma decisão.

Mas ao mesmo tempo, ninguém ali é o cara das humanas. Não só Senku não quer pensar nesses assuntos por ser fora da área de estudo dele, como ele não reviveu ninguém que entenda desses assuntos, e a impressão que eu tenho primariamente é que ele sente que reviver um cientista político para aconselhá-lo em como ser o líder de uma população inteira é desnecessário.

Acho que o que fica implícito é que esses campos não são ciência, e portanto, explorar essas áreas do conhecimento não caminham lado a lado com o tema do mangá da mesma maneira que construir um tanque de guerra.

O motivo pelo qual é fácil presumir rapidamente que um mangá que louva o conceito de ciências não tenha interesse nenhum pelas ciências humanas, é porque esse preconceito das pessoas é tão comum.

Digo, temos atualmente no governo uma quantidade grande de pessoas governando o país que acham que ciências humanas não servem pra nada e são inuteis. E as consequências disso são catastróficas, O que é um erro, que Senku não deveria cometer também, e me deixa mal ver o quanto o autor não para para pensar no quão vasto é o leque do que é ciência e do que é um cientista.

e o autor está muito obviamente ciente desse tipo de pessoa.

Bom, pelo menos o Gen manja de psicologia, é melhor do que nada. Mas a maneira como Senku ignora as ciências humanas me faz pensar em um problema real nas ações dele.

Em defesa do status quo:

Senku tem em suas mãos uma oportunidade de ouro. Ele tem a chance de reconstruir a sociedade do zero. Moldar um novo mundo sob qualquer sistema, sob qualquer série de leis, influenciar muita gente em inúmeros níveis.

Então porque diabos ele quer que tudo volte a ser exatamente como era antes?

O sonho do Senku é restaurar a civilização pro exato estágio em que estava com seus sete bilhões de pessoas. O que não é ruim em teoria, mas me faz questionar a completa falta de questionamento de Senku, que na chance de criar uma utopia para a humanidade compartilhar, que pode ser muito bem uma utopia enraizada na valorização da ciência, prefere criar um mundo idêntico ao nosso.

Eu pessoalmente não acho que vivemos em uma sociedade perfeita. E não acho que qualquer pessoa ache, e acredito que questionar que tipo de sociedade estamos colocando no planeta um questionamento digno de um rei se fazer. A maneira como Senku visa recriar o Status Quo do ano de 2018 me deixa desconfortável, pois existe tanta coisa melhor a ser criada.

Naturalmente o único personagem que faz algum questionamento sobre o assunto é o vilão Tsukasa, que questiona que a nova sociedade deve ser sem ciência e composta só por indivíduos iluminados escolhidos por ele a dedo e o resto deve morrer. Um tirano que serve de espantalho para representar as pessoas que refletem na possibilidade de se criar um mundo melhor do que o que ficou pra trás. No estilo que é tão comum na ficção.

A ciência devia ser feita de questionamentos, mas Senku questiona muito pouco do que acontece a sua volta. E certamente nunca havia questionado o mundo antes de ser petrificado.

Eu acho que vivemos em uma sociedade perigosa atualmente. E sinto que o mero ato de explicar a quantidade de injustiça, morte de inocentes, guerra, insustentabilidade e tragédias que podiam ser evitadas se o ser humano se organizasse melhor beiraria o clichê. Mas bem, o mundo é o que é. Se o mundo atualmente está armado em uma ignorância crescente tentando desmentir o conhecimento que acumulamos por milênios. Se tem gente desmentindo a forma da terra, a eficácia de vacinas, também tem gente que desinforma sobre que ideais levaram a ascensão do fascismo para facilitar que ocorra de novo. É irônico como o mundo que o Senku quer recriar é um mundo em que a ciência está em uma grande crise de credibilidade, e que vários ramos do conhecimento estão sendo cada vez mais desmentidos por falsos especialistas que negam justamente que os cientistas não estejam politicamente enviesados nos dados que descobrem.

Trazer armas de fogo de volta ao mundo sem em nenhum momento questionar-se se deviam.

Eu acho que nos tempos atuais mangás que valorizem o quão importante é a ciência para a sociedade são importantes. Mas justamente por esse motivo que eu preferia que fosse um mangá sobre como todas as ciências são importantes. Afinal de contas, Senku declarou mais de uma vez possuir todo o conhecimento que a humanidade juntou em dois milhões de anos. E acho que resumir todo o conhecimento que a humanidade juntou a apenas alguns campos da ciência, pejorativo com os demais conhecimentos. Mas em vez disso, temos um mangá cheio de life-hacks para construir coisas na selva.

Um excelente mangá cheio de life-hacks para construir coisas na selva. E um dos melhores da Jump atual. Recomendo a todos que leem mangás, e aos que não leem, fiquem de olho que daqui a pouco vem o anime. Valerá a pena, dou minha palavra.

Sobre o autor

Izzombie

Sou um cara chato que não consegue ver um filme sossegado sem querer interpretar tudo e ficar encontrando simbolismos e mensagens. Gosto de questionar a suposta linha que separa arte de filmes comerciais, e no meu tempo livre pesquiso sobre a história da animação.

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Izzombie

Sou um cara chato que não consegue ver um filme sossegado sem querer interpretar tudo e ficar encontrando simbolismos e mensagens. Gosto de questionar a suposta linha que separa arte de filmes comerciais, e no meu tempo livre pesquiso sobre a história da animação.

Alertas

  • – Todos os posts desse blog contém SPOILERS de seus respectivos assuntos, sem exceção. Leia com medo de perder toda a experiência.
  • – Todos os textos desse blog contém palavras de baixo calão, independente da obra analisada ser ou não ao público infantil. Mesmo ao analisar uma obra pra crianças a analise ainda é destinada para adultos e pode tocar e temas como sexo e violência.

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