Sobre Killmonger: Quem pode e quem não pode fazer a revolução na ficção?

Enfim saí o tão aguardado texto sobre Black Panther, só que não exatamente do jeito que eu prometi, enquanto escrevia sobre o Black Panther acabei divergindo tanto do assunto conforme ia lendo e pesquisando sobre o filme, que o texto virou sobre outra coisa, e agora o filme vai dividir o espaço dele dentro dessa chaminé com os filmes dos X-Men, com Hunger Games, com a nova trilogia de Planet of the Apes com V for Vendetta, com One Piece e com um tiquinho de Star Wars, além de obras que eu provavelmente não vou citar, mas que vocês lembrarão enquanto leem. Eu vou citar os exemplos que eu estou mais familiarizado para falar com propriedade, mas esse assunto se aplica a mais obras do que sou capaz de exemplificar sem meu texto triplicar de tamanho. E eles já são grandes o suficiente, esse em particular vai ser bem grande, mas vai valer a pena (espero).

Spoilers

Por outro lado, o foco principal ainda vai ser Black Panther, e precisamente a parte de Black Panther sobre a qual nós realmente queremos falar. Que é o grande N’Jadaka, também conhecido como Erik Stevens, ou Killmonger, ou Erik Killmonger nos quadrinhos. O vilão do filme. E um dos poucos filmes do MCU, em que o vilão é a melhor parte do filme. Digo, desde o Homecoming os vilões começaram a ficar bons, presumo que agora eles vão manter o ritmo.

KillmongerPoster

Estou desde o fim de 2017 tentando montar um texto aqui sobre porque demorou pro MCU acertar a mão nos vilões, e eventualmente vai sair um aqui, espero, mas por hora eu digo que o MCU acertou só quatro vilões em todos os seus quase 20 filmes. Loki (e esse eles acertaram mais ou menos), Vulture, Thanos e Killmonger. E isso pegou todo mundo de surpresa.

Vulture
Em especial o Vulture, um dos meus vilões favoritos de filme de herói.

Killmonger não pegou todo mundo de surpresa só por ser o personagem mais interessante do filme, e por ser muito mais carismático do que personagens de seu estilo costumam ser, tem mais coisa. Um comentário muito comum feito por muita gente após o filme é a de que apesar dele ser o vilão, ele meio que… estava com a razão durante o debate. Ele era o lado certo. Ele era o herói do filme. E sua razão é confirmada com o fato de que T’Challa muda sua perspectiva após seu confronto com Killmonger, então, ele convence o herói.

KillmongerWasRight

E esse tipo de comentário era logo cortado com a crítica que outras pessoas faziam de que não. Killmonger estava errado, porque apesar de bem-intencionado, seu plano terminava com ele estabelecendo uma ditadura cruel e fazendo exatamente o que seus inimigos fazem. E por causa disso, Killmonger não estava certo, ele estava errado e era hipócrita.

E bem, vou falar a verdade. Esse tipo de comentário cortando a diversão de quem está do lado do Killmonger está coberto de razões. Mas espera, não vai pros comentários ainda defender o Killmonger e me xingar de otário. Faz isso daqui a pouco, espera eu explicar antes. Enfim, Killmonger era um hipócrita, que queria colonizar o mundo nos moldes do império britânico, porém com uma inversão de papéis, com os negros no topo e os brancos na merda em um mundo com hierarquias claras de superioridade.

Não só isso, Killmonger falava de ajudar o povo negro, mas seduziu e manipulou sua namorada negra, para assassiná-la a sangue frio no momento em que ela deixou de ser útil pra ele. Assumidamente ajudou a genocidar o próprio povo sob o pretexto de que os fins justificam os meios, e a primeira coisa que ele fez ao tomar o poder da maior nação Africana foi destruir parte fundamental de sua tradição e herança cultural, pois ela era inconveniente pra manutenção de sua ditadura. Suas ações não correspondiam seu discurso. E isso torna ele errado. Desculpa aí galera do “Killmonger Was Right”.

KillmongerQueima
Killmonger destruindo as folhas de coração que garantir que Wakanda nunca mais tenha um Black Panther.

E a pergunta central aqui é: Por que caralhos o Killmonger queria isso? E a resposta é: Pra ninguém falar que o Killmonger estava certo, apesar de seus ideais puxarem identificação com muitos membros da audiência. Porque era importante pro filme, que um homem com a ideologia de Killmonger não tivesse a razão ou a superioridade moral. O que leva a pergunta: Por que era fundamental que Killmonger estivesse errado? Porque o filme construiu o personagem de maneira que atos de vilania desnecessários fossem parte de sua jornada ideológica?

Para falar disso eu vou ter que primeiro falar um pouco sobre o que é um dos maiores medos do homem branco: O racismo reverso. O racismo reverso, assim como o Chupa-Cu de Goianinha, a conspiração para deixar seu filho autista com vacinas e as bombas que o governo norte-americano deixou dentro do World Trade Center pra implodi-lo e pôr a culpa no Bin Laden, não existe. Mas mesmo assim, muita gente apostaria o próprio braço como é algo real e palpável. E isso é um medo real que acorda pessoas brancas de noite.

CartmanAcordando

O racismo é aquela coisa que vocês sabem, né, ele está inserido e enraizado na sociedade de uma maneira profunda que reflete não só nos nossos conceitos e no quanto julgamos pessoas sem conhecê-las. Eles refletem nossos hábitos, nossa visão de mundo, a maneira como somos ensinados a pensar, a reagir a situações, a retratar o mundo. Ele é mantido pelas nossas instituições, pelas nossas leis, e pelo nosso modelo de sociedade. O racismo é um problema coletivo, da sociedade no geral e um problema estrutural. Que vai desde a cumplicidade da mídia quanto ao assassinatos de negros que ocorrem dando indícios de que a vítima mereceu o assassinato por sua cor, até a maneira como os estereótipos negros permeiam o imaginário brasileiro fortemente em pleno 2018. Vai de um sistema de justiça que prioriza alta punição crimes que tenham mais chances de serem cometidos por pessoas negras, À completa falta de apoio da sociedade para uma pessoa negra quebrar o ciclo da pobreza e conseguir posições de status, sob o argumento falacioso de que dar qualquer apoio seria quebrar a “meritocracia”, como se todos os brancos não recebessem apoio por default nessas horas.

RacismoReverso

Enfim, apesar de tudo isso, propaga-se muito a ideia de que nada disso é real. E de que racismo é um problema individual e de caráter. Ou seja, de que pessoas são ruins, porque são ruins, é um fato da vida, algumas pessoas são ruins, e vão odiar negros por odiar, e não tem nada que a gente possa fazer quanto a isso, porque a sociedade em si está funcionando perfeitamente. É só um ou outro gato pingado que não tem uma bússola moral ajustada e está queimando o filme do bom homem branco. E sendo um problema puramente individual, cria-se esse segundo mito, de que o negro pode praticar esse ódio individual da exata mesma forma e no exato mesmo nível que o branco, pois estamos em pé de igualdade.

BlackorWhite
Culminando em gente atribuindo equivalência entre movimentos anti-racistas e a Ku Klux Klan. Enfim, presumo que o fato de que os Panteras Negras não existirem mais e a Ku Klux Klan ter colocado seu candidato favorito na presidência da Casa Branca seja um bom indício pra você do quanto os exemplos são são equivalentes, pelo contrário é uma comparação desproporcional pra cacete.

E a isso dá-se o nome de racismo reverso. E é algo que não existe, justamente porque não tem como existir, porque o problema é estrutural, e os negros vão ter que controlar a mídia, as instituições sociais e ditar o estilo de vida dos brancos por séculos para culminar em uma real inversão de papéis. Mas deixemos quem entende do assunto explicar isso muito melhor do que eu. Aqui , aqui e aqui.

Mas apesar de todas essas explicações. O racismo reverso é um medo real. Que se baseia na ideia de que a gente sabe, a gente sabe como o negro é tratado no Brasil, a gente sabe das injustiças que eles sofrem, a gente sabe dos assassinatos e das prisões de inocentes, e dos estupros, e dos estereótipos. A gente sabe de tudo. E a gente sabe que se um dia eles acordarem putos e saírem atrás de vingança, isso não vai ter sido algo que surgiu do absoluto nada. Então a gente tem medo, medo de que um dia chegue o dia em que os negros resolvam pegar armas e acertar as contas e sobre pra você, o branco que nunca foi racista, mas se fodeu junto porque foi generalizado. Afinal, é assim que o branco resolveu todos seus problemas, é assim que a burguesia solucionou o problema da aristocracia. É assim que os EUA resolveram o problema da colonização. A gente pensa “caralho, se eu fosse negro, eu ia querer matar todo mundo. Então só pode ser nisso que eles estão pensando.” E isso acorda as pessoas a noite e não deixa elas dormirem de novo.

AudreyMilo
Resumindo a maneira como muitos brancos interpretam ser a situação atual.

Um bom exemplo de um personagem que exemplifica perfeitamente esse pensamento é Eric Cartman, o maior arrombado de South Park. Que em diversos episódios revela que tem muito medo de ser prejudicado em uma guerra racial. E sua atitude para impedir a explosão de um conflito entre as raças, pode alternar em atacar primeiro e destruir os negros ou em puxar o saco dos negros para acalmá-los, mas apesar de suas ações variarem, a motivação e o medo do Cartman da vingança das minorias é uma constante em muitos episódios da série. O que mantém o tema, que não importa as consequências de suas ações, o Cartman sempre está sendo um escroto.

WorldWarZimmerman
No episódio World Was Zimmerman, Cartman imagina que a inocentação de Zimmerman, que havia assassinado uma criança negra desarmada, iria causar uma raiva tão grande nos negros, que todos os brancos seriam atacados. Por isso ele decide matar Zimmerman ele mesmo para acalmar a população negra.
JobInterview
No episódio Pee, Cartman acredita que a população de minorias está ultrapassando a população branca e imagina que a consequência disso para o futuro, é que eles vão dar o troco, dando subempregos para Cartman, e obrigando-o a receber menos por ser branco.
SouthParkMars
Não é um exemplo racial, mas é a mesma linha de raciocínio. Cartman passa a metade final da 20ª temporada acreditando que a conclusão natural do empoderamento feminino será a escravização dos homens para coleta de semen e remoção deles da sociedade. A solução que ele encontra pra isso é puxar o saco das garotas o máximo possível para garantir que ele não vá ser escravizado. E essa crença arruína o único relacionamento positivo com uma garota que ele teve na série toda.

Enfim, eu não sou cientista social, eu não sei dizer onde o medo do racismo reverso reflete em diversos campos da sociedade. Não sei dizer que ações do cotidiano são guiadas por esse medo. Eu também não estudo raça, tem um limite muito visível do quanto está ao meu alcance analisar relações raciais na sociedade.

Mas eu estudo ficção e narrativas, e eu sei dizer onde o medo do racismo reverso reflete em muitos, mas muitos vilões fictícios, a personificação do cara que fez seu ativismo cruzar a linha e perdeu a habilidade de distinguir seus aliados de seus inimigos. Em especial em filmes de racismo fantástico, mas nem sempre contido nesse subgênero. O cara que por ser oprimido se tornou em uma pessoa tão horrível quanto os opressores. Monstros que criaram monstros.

EmilBlomsky
O monstro figurativo que cria um monstro real é uma temática eterna que é usada recorrentemente no cinema e na literatura. No exemplo acima Emil Blomsky, de Incredible Hulk, um soldado transformado em um monstro literal, pelas ações de um monstro figurativo (Ross). Isso muitas vezes é transposto para um racista transformando uma minoria em um racista reverso, sendo o racista reverso o “monstro criado.”

Sabem o que é curioso em histórias de monstros que criam monstros? Que geralmente o monstro que foi criado é o que é um perigo imediato que precisa ser detido instantaneamente. O Batman do desenho mesmo entendendo o cenário geral da situação, ainda prendeu e espancou o Mr. Freeze, e não fez nada além de direcionar um olhar de ódio pra Boyle, o empresário que gerou o contexto para que o Mr. Freeze nascesse e contar que a culpa do Mr. Freeze era dele. Os dois eram monstros. Os dois eram criminosos. Mas um merecia um soco e o outro merecia desprezo. Fica implícito que Boyle talvez seja julgado, enquanto Freeze vai instantaneamente pra cadeia terminando o episódio com ele em sua cela. Um é uma vítima, mas é perigoso demais para ficar longe do encarceramento, o outro é o culpado, mas deve ser protegido de suas vítimas.

Para o branco se sentir confortável com a noção da companhia de negros, ele precisa ter certeza de que não será vítima da vingança quando a eventual guerra racial estourar, mesmo sem ter feito nada. E por isso, a mídia cultiva a ideia da minoria que está de boa, feliz, satisfeita, zen e relax, como uma ideia ideal, enquanto a minoria raivosa, que quer lutar, que quer se defender, que não quer ser passiva enquanto apanha, que quer fazer protestos não pacíficos, que quer tomar o poder, que quer alterar a estrutura da sociedade… essa nos assusta, essa parece com alguém que pode cruzar a linha tênue entre certo e errado, e começar a odiar os brancos. E a ficção claramente vilaniza esses personagens.

KillmongerMuseu
A primeira aparição de Killmonger no filme é em um museu, criticando o caráter colonizatório da exposição e roubando de volta os itens de seu povo. Essa cena é um dos grandes pontos para Killmonger ganhar nossa simpatia, pois a maioria das pessoas entende exatamente como de fato, isso foi tudo roubado dos povos africanos. Apesar disso essa cena serve como primeiro dominó derrubado em uma série de ações de Killmonger que vão escalando em gravidade até culminar nele destruindo a cultura da Africa para poder destruir a cultura do primeiro mundo. Essa cena pode ser igualmente lida como uma ação que redime o Killmonger, ou como o primeiro passo para uma pessoa comum virar um vilão como Killmonger.

E tem diversas simbologias que a ficção usa para exemplificar esse desejo, de que os negros se acalmem e de vilanização da revolta negra, mas nenhuma é tão didática e abrangente quanto a dictomia entre Malcolm X e Martin Luther King Jr.

http://earthstation1.com

Uma história pessoal aqui: Eu aprendi sobre esses dois pela primeira vez na aula de história do segundo ano do colegial, e aprendi de maneira mega resumida. Eu aprendi que o Malcolm X era um cara revoltado e violento que falava de ideias radicais de não-reconciliação com o homem branco que era inimigo do negro. E que queria “dar o troco” nos brancos. Luther King por outro lado era um pacifista, e um amor de pessoa que queria reconciliar o homem negro e o homem branco em um mundo de igualdade e harmonia. E quando a gente houve o resumão nesses termos, é obviamente muito fácil achar que “porra, gosto dessa visão de mundo que o Luther King idealiza. Esse Malcolm X aparentemente está indo longe demais, não, não, preferi o Luther King.”, na época foi exatamente o que eu pensei, e é tudo contado de uma maneira que nos ajuda a pensar assim.

MXMLK
Não só minha escola, mas não é incomum aprender sobre esses dois líderes sob o prisma de que o Malcolm X foi um racista errado e o Martin Luther King foi o exemplo da postura exemplar. Nesse print de um site britânico para auxiliar pesquisas escolares, claramente usa o termo “racista” para descrever Malcolm, o termo “jeito correto” para descrever as ações de Martin. E reforça que as semelhanças entre os dois eram mínimas.

Claro que a trajetória de militância e ativismo desses dois homens foi muito mais complexa que esse resumão que foi como tudo me foi ensinado na escola. Claro que eles não concordavam em muita coisa e tinham métodos opostos de solucionar os problemas raciais dos EUA. Mas eles mesmo assim, perdiam um tempo muito pequeno brigando entre si, faziam críticas aqui e ali obviamente, mas davam muito mais foco no fato de que ambos lutavam pela mesma causa e eles se respeitavam muito por isso. E estudiosos já afirmaram que no fim de suas vidas, eles estavam se aproximando de um meio termo entre as duas visões, e o Malcolm X ficando muito menos “todo branco é o inimigo” do que a mídia vende, assim como o Luther King ficando muito menos passivo do que a mídia vende.

O que nos leva a maneira como essa narrativa de que nos anos 60 houve um grande odiador de brancos que incitou ódio aos negros, mas aí surgiu esse grande pacifista que incitou o amor entre as raças e devíamos nos espelhar no pacifista, culminou nessa grande dictomia presente em diversas obras de ficção: a do pacifista e do racista reverso, que diferente do Malcolm X com o Luther King, que não se dedicavam a destruir a carreira um do outro, na ficção, esses personagens meio que tem que lutar no fim do filme, porque eles não tem um inimigo em comum, o inimigo deles é um contra o outro.

DuelForWakandaThrone
Uma curiosidade: essa imagem específica eu tirei do Google Imagens, pesquisei por “Malcolm X Luther King Metaphor”, e foi o que me apareceu. Não é como se a associação de vilões como Killmonger com Malcolm X estivesse sendo inventada por mim agora. Ela é forte no imaginário americano.

Literalmente, essa dictomia é tão forte, que na minha aula de história usaram o exemplo do Magneto e do Professor X pra me explicar Malcolm X e Luther King. Geralmente é o oposto, as pessoas usam Malcolm X e Luther King para explicar que existem analogias ideológicas de X-Men, mas comigo foi invertido, usaram o Magneto como referência pra me explicar quem foi Malcolm X. O que fazia sentido, afinal tinha filme do X-Men em cartaz naquele ano.

XavierMagneto

Foi uma aula marcante. Tão marcante que 12 anos depois estou descrevendo ela no meu blog, mas sério, foi marcante porque foi a única vez no meu colegial que pegaram filme de herói pra trabalhar conceito em sala de aula, e essas coisas triplicam a atenção do jovem. Me pegou de surpresa.

Enfim. Então vamos falar um pouco do Magneto. Magneto assim como Killmonger é um hipócrita, no sentido de que ele quer usar seu ódio, sua luta contra a opressão e uma causa justa para se transformar em um ditador maligno que vai ser essencialmente um novo Hitler. Além de defender abertamente o genocídio de todos os não mutantes. E portanto ele não está certo. Ele é um vilão, um inimigo dos direitos humanos, e um aspirador a tirano. Assim como Killmonger, que é o Malcolm X para o Luther King de T’Challa.

X2
No filme X-2, o climáx do filme é Magneto substituindo o vilão Stryker como adversário final. Stryker conseguiu manipular Xavier e convencê-lo a assassinar todos os mutantes do planeta de uma vez só, e Magneto muda os planos e convence Xavier a assassinar todos os humanos.

Porque é assim que funciona, quando temos na ficção a dictomia entre Luther King e Malcolm X, o Malcolm X é o vilão. Existe uma tentativa de usar a ficção para passar a ideia de que Malcolm X estava do lado errado da história. E uma ilusão de que precisamos derrubar Malcolm X pra concordar com Luther King ou derrubar Luther King pra concordar com Malcolm X e nada disso é verdade. A verdade é que independente de com qual dos dois você concorde mais, Malcolm X foi uma figura fundamental para a luta contra o racismo nos Estados Unidos e e a última coisa que ele precisa se tornar é inspiração para vilão de super-herói.

Selma
O filme Selma trabalha essa ideia, incluindo uma cena em que Malcolm X fala para a esposa de King que ele vai dar a Luther King mais simpatizantes sendo um radical, e fazendo as pessoas simpatizarem com a postura de Luther King por contraste. Retratando essa dinâmica toda como intencional.

Mas ele vira. Caralho, como ele vira. O Static, icônico herói negro, notório justamente por ser um dos poucos heróis negros a ter o próprio desenho animado e sendo bem popular na nossa geração justamente por causa desse desenho. Pois é.

Static
Esse cara maneiro.

Ele tem esse vilão chamado Commando X, que é um supremacista negro, que começou sua carreira de militância matando membros da Ku Klux Klan e outros supremacistas brancos, mas terminou perdendo a bússola moral e virando um assassino de judeus. E todos sabemos a qual ideologia associamos assassinatos de judeus. Sim, sim, você começa lutando contra uma causa legítima, mas quando vê você virou Hitler, é isso que aconteceu com Commando X. Agora, dou um saco de balas para o leitor que adivinhar porque ele tem um X no fim do nome?

CommandoX
Commando X no caso é o cara de roupa verde e boina vermelha sendo jogado ao chão.

E o Muhammad X, inimigo do Superman que acredita que o Superman sendo branco, não é capaz de ajudar as comunidades negras, e portanto é um inimigo. Sendo incapaz de se convencer de que o Superman possa ser uma pessoa boa, por ser branco. Adivinhem porque ele tem o X no nome?

MohammadX

Ou o Black Manta, que afirma querem conquistar Atlantis do Aquaman, para transformar o país em uma nação onde os negros possam se refugiar do domínio e opressão dos brancos. Mas isso na verdade é um mero pretexto pra ele virar um ditador cruel e tiranizar Atlanta.

BlackManta

Ou o Remake de 12 Angry Men, que resolve diversificar o elenco original de doze homens brancos, fazendo com que sejam 11 brancos e um negro. O negro agora é o jurado nº10, que era o mais detestável, e racista de todos, chegando ao ponto de ser por unanimidade expulso do debate pelos outros onze, só que agora, ele é um supremacista negro e um racista reverso.

Juror10
“Não se pode acreditar no que eles falam. Eles nascem mentirosos.”

Conceitos que possam ser associados ao Malcolm X, viram material para vilões. E sabemos o nome disso, não sabemos? É espantalho o nome disso. Criamos um personagem que seja fácil de comparar com o Malcolm X, para colocar na boca dele coisas que o Malcolm X nunca disse, e facilitar nossa completa aversão ao discurso do Malcolm.

Curiosamente, metade dos exemplos que eu citei vêm de quadrinhos de herói. Que é um mundo que tem uma linguagem narrativa onde a violência e a luta sempre são a solução. E esse é precisamente o meu ponto. Não estou aqui pra entrar o mérito do quão válido é ou não dar soco em nazista ou membro da KKK, na vida real. Não estou aqui pra falar que atacar racista é errado. Nem que perdoar racista é errado. Isso é a vida real, e eu tenho minhas opiniões e sensos éticos como todo mundo, mas não acho que esse seja o espaço para eu te falar se você deve ser mais agressivo ou mais passivo. Acho que o objetivo do blog não é o de te explicar qual lado do espectro político você tem que estar, o que não me impede de apontar que esse espectro existe. Repito, não sou um cientista político.

HitlerPunch

HitlerWedgi
Talvez você ache que na vida real, os membros da KKK tem mais é que levar um murro. E talvez você ache que não, que usar violência contra eles é errado. E para os fins do argumento desse texto, isso não tem importância. O importante é que estamos falando de uma mídia que são quadrinhos, filmes e televisão, que já estabeleceram faz anos, que dentro da própria linguagem, racistas merecem sim levar a surra da vida deles. Existe um escapismo na ficção de desejarmos ver alguém fazer algo que talvez não gostássemos que alguém fizesse de verdade, mas faz a gente se sentir bem mesmo assim. E a ficção trabalha esse contexto na hora de aplicar violência contra racistas. Meu texto é sobre como isso é feito ficcionalmente.

Eu estudo ficção, e como ela representa mensagens através de um mundo fictício e passa essas mensagens ao expectador. E como essa representação carrega mensagens que essas sim te falam qual deve ser a sua postura sobre o racismo. E sobre essas mensagens eu falo sim. Afinal filmes são ideológicos, até mesmo os mais imbecis do mundo são ideológicos, e te passam mensagens e visões de mundo. Então eu estou aqui entrando no mérito de que quem são os super-heróis, pra falar que se um negro lutar contra seus inimigos pela violência eles vão virar os vilões? Por que em um mundo onde a violência é a norma, uma pessoa agressiva contra o racismo é o vilão? O que me leva a pergunta: na ficção, quem é que pode fazer a revolução?

O Superman pode bater no Lex Luthor por ser um lixo de pessoa. Mas se um negro socar o Lex Luthor, porque ele destruiu uma comunidade negra pra fazer uma construção escrota, então esse negro está se tornando tão ruim quanto o próprio Lex Luthor? Porque num gênero que romantiza tanto a luta, e a violência como solução, usa o tema da raça como ponto de partida pra traçar a linha de “mas cuidado com seu ódio. Ou você vai virar o racista reverso.” 

MagnetoCaptainAmerica
O maior socador de nazistas que a gente respeita, ensina Magneto que o livre-arbítrio é mais importante que a cura do racismo, e ele é tão puro e não racista que Magneto se vê incapaz de discordar.

Mas agora é a parte que vocês me falam. “Não, não tem nada a ver. Pois as causas sociais que o Magneto defende servem para fazer a gente simpatizar com ele e considerá-lo menos vilanesco. Ele não está vilanizando a ideologia, pelo contrário, a sua ideologia está redimindo ele.”. Isso é de fato verdade, e ainda completo, essa backstory deixa tanto Magneto quanto Killmonger personagens complexos pra cacete, e isso tá uma tridimensionalidade boa e bem-vinda. Mas nada disso muda o fato de que literalmente todos os filmes com o Magneto ele não tem a permissão de triunfar, sem seu triunfo ser considerado um final infeliz. A perspectiva moral do filme é sempre contra o Magneto, não importa quanta simpatia ele gere. É exatamente o mesmo caso do Thanos, com seu neomalthusianismo. Ele tem um objetivo nobre, que quer alcançar por uma mentalidade torta, e caso ele triunfe, isso significaria um final infeliz e trágico ao filme, portanto ele e seus ideais estão sendo vilanizados. Magneto e Killmonger são a mesma coisa. Se Killmonger vencer, o filme acabou em tragédia. Magneto e Killmonger não possuem o direito de fazer a revolução. Por outro lado, se o Capitão América declara guerra aberta contra o governo e contra outros heróis, o filme não o desmoraliza, nem trata uma possível vitória do Capitão como tragédia, mantendo a mesma simpatia e tridimensionalidade comentada, portanto tanto nos quadrinhos quanto no filme de Guerra Civil, Steve Rogers não é vilanizado, e é por isso que ele pode fazer uma revolução. É um direito que cabe a ele e não cabe a Killmonger e Magneto.

TeamCap

Enfim, um ano depois de Malcolm X ser assassinado, surgiu esse grupo político nos Estados Unidos chamado Partido dos Panteras Negras, que tinha muita inspiração em Malcolm X. Panteras Negras por incrível coincidência é o nome também do super-herói que é o ponto de partida desse texto. Pois é, eu geralmente uso incrível coincidência como forma de ironia nesse blog, mas aqui eu falo sério, o herói surgiu alguns meses antes do partido político, então o nome ser igual é uma genuína coincidência, e o herói não é feito para representar os ideais do partido.

BlackPantherParty

Enfim, alguns elementos dos Panteras Negras chamavam muito a atenção, em especial pra sua luta para que negros pudessem andar armados livremente. E a associação de muitos membros ao Marxismo e ao ideal revolucionário. Existiam membros que acreditavam que se os grupos negros se armassem eles poderiam derrubar o governo americano, e derrubar junto dele a estrutura do racismo da qual todo o sistema que forma o país é cúmplice. Ou seja, armando os negros, uma revolução e tomada de poder aconteceria. Esse plano soa minimamente familiar?

Oakland
Aliás, Killmonger nasceu em Oakland, mesma cidade aonde o Partido dos Panteras Negras foi fundado. E isso não é coincidência.

Ah sim, e novamente reforço, eu não poderia reforçar o suficiente, eu estou resumindo e simplificando tudo para os pontos que evocam a semelhança come os personagens, pois são meus pontos de interesse. Mas os Panteras Negras foram muito maiores do que eu estou dizendo, e sua importância vai muito além de sua relação com armas ou marxismo. Vale uma pesquisa real para os interessados. Eu citei só o mínimo necessário para explicar por que o Killmonger e seus ideais dialogam diretamente com uma das facetas dos Panteras Negras que mais assustava as pessoas e permitia que fossem chamados de terroristas e faziam brancos compararem o grupo à Ku Klux Klan como o meme lá no começo do texto provou. E por que no filme o primeiro herói negro do cinema mainstream, com o nome de Black Panther, matou um personagem que ecoava os ideais dos Panteras Negras. Percebem a ironia? Ela não foi acidental.

KillmongerDeath

Killmonger queria fazer uma revolução, ele não acreditava em entrar no sistema e mudá-lo aos poucos. E ele não só não acreditava que ele entrou no sistema, sendo parte da CIA e nunca tentou usar seu poder de “homem negro dentro da CIA” para ver se fazia a diferença e plantava sementes. Não, ele não achava que o sistema estava quebrado, ele achava que estava funcionando perfeitamente, e que o sistema faz com os negros é o objetivo do sistema, e a prova de que ele funciona, com a única solução sendo destruir o sistema completamente. Magneto pensa exatamente a mesma coisa, ele não confia que os humanos vão dar espaço aos mutantes sem uma revolução radical reestruturando a sociedade. Ele não acredita que é questão de paciência e apanhar em silêncio até os humanos mudarem. E é por não acreditarem que a sociedade vai gradualmente ficar melhor, que eles não podem fazer a revolução.

Xaviers
“Os humanos vão fazer isso com a gente?” “Não se mostrarmos um caminho melhor.” “Você ainda acredita nisso?” “Só porque alguém tropeçou, não significa que se eles perderam pra sempre. Todos nós as vezes precisamos de ajuda.”

Porque a mensagem que importa pro expectador é a de que esperar a sociedade gradualmente ficar melhor, dando o melhor exemplo, sem fazer nenhuma mudança radical no sistema não só é uma solução, como é a mais ética e decente das soluções. E é a solução que todo mundo deveria priorizar sempre. É a solução que T’Challa toma abrindo uma instituição de troca cultural em Oakland.

Uma aliança com os governos que sustentam a opressão dos Negros no ocidente, envolvendo aumentar o acesso deles ao vibranium, capaz de produzir as maiores armas do mundo, parece para T’Challa uma solução melhor para os problemas dos negros, do que lutar contra os opressores, pois isso seria errado.

DeathStar
Solução que o maior ícone da cultura pop encontrou pra lidar com seus opressores.

Lutar contra o governo é errado. É moralmente errado.

SupermanLexLuthor
Superman depondo o presidente democraticamente eleito sob o pretexto dele ser um super-vilão.

É resolver na violência. A violência é sempre errada e nunca soluciona conflitos em filmes de super-heróis. Só a paciência, diálogo e dar a outra face que resolvem conflitos.

LokiThor
Thor resolvendo na violência em vez de mostrar para Loki um caminho melhor e focar no diálogo.

Magneto e Killmonger não têm permissão de fazer sua revolução, porque ela é moralmente errada. E mesmo se você achar que a base ideológica deles é certa, você é obrigado a encarar o fato de que ao entrar nesse mundo eles viraram tão malignos quanto as pessoas que eles enfrentam. Se eles fizerem sua revolução eles vão virar ditadores cruéis e sanguinários nos moldes de Stalin e Hitler. E por isso, terem sua revolução tratada com bons olhos pelo cinema é mais um em uma longa lista de direitos que eles não possuem.

KillmongerThrone
“O sol nunca vai se por no Império de Wakanda.” Essa frase que Killmonger diz assim que se senta ao trono é uma citação direta ao “Império onde o sol nunca se põe”, apelido dado ao Império Britânico, tão extenso ao redor do globo que sempre pelo menos em um país sob o domínio dos ingleses era dia, independente do horário. O Império Britânico foi o segundo país que mais vendeu escravos durante o comércio de escravos na América, e foi um dos principais colonizadores da Africa. Tendo responsabilidade tanto pela situação da África quanto pela situação do negro americano. Almejar ser o novo Império Britânico é o Killmonger assumidamente querendo ser o inimigo.  

Eles são extremistas que perderam a noção e esqueceram a importância da paz.

WonderWomanKills
Wonder Woman cometendo um assassinato que ela acredita: trará paz ao mundo. Ela afirmou que a execução era “Em nome de tudo que é bom nesse mundo.”

Em One Piece temos a exata mesma coisa. A dictomia Luther King e Malcolm X se personifica em dois homens-peixe, uma raça de peixes antropomórficos que por séculos foram sequestradas e escravizadas pelos humanos aristocratas. Pois bem, a resistência contra os homens-peixe tiveram duas grandes lideranças que lideraram de lados ideologicamente opostos: Otohime e Fisher Tiger. A Rainha Otohime, que é o Luther King, e que lutava para que os homens-peixe fossem aceitos nas reuniões de governo para negociar o fim da escravidão inclusão de seu povo no governo e a paz entre os povos. Para isso ela fazia um grande baixo-assinado. Ela era pacifica, e nunca revidava, e um dia um aristocrata escravista caiu na ilha dos homens-peixe ferido, e ela o ajudou e o curou, mostrando compaixão até com um inimigo direto de seu povo. Quando este aristocrata foi curado, ela o convenceu a contragosto a levá-lo até a sede do governo onde ela poderia falar com alguma autoridade sobre sua causa, mas antes que ela pudesse ir, ela levou um tiro na multidão e morreu assassinada. Seu assassino era um admirador de Fisher Tiger que deu o tiro só para poder culpar um humano e aumentar o ódio contra humanos. Porém a atitude de Otohime em nunca odiar ou considerar os seres humanos como seus inimigos inspirou uma geração de seguidores pacíficos que mantém seus ideais vivos.

OtohimeMjosgard
Otohime protege um dos grandes símbolos do racismo contra sua espécie.

Por outro lado. A outra liderança, Fisher Tiger, era um rebelde violento, que atacou nobres para libertar os escravos. Ele montou um bando pirata que atacava humanos envolvidos na escravidão. Tiger não acreditava na integração de humanos e homens-peixe. Porém um dia um grupo de humanos abordou Tiger e pediu para que ele levasse uma menininha chamada Koala pra casa. Koala era humana, mas era escrava mesmo assim e havia sido pessoalmente libertada por Tiger no passado, e foi pedido que ele a reunisse com seus pais, em vez de abandonar um escravo que ele libertou a própria sorte, e Tiger concorda, mesmo sentindo desconforto com o fato dela ser humana. Tiger criou laços com Koala durante a viagem, e a ajudou a lidar com o trauma da escravidão, ele ensinou a menina a chorar, e expressar seus sentimentos genuínos (em sua vida de escrava, ela era punida fisicamente caso não estivesse sempre com um sorriso servil), ele tatuou um símbolo de liberdade em cima da “marca de escravo” de Koala, e foi pessoalmente até a vila dela entregá-la a sua família. Porém era uma emboscada, e o governo estava esperando Tiger na vila e Tiger foi baleado.

FisherTiger

Os médicos da tripulação de Tiger poderiam tê-lo salvado com uma transfusão de sangue de um humano, mas Tiger se recusou, porque ele admitiu que seu ódio contra os humanos era tão grande que ele não aguentaria viver com o sangue de um nas veias. Ele chora de vergonha por não ter superado seu próprio ódio, e fala que pessoas como Koala, a nova geração, são o único futuro da causa, desde que eles não herdem o ódio dos mais velhos. Em resumo o ódio que Tiger criou tirou a vida de Otohime, e impediu o salvamento da própria vida, foi um ódio letal aos dois lados da causa. Após sua morte, o legado de Tiger é carregado por dois notórios vilões da série: Arlong e Hody Jones. Dois racistas que praticam o ódio aos humanos de maneira cruel, sádica e não-ideológica, como uma vingança pelo que fizeram ao Tiger. Arlong chegou ao ponto de escravizar os humanos, enquanto Hody Jones admitiu que nunca teve uma má experiência com humanos, ele só foi educado pelos seguidores de Tiger a disseminar o ódio gratuitamente.

ArlongNami
Arlong é um dos maiores admiradores de Fisher Tiger no mangá. E por conta do ódio que ele aprendeu a sentir, ele escraviza humanos da mesma forma que humanos escravizaram homens-peixe.

Então Tiger em si não foi um vilão, pelo contrário, ele é uma figura que desperta muita simpatia e heroísmo ao público, e não recebeu o tratamento de Killmonge e Magneto. Mas apesar disso sua luta era uma que só poderia terminar em vilania, e a única luta que poderia gerar o bem é o pacifismo de Otohime. Tiger, assim como Magneto e Killmonger não tinha o direito de fazer a sua revolução, e o mero fato dele ter tentado, fez com que apesar dele ter feito mais o bem do que o mal, ele tenha inspirado o mal muito mais do que inspirou o bem.

Agora, isso significa que One Piece é um mangá que não pode ter uma revolução. Pelo contrário, a Koala literalmente cresceu para fazer parte de um grupo chamado “Os Revolucionários” que lutam para acabar com o governo. Mas ironicamente, a série (ainda) não fez uma única conexão ideológica entre Koala e os demais homens-peixes que lutam para derrubar o governo e uma herança ao legado de Fisher Tiger. É possível que faça no futuro, mas por hora a associação não foi feita. E mesmo tendo sido escrava do governo na infância, sua personalidade eternamente risonha e bem-humorada não permitem que associemos suas ações à vingança ou ódio (diferente de Tiger, Arlong e Jones que eram carrancudos e visivelmente rancorosos). Mas isso pode mudar, estou colocando aqui o disclaimer que o futuro do mangá pode desmentir tudo isso, e não ponho a mão no fogo nessa parte aqui.

Mas mesmo assim quero comentar: O único homem-peixe que vemos nos revolucionários, é notório por não ter a tatuagem do símbolo de Fisher Tiger, que a maioria dos homens-peixes tatuaram em si em algum ponto de suas vidas.

RevolutionaryArmy
Todos os que já se envolveram com Fisher Tiger no passado tem tatuado em si o sol que era seu símbolo. A ausência de tatuagem em Hack pode indicar uma desconexão com os ideais de Tiger e portanto uma ideologia mais genuína que justifique ele derrubar reis e enfrentar governos.

O protagonista de One Piece derruba governos na violência constantemente, inclusive no recente arco de Dressrosa, onde um governo de mais de uma década foi derrubado porque o rei foi espancado pelos heróis. Então o Luffy tem o direito de fazer a revolução, e o Dragon também tem, quem não têm é o Fisher Tiger, pois o Luffy e o Dragon não fazem ninguém se lembrar do Malcolm X. Luffy está resolvendo problemas pessoais (fizeram seus amigos chorarem), não está resolvendo problemas de segregação racial, e portanto a violência dele é legítima e a de Fisher Tiger não é.

LuffyCharloss
Se fosse o Tiger fazendo isso, seria um exemplo ruim, pois seria ele cultivando a cultura do ódio e gerando mais Arlongs e Hody Jones pras gerações futuras. Mas o Luffy é de boa.

E esse é um ponto fundamental. Apesar da revolução de Killmonger, Magneto e Fisher Tiger ser extremamente vilanizada, e vista como um extremismo que só pode gerar uma reprodução fiel do inimigo, isso não significa que a ficção vilanize revoluções em geral, a ficção vilaniza ESSA revolução, uma revolução que nos faça pensar em Malcolm X ou nos Panteras Negras. E principalmente, uma revolução que os brancos olhem e pensem “mas gente, se essa galera começar a fazer isso, vão acabar batendo…. em mim!” Mas se pegarmos por exemplo um filme como V for Vendetta ou Hunger Games para pegar exemplos bem populares, esses filmes romantizam a revolução pra cacete. Glorificam, e fazem a revolução armada e a destruição do governo parecer uma enorme necessidade.

VforVendetta

Então, qual a diferença entre o Killmonger derrubar o governo dos Estados Unidos e a Katniss derrubar o governo de Panem? Pois é, agora é que fica interessante.

Katniss

A diferença é que nem a Inglaterra fictícia de V for Vendetta, nem Panem são democracias. São governos totalitários. Que nem o império de Star Wars é um governo totalitário. E sabe como se dialoga com governos totalitários? Não se dialoga, a única solução é matar todo mundo.

ImmortanJoe
Ninguém realmente viu o filme e achou que a Furiosa estava errada por não priorizar o diálogo para lidar com as ações de Immortan Joe.

Tem que explodir a Death Star. Tem que meter bomba no parlamento, e dar flechada em soldado do governo sim. Derrubar todos que lutam a favor do governo na bala. O Snowpiercer não pode continuar, tem que acabar completamente, não importa o custo. Até não sobrar vestígios de totalitarismo. E a gente romantiza isso pra cacete.

Revolution
Toda revolução começa com uma faísca.

IRebel

Aí você vai me falar que não. Que a gente não romantiza o V for Vendetta, porque o personagem é claramente um anti-herói. Ele é amoral. Está em uma escala de cinza, e não deve ser admirado. E portanto como ele pode ser romantizado?

E a resposta é simples. Envolve a administração da catarse. Catarse, uma palavra que pode significar “purgação”, é um termo usado no cinema para descrever uma cena ou momento que descarregue nossas emoções. Em resumo, é o momento em que espera-se que a audiência deleite-se com todas as emoções que estão saindo, e isso geralmente se deve ao fato de que é o final do filme, e tudo o que o filme fez até aquele momento culminou naquela cena magnífica. Provocar a catarse no terceiro ato, costuma ser um dos objetivos de um roteirista de um filme. É esse sentimento de liberação de nossos sentimentos que nos arrepia quando vemos o Tim Robbins abrir os braços na chuva em Shawshank Redemption. Ou quando ouvimos a resenha de Anton Ego sobre o restaurante em Ratatouille, ou não precisa ser no fim do filme, catarse é ver a Diana entrar na terra de ninguém em Wonder Woman. E principalmente, catarse é ver as bombas explodirem o parlamento ao som da Abertura 1812 de Tchaikovsky.

Explosion

A catarse é provocada por uma empatia que te coloca ao lado do personagem, independente da moral dele, pois o cinema e a televisão eles tem esse poder. Eles geram e exercitam sua empatia, e te fazem sentir empatia pelos personagens, mesmo que eles sejam diferentes de você. Quando esse exercício de empatia falha, é bem difícil você mesmo assim gostar do filme. E provavelmente você vai xingar o personagem na hora de criticar o filme.

Os crimes e destruição e mortes do V são catárticos, e te libertam, da mesma maneira que os crimes e destruições e mortes do Walter White. Walter é um péssimo ser humano, mas Breaking Bad direciona sua empatia a estar do lado dele e se sentir liberado ao lado dele conforme ele se sente bem e livre por entrar em uma vida de crimes. E como eu já disse aqui antes, durante 90% da série, não apesar das atrocidades, nossa inclinação é na maioria das vezes tomar o lado do Walt, pois seus inimigos são ainda piores. Ele é uma pessoa horrível, mas não assume o papel de vilão, pois sempre tem outro personagem sendo o vilão.

WalterWhite
Catártico.

E por isso o anti-heróismo de V não faz com que questionemos seu direito de explodir o parlamento. Pois somos cúmplices de V, assim como Evey é. Assim como o povo inglês é. E isso é romantizar a revolução sim. Assim como somos cúmplices de Katniss Everdeen. E de Luke Skywalker. Mas nós nunca somos cúmplices de Magneto. Quando ele vira as bombas pros barcos, o filme está do lado do Xavier, não do Magneto. O filme nunca está do lado do Magneto, como está do lado de Walter White.

MagnetoMissiles

Se o Kurt Vagner tivesse assassinado o presidente, não seria catártico, não nos aliviaríamos de nossas emoções. E não somos cúmplices de Killmonger quando este luta. Talvez você seja cúmplice dele na cena do museu, mas em todo o resto do filme, ele está em posição de anular sua cumplicidade. Ver ele matar a namorada, ou jogar T’Challa do abismo servem pra distanciar você do Killmonger, porque ele está errado, e você não pode ficar do lado dele do jeito que você ficaria do lado de V. Ver ele queimar as plantas sagradas de Wakanda é uma atitude inútil com o único objetivo de te fazer perceber o quão errado o Killmonger é e desejar sua derrota.

KillmongerGirlfriend
Essa cena, colocada no filme antes mesmo de sabermos o nome e objetivos do personagem, reforçam a mensagem de que pra ele todas as pessoas são meros peões a serem descartados caso não sejam mais úteis, mesmo aqueles que sua ideologia supostamente deveria proteger. O que é corroborado quando ele confessa ter matado vários negros trabalhando para a CIA.

Em Hunger Games, se debate sob o risco do governo que suceder o governo do presidente Snow de Panem ser uma reprodução do governo do presidente Snow. Mas a solução para isso é a de que: A Katniss está certa. E os membros da revolução que são tão ruins quanto Snow vão morrer junto, na flechada da própria Katniss. Não existe uma crítica à violência, ao método, ao assassinato, é uma revolução carai, tem que matar mesmo. A crítica é só em relação a que tipo de ideologia vai ascender, mas a violência está liberada.

Coin
Como lidar com pessoas que atrapalham a revolução.

Na trilogia recente de Planet of the Apes, a dictomia se repete. Temos Caesar, o Luther King, e Koba, o Malcolm X. Reparem por favor no fato de Koba ser o nome de revolucionário de Stalin, antes dele ser ditador, reforçando o tema de “se seguir nesse caminho, se tornará um dos maiores tiranos da história.”. Enfim, Caesar apesar de ser o menos passivo representante-de-Luther-King-em-racismo-fantástico que eu já vi, lutou até o final para que humanos não fossem machucados em contextos que não sejam de auto-defesa, e que as espécies não tivessem mais atritos que o necessário. Enquanto Koba queria exterminar a raça humana, pois ele queria se vingar dos humanos. Ao final de Dawn of the Planet of the Apes, Caesar mata Koba. Quando Caesar é lembrado que a regra de honra máxima dos macacos é “macaco não deve matar macaco.” ele simplesmente responde que Koba não é um macaco e o assassina.

KobaDeath
“Koba não é um macaco!”

No terceiro filme, tendo falhado em impedir a guerra de começar, Caesar tem seu filho assassinado e resolve se vingar, para o desgosto de seus aliados que afirmam que ele enfim está se tornando tão ruim quanto o inimigo. Apesar disso, Caesar poupa o assassino de seu filho no final, nunca cruzando a linha moral que seria assassinar um humano por ódio. Apesar disso, o assassinato de Koba nunca é tratado como uma linha moral que foi cruzada, Koba era o Stalin. O racista reverso. Ele merece morrer e isso não é um dilema moral que com equivalência ao Caesar matar o assassino do seu filho em um ato de vingança.

Avalanche
No final os humanos se destroem sozinhos sem ação direta dos macacos. Mostrando aos macacos, que se eles ficarem quietos em seu canto, o problema se soluciona com o tempo.

Assim como a ética de Luke Skywalker assassinar uma população imensa ao explodir a estrela da morte nunca foi questionada. Mentira, foi sim, nos anos 1990, pelo Kevin Smith no filme Clerks, mas só a moral de explodir a segunda estrela da morte, mesmo nesse contexto, concluí-se que os Stormtroopers mortos no primeiro filme mereciam morrer, pois Luke Skywalker tinha o direito de fazer a revolução.

HanSolo
Mesmo depois de ficarem amigos de um Stormtrooper e aprender que são pessoas de verdade debaixo da máscara, o assassinato casual deles continuou sendo um gesto completamente moral e natural de se fazer.

O próprio T’Challa, que perdeu o trono no processo legal de Wakanda, recupera o trono atiçando uma revolução, e declarando guerra contra o governo de Wakanda. Houve mortes, e ele pessoalmente assassina Killmonger para poder trazer o “bom governo” de volta. Sabem porque? Porque o Killmonger era a Alma Coin e o T’Challa era a Katniss. O problema não é o método, o problema é a ideologia. Killmonger não estava errado por ser violento e agressivo, pois os Jabari eram e saíram de heróis no filme, pois foram violentos e agressivos do lado certo da guerra. O problema de Killmonger era sua ideologia.

null
Ironicamente o plano de T’Challa para retomar Wakanda era mais ou menos o mesmo plano do Killmonger pra acabar com a opressão de seu povo. Muita porrada e desencadear um golpe de Estado.

Inclusive Killmonger tomou o poder em Wakanda no filme de maneira legítima. Ele tinha o direito ao desafio, e as leis de Wakanda permitiam que ele matasse T’Challa. A luta deveria ser um contra um, mas T’Challa só sobreviveu por interferência externa, ele foi mantido vivo por pessoas de fora da luta. E isso foi usado como tecnicalidade para ele afirmar que o duelo foi anulado, pois ele não morreu. Quando personagens como Nakia deixavam bem claro que Killmonger precisava ser derrotado porque ela não gostava dele. Independente de sua legitimidade.

O Wolverine não é exatamente a pessoa mais adversa a violência e a se render ao ódio. Mas é muito mais fácil estar do lado do Wolverine do que do lado do Magneto, pois o Wolverine não é o Malcolm X. O que não signifique que ele não saia matando geral, ele só não faz isso por ideologias raciais.

Wolverine
Wolverine não está exatamente acima de ser tomado por ódio, preferir violência ao diálogo e matar pessoas, mas como ele não faz isso sob o pretexto de nenhuma ideologia que o filme queira mostrar como perigosa, seus filmes nunca o tratam como um vilão.

Mas não precisa ser só a perspectiva racial. Killmonger e Magneto davam a perspectiva racial. Mas não precisa ser o Malcom X. O importante é não ser algo que diga que a sociedade atual é a inimiga. Por exemplo. O Bane em Dark Knight Rises, lidera uma revolução que é essencialmente um ocupy wall-street e uma revolução anárquica em Gotham, tirando a cidade de políticos e dando-a ao povo. Mais do que vilanizado, a revolução de Bane é retratada no filme como mero pretexto para fazer o caos de sua ideologia destruir a cidade completamente, o que era seu objetivo, uma vez que Bane não tem ideologia e só mentiu que tinha, para fazer essa ideologia matar gente. E isso dialogava diretamente com um movimento social que estava rolando naquele exato momento, fazendo o papel de espantalho de fazê-lo soar vazio e falso.

Bane

Da mesma forma que Bane, temos o Amon em Legend of Korra, querendo trazer igualdade para as pessoas oprimidas, tirando o poder dos privilegiados. Isso também era um mero pretexto para a prática de vilania causados por um homem cujo extremismo o corrompeu. Amon mentia sua identidade e na verdade não era parte do grupo oprimido que ele criticava, e buscava só o poder.

Amon

A revolução boa é a que luta contra uma sociedade cujos problemas não são o da nossa sociedade. Racismo, desigualdade social, opressão, esses são os temas ruins. Um ditadorzão gerando fome e miséria como consequência direta de ser um ditador, isso sim é um tema bom. Não importa quantos Stormtroopers tenham que morrer. Aliado do inimigo não é gente. A revolução boa é a que luta contra problemas que não só não são os problemas do EUA, como o totalitarismo, mas que são os problemas dos países em que os EUA acham pretexto para praticar guerra e matança. Problemas também que hipoteticamente se tornarão problemas dos EUA, se pessoas demais começarem a lutar contra o racismo, desigualdade social e opressão.

Riot
É bonito, porque eu não associo esse país dendo derrubado com o meu país.

A revolução ruim é a que luta contra os EUA. As que lutam por reparação racial. As que lutam contra a manutenção do status quo. As que lutam contra as consequências do capitalismo e por igualdade. As que acham que a sociedade ocidental nos moldes em que vivemos, é estruturada de uma maneira insustentável. As revoluções que presumem que o mundo atual tem problemas que precisam de soluções. As revoluções que dão a entender que nossa sociedade atual precisa de mudanças.

BaneSpeech
Bane critica como as consequências do filme anterior permitiram leis que ignoravam direitos humanos básicos para facilitar o encarceramento de pessoas sob o pretexto de “limpar a cidade.” Bane abertamente critica isso, e sua atitude é pintada como a de um vilão, afinal esse tipo de discurso nunca viria de um herói.

Essa revolução ameaça a gente. E por isso, não só o Killmonger, o Magneto e o Bane perdem o direito de matar seus inimigos da maneira que a Katniss matou os seus inimigos. Eles perdem o direito de ter sua causa legitimada. Eles necessariamente precisam concluir sua linha de pensamento com “e no fim eu vou praticar o mal.” ou “e vou atingir isso através de genocídio e crueldade gratuita.” Hollywood, e os arquétipos comuns da ficção atual deram a eles permissão de expor seu ponto de vista, mas sempre enquadrando esse como “o ponto de vista do psicopata.”, um tratamento que os heróis de filmes que deixam pilhas de cadáveres para trás nunca receberão. Tudo para poder fazer o bom espantalho pro expectador.

A mensagem é clara. É a de que uma vez que nós não somos totalitários, e esse é o único problema estrutural numa sociedade. A nossa sociedade não requer nenhuma alteração radical. Pelo contrário, alterações radicais trazem o risco de totalitarismo. Vivemos em um mundo bom, e se rebelar contra o mundo como ele é agora, é moralmente errado. Qualquer mudança que você ache necessária deve ser obtida com paciência e esperando as melhorias vindo aos poucos.

3Billboards
No fim do ano passado saiu um filme que mostra como um policial racista, torturador e que ataca inocentes em plena luz do dia, pode se tornar um bom policial, se começarmos a elogiá-lo e passar a mão em sua cabeça em vez de criticá-lo por suas ações e rotularmos ele de racista. Em uma atuação que rendeu o Oscar à Sam Rockwell.

O Killmonger deve ser combatido com violência. Mas o governo americano deve ser combatido com uma ONG. Pois o Killmonger é ideologicamente deturpado, mas os EUA tem solução, se tivermos paciência. No fundo é o que a gente quer ouvir no cinema. Que nós temos solução se tiverem paciência conosco, que não merecemos ser odiados. E como para a população dominante nos EUA “nós” são os brancos, filmes sobre como a situação racial tem solução se tiverem paciência e perdoarem o branco são muito populares.

Bojack
“Não é tarde demais pra mim, é? Não é tarde demais. Diane, eu preciso que você me diga que não é tarde. Eu preciso que você me diga que eu sou uma boa pessoa. Eu sei que eu posso ser egoísta, narcisista e auto-destrutivo. Mas embaixo disso, lá no fundo, eu sou uma boa pessoa e eu preciso que você me diga que eu sou bom.”

A fúria do Killmonger assusta mais do que a fúria do presidente dos Estados Unidos. Pois seja Bush, Obama ou Trump: se todo mundo começar a imitar o Trump, a minha vida em si não é ameaçada. Mas a gente caga de medo de todo mundo pensar como o Killmonger. Tanto medo, que ninguém que se pareça com o Killmonger tem o direito de ficar puto, a sociedade fica mais confortável com todo mundo que tem alguma insatisfação a respeito de relações raciais nos EUA de boa. Zen e relaxado. Dando a outra face e esperando com paciência o problema melhorar.

Fechando com uma dica de vídeo aqui. Quero recomendar a todos a fantástica análise do Pop Culture Detective sobre a banalização da morte de Stormtroopers, como se não fossem pessoas. Gosto muito dessa análise e quero compartilhá-la com vocês.

17 thoughts on “Sobre Killmonger: Quem pode e quem não pode fazer a revolução na ficção?

  1. Expressou bem esse mal estar que eu tenho há mais de uma década… E foi bem mais objetivo que os seus demais textos. Na minha opinião, vc tem uma pérola aqui. Talvez devesse comparar a construção desse texto com os demais do blog.

    Liked by 1 person

  2. Tem uns pontos que incomodam pra onde isso leva,mas vá lá. Racismo reverso é idiotice,racismo é discriminar alguém pela sua etnia,que geralmente vem de uma maioria sobre uma minoria.Concordo no ponto sobre Malcom X e Martin Luther King de chegaram no meio termo entre ação pacífica e firmeza nessas ações para consolidar conquistas de direitos.Magneto e Kilmonger se tornam vilões ao usarem uma revolução violente dentro de democracias,onde não há uma política ativa de discriminação pelo governo,como Miamar perseguir muçulmanos ou Árabia Saudita com gays ou pessoas de outras religiões ou sem,onde os ataques e discriminações contantes persistem da ignorância e inércia e falta de interesse do governo em solucionar o problema,que exigiria uma ação conjunta de leis e educação para podar esse veneno nas gerações seguintes.O racismo,lendo o “A História do Medo do Ocidente”, é o medo do diferente e o desejo de ter alguém para culpar todas as desgraças do mundo,o bode expiatório onde é ok você tratá-la como lixo sem sofrer consequências,que lembra bem Dogville do Lars Von Trier. E o dilema dos dois se encontram em Niecthze que diz que aquele que combate monstros deve ter cuidado para não se transformar em um.No nosso mundo,eles se aproximam de um Fidel Castro,fez uma revolução armada para derrubar uma ditadura,mas se transforma em um ditador, ou a Revolução Russa para acabar com a tirania da nobreza czarista,mas se transformaram em uma ditadura soviética.O Cartman expressa como pensa um racista,a noção de que só pode existir uma relação de um superior e um inferior,igualdade é alienígena para eles,aí a gague na forma de pensar,que rimos porque é inverosímel,como ditadura gay ou os pretos e os nordestinos vão acabar com o país. Devo discordar de uns fatos sobre One Piece:Fisher Tiger é visto como herói porque nunca matava civis, nem mesmo pessoas que representam seus algozes,marinha e governo,para não se rebaixar ao nível dos seus opressores.Esse ideal vai sendo deturpado aos poucos,como Arlong passa a atacar civis,mas não ataca seus iguais, já Hoody ataca humanos e sua própria gente,algo que Arlong jamais faria. Aí vem a parte interessante puxando o que você disse sobre Malcom e Martim:As ações de Fisher e Otohime são incompletas sozinhas,uma resistência pacífica em uma ditadura dos Dragões Celestiais só consegue no máximo concessões,mas não muda o status,onde os tritões ainda são escravizados, e Fisher Tiger é a reação apenas paliativa no agora sem mostrar um futuro onde tritões e humanos fossem vistos com igualdade,um ódio nascido do sofrimento de ser tratado de forma inumana que são coisas quase impossíveis de superar e ele sabe disso e espera que esse rancor morra com ele para abrir essa possibilidade de futuro. Outra parada: Doflamingo tomou aquele país por meio ilegitimo de golpe,uma ditadura onde ninguém se tocava que estavam vivendo em uma ditadura,só aqueles que sofriam nela,como a ditadura de 64 onde maioria das pessoas passava indiferente,mas aquelas que saíam da linha sofriam todas as horríveis consequências de discordar,na Dressrosa de Doflamingo,você virava brinquedo e todo mundo esquecia sua existência.O Lex Luthor presidente que você citou,eu acho que foi na fase do Jeph Loeb,ele foi deposto por despirocar no seu cargo e abusar no poder dele,como um certo alguém lá em Brasília atualmente. Koba,no primeiro Planeta dos Macacos,matou seu torturador,o que era justiça,quando passou a estender esse ódio para todos os humanos aí ele se tornou o vilão,que era o agir e pensar dos humanos,o que César queria criar algo oposto da forma humana de pensar, o olho por olho que acabou levando a humanidade a ruína, e criar a forma símia de pensar que traga um futuro para os primatas.Os outros citados são contra algo sólido,uma ditadura,não contra séculos de racismo enraizado dentro da cultura,um problema que não dá pra resolver na base do chumbo infelizmente.E essa parada do StormTroope é o famoso ou eu ou ele,morte por combate é aceitável,o que tornaria vilões seria uma execução contra uma pessoa desarmada que se rendeu ou um tiro covarde pelas costas,como o Han Solo fez com o mensageiro do Jabba originalmente e depois foi modificada a cena pra uma em que o mensageiro sacou uma arma.E retomando sobre Magneto,hoje em dia ele age na suas ações agressivas,mas direcionadas para aqueles que realmente ameaçam os mutantes,supremacistas,políticos e grupos dentro do governo,sem atacar civis como antigamente ou querer tomar a força o poder dentro de uma democracia.No final,o caso que melhor casa é o Nelson Mandela que usou da guerrilha contra um governo que tinha políticas ativas de segregação,Apartheid,mas quando subiu ao poder,em vez do revanchismo optou pelo futuro em uma política de direitos igualitários e tentar uma empreitada de anos e anos de ódio e de rancor que não seriam apagados em uma geração entre os grupos étnicos da África do Sul.Como nordestino,sei que há lugares no sul e sudeste onde seria espancado até a morte por nascer no lugar errado do mapa,ou sou visto como sangue suga do país e que atrasa o desenvolvimento do país e que para passar no vestibular precisa matar um cearense,tipo eu.Se algo acontecesse a minha família relacionado a isso,eu queimaria todo esse país até a última criança.E várias pessoas já passaram por essa dor,mas se entregar ao ódio cego,não haverá futuro para ninguém,a justiça é que nos torna melhores que olho por olho e nela encontramos igualdade,saber distinguir entre ignorância,precisa ser educada, e maldade,cair sobre ela o peso da lei,porque essa batalha contra esse sistema é um equilíbrio entre Malcom X e Martin Luthter King. É isso,o que incomodou foi você enviesar algumas histórias que eu conheço o contexto e não correspondem ao que você está dizendo na construção do seu argumento.

    Liked by 1 person

    1. Vamos por partes.

      Primeiro esse post não tem como objetivo incentivar a luta armada nem a revolução, e sim expor o seletivismo que as histórias que contamos colocam na maneira como eles retratam moralidade da revolução, em especial de sua violência, dependendo de quem a pratica. Pessoalmente eu não aprovaria completamente o Magneto ou o Bane caso existissem na vida real em uma leitura menos hipócrita e menos espantalho. Mas tampouco aprovaria o Luke Skywalker e a Katniss, e é dessa consistência que eu fui atrás.

      Dito isso você disse que “Magneto e Kilmonger se tornam vilões ao usarem uma revolução violente dentro de democracias,onde não há uma política ativa de discriminação pelo governo”, e daí eu discordo da maneira como você descreveu. O que você descreve como política ativa de discriminação, eu imagino que se refira ao fato da escravidão e da segregação terem acabado nos EUA. Porém apesar disso, existe sim, uma política de discriminação forte lá, que é discreta, e age nas brechas do que a lei diz, mas é ativa e intencional. Leis aprovadas que dificultem acesso dos negros ao voto existem e são votadas todo ano. Assim como leis que prevem aumento de crimes e infrações mais comumente praticados por engros e diminuição de pena de crimes mais comumente praticados por brancos. O grande exemplo disso é a relação da cocaína e do crack, os dois representam ricos semelhantes à saúde, e tem a mesma composição química. Mas o público da cocaína é a elite e o público do crack é a comunidade pobre, então a polícia pega muito mais pesado com crimes relacionados a crack. E isso é uma política de discriminação ativa sim. A ideia de se permitir usar presidiários como mão-de-obra barata está diretamente ligado ao fato da população carcerária crescer e da justiça dar mais foco em prender negros, historicamente trazidos ao país para ser mão-de-obra gratuita. Essas coisas não são coincidência, e o governo é cúmplice disso. Então nessa parte discordo de você, e é um dos pontos que eu queria quebrar com esse texto, a noção de que os EUA são um país sem problemas por ser democrático, quando acho que não é por aí não…

      Aí você comparou com Fidel Castro e com a Revolução Russa que no fim se tornaram ditaduras. E eu concordo com isso, viraram mesmo, e crimes contra os direitos humanos foram cometidos, foram horríveis. Mas logo abaixo disse: “Os outros citados são contra algo sólido,uma ditadura,não contra séculos de racismo enraizado dentro da cultura,um problema que não dá pra resolver na base do chumbo infelizmente.”, mas as revoluções Cubana e Russa foram contra algo sólido também e tiveram a mesma consequência horrível. No nosso mundo, um Luke Skywalker ou uma Katniss estão tão sujeitos a virar o próprio Stalin/Fidel quanto os demais citados. Afinal, são ditaduras que foram derrubadas pelos nossos tiranos. Por outro lado temos ditaduras que já caíram sem ninguém matar ninguém, então ditadura não significa que “não dá para resolver se não for no chumbo.” e esse dois pesos duas medidas para a revolução da ditadura e a revolução pelos direitos é também um dos meus pontos.

      De resto, concordo quanto ao Tiger. O outro comentário apontou exatamente a mesma coisa e eu vou refrasear, não me fiz entender muito bem. Mas concordo que Tiger é um herói, e foi retratado como tal. Meu problema foi com o fato de que mesmo sendo um herói toda semente que ele plantou floresceu para o mal, então seu heroísmo é esvaziado pelos monstros que foram produzidos por sua luta. Quanto ao Doflamingo ser um ditador concordo completamente. Mas o Wapol era legitimo e recebeu o mesmo tratamento. Para o Luffy legitimidade não é um assunto na hora de espancar um monarca.

      No geral eu quero com esse texto apontar o grande dois pesos duas medidas que ocorrem quando o personagem do revolucionário fala coisas genéricas como “abaixo a ditadura e a tirania.” que literalmente todo mundo quer ouvir. E quando o revolucionário fala “Deviamos acabar coma desigualdade, e empoderar as minorias.” que só algumas pessoas querem ouvir. E eu mantenho que é uma diferença de tratamento que existe e é forte. Mas eu pessoalmente não quero engajar ninguém a pegar em armas nem atiças revoluções não. Tenho meus próprios ideais, eles são mais complexos do que definí-los em algo branco e preto como “matem todos no governo.” ou “paz e amor.” tem muitos meios termos em muitos detalhes e acho que aqui nem é o espaço para falar isso. Mas assim, eu acho que a vida real é um lugar caótico, com muitas variáveis, e muito imprevisível. Eu posso olhar pra Cuba e pensar na pobreza do país, mas não coloco a mão no fogo de como Cuba estaria hoje sem o Fidel, talvez melhor, ou talvez fosse Porto Rico, um território dos EUA, abandonado e em crise cercado de pobreza. Eu não sei e honestamente, não confio em historiadores que sabem, a história do mundo tem variável demais para conseguirmos prever as engrenagens e ver tudo certinho.

      O Killmonger existe no universo do Pantera Negra, um universo mais simples que o nosso e cujos acontecimentos tem uma relação causal mais clara, onde tudo é consequência de algo que já sabemos o que é, e tudo está no controle de poucas mentes criativas, sem nada operando contra a maré. É mais fácil julgar consequências, e por isso mesmo é mais fácil identificar o enviesamento do discurso de quem conta a história. E no meu caso minha crítica foi ao enviesamento que vilaniza o pensamento inicial do Killmonger, como um pensamento que é a porta de entrada para a violência que Killmonger cometerá no futuro, o que eu acho algo intencional para desmerecer o pensamento dele.

      Gostar

  3. Foi um ótimo texto e mostrou vários pontos que não tinha parado pra pensar e concordo com a maioria mas me permita mostrar uma outra visão sobre alguns dos exemplos que você deu:
    Não acho que o Fisher Tiger é tratado da mesma forma que o Magneto e o Killmonger, primeiro ele não é vilanizado pelo contrario o texto o trata como um herói a ser admirado por exemplo ele está preocupado em salvar a vida dos homens peixe e não matar vidas humanas inclusive pondo em seu navio uma regra de “não matar”(seria muito fácil transformar Tiger e um assassino como o film do BP fez com Killmonger) e não fazia distinção dos escravos que ele libertava tratando todos os oprimidos como iguais ou seja ele não é HIPÓCRITA o que já o torna melhor que muitos dessa lista já que independentemente se ele está certo ou não sua ideologia é coerente até o fim. Você diz que “O Luffy pode fazer uma revolução mas o Tiger não” ou que o “Luffy bater em um Dragão celestial é certo mas o Tiger é errado” mas eu discordo disso o ataque do Tiger a Mariejoa nunca é tratado como algo errado pelo contrario é tratado como algo heroico e certo e os escravos que ele libertou são eternamente gratos a ele(como Hancock e Koala) inclusive o Luffy é comparado com o Tiger em vários momentos no arco da ilha dos homens peixe então o Luffy não é tratado como alguem superior moralmente ao Tiger pelo contrario ele tratado como igual. E vale lembra que embora seja um momento Catártico o soco do Luffy no nobre tambem tem consequências negativas pra ele com um Almirante quase matando eles e o bando ter sido separado então o ato impulsivo de rebeldia do Luffy tambem não foi completamente positivo no fim das contas.
    Sobre a influencia do Tiger em pessoas escrotas como Arlong e o Hodi, quero lembrar que o Arlong já era violento e odiava os humanos antes de embarcar com Tiger e apesar dele ter ficado mais radical ao longo do caminho isso foi mais devido ao atos dos humanos que ele testemunhou ou seja eu vejo ele mais como um produto da opressão humana do que um produto da influencia do Tiger.
    O Hodi Jones é um caso mais complexo ele ao contrario do Arlong de fato foi um fruto do ódio dos Homens Peixe(ele é até um contraste com ele em relação a isso) e ele até foi influenciado pelo Tiger mas eu vejo ele mais como um exemplo que ideologias mesmo que boas podem ser usados pessoas ruins(algo que aconteceu diversas vezes na historia)o Hodi obviamente distorceu muito do que Tiger e até o Arlong pregavam já que ele não se importava em matar outros homens peixe para cumprir seus objetivos mostrando que no final das contas ele não se importava com a ideologia já que nunca ligou em salvar sua especie como Tiger então no fim das contas ele não era uma critica a ideologia já que nunca seguiu ela pra começo de conversa. Você diz que Tiger fez “mas mal do que bem” mas eu vejo por outro lado não só ele libertou diverssas pessoas da escravidão ele não influenciou apenas pessoas ruins ele também influenciou pessoas boas como Jimbe, Alladin e Koala( concordo que o Oda ainda não deixou claro sua motivação para entrar na revolução mas duvido que não foi por influencia do Tiger) o Jimbe em especial continuou com Piratas do Sol fazendo o que o Tiger fazia antes que é salvando Homens Peixe e não matando humanos então eu digo que o verdadeiro ideal do Tiger foi o Jimbe não o Arlong. Não que o retrato não tenha problemas a Otohime é obviamente é retratada como a “certa” mas ambos são postos como essenciais pelo manga na luta contra o preconceito então isso me faz respeitar muito mais a dinâmica Luther King/Malcom X de One Piece do que de outras obras.
    Outro exemplo que eu gostaria de mostrar outra visão é o do Amon(mas não será tão longo dessa vez hehe) eu realmente acho que ele nunca quis poder sempre vi seu objetivo como livrar o mundo da dominação não por igualdade(como ele mentia pro seus seguidores) mas pq ele via a dominação como causa do mal do planeta e a razão da destruição de sua familia(seu pai so começou a agir como um escroto depois de ver que os filho tinham herdado a dominação que ele havia perdido) Amon se corrompeu em varios aspectos sim mas acho verdadeiramente que ele nunca desejou poder ele so queria o fim do que ele achava ser algo nocivo.
    Desculpa o textão mas gosto muito de comentar no seu blog que é um dos meus favoritos, forte abraço e continue com essa maravilha.

    Liked by 1 person

    1. Quanto ao Tiger concordo sim. O outro comentário apontou a mesma coisa, então acho que não me fiz entender mesmo, vou editar o texto e refrasear. Mas quando eu disse: “Então apesar de Tiger não ser um vilão, pelo contrário, ele é uma figura que desperta muita simpatia e heroísmo ao público”, era exatamente o que eu queria dizer. Que ele não foi vilanizado, diferente dos demais, mas suas ideias foram indiretamente. Pois toda semente que ele plantou foi colhida pelo mal.

      Dá para analisar muito do Tiger em como o Jimbei em muitos pontos chave tenta redimir os erros do tiger e desfazer seu legado. Ele quebrou a lei da doação de sangue que é uma lei que foi criada em memória a maneira como ele morreu, e foi um legado dele (que reforça nenhuma semente que ele plantou floresceu para algo que não fosse mais discriminação). Ele assumiu pra Nami a responsabilidade dele e dos piratas do Sol para as ações de Arlong com ela e se desculpou. E depois aliou a tripulação de Tiger ao governo mundial, inimigos jurados dos homens-peixe para trazer paz na ilha, mesmo que ao preço da submissão e manutenção do mercado de escravos em Sabaody.

      Tiger atacava navios escravistas, e afundava navios do governo, era um ataque direto à escravidão, o que Jimbei não pode fazer se quizer manter-e como Shichibukai, então ele não faz o que Tiger fazia. Mas é verdade que Tiger fazia muito mais bem e que não fez o mal. Mas o legado que ele deixou ao mundo por ter escolhido o caminho da luta deixou consequências mais malignas que benignas. Seja por distorções do que ele disse ou não, nenhum personagem em One Piece fez o bem inspirado em Tiger, e é esse seu arrependimento final, não ter sido capaz de passar algo bom pras próximas gerações, e acreditar que só pessoas como Koala poderão fazer o bem pela causa, pois ele não conseguiria. E ele chora de vergonha pensando nisso antes de morrer. É pelo Tiger ter citado Koala como “a esperança para não ter herdado o legado de ódio dele.” que eu fico com a pulga atrás da orelha se o Oda vai falar que ela entrou nos revolucionários só por causa dele. Mas isso entra no campo da teoria e não ponho a mão no fogo não. As vezes One Piece é muito mais complicado do que parece e as vezes muito mais simples.

      Então ele foi heroico pra caralho. Mas seus ideais não foram. Jinbei se aproximou muito mais de Otohime quando os dois morreram. O mais importante é notar que o Tiger é pretexto para todo uma natureza de ação que mente sobre ele para justificar discriminação contra humanos, e saber que a maioria das pessoas concordará se o nome dele for jogado na roda. Como a lei que proíbe a um homem peixe doar sangue a um humano para compensar os humanos se recusarem a doar sangue pro Tiger (o que é mentira, eles doaram e o Tiger rejeitou).

      Dito isso concordo que é a melhor dictomia Luther King/Malcolm X de todas que eu citei. A mais bem-feita e complexa, mas eu acho que ainda deu um tropeços em retratar o “Malcom X” da dupla como bom, mas sua ideologia como “inevitavelmente má.” é como eu leio a situação.

      Sobre o Amon: O lance do Amon, que em deixa cabreirasso, é que ele tinha o plano de trazer igualdade, e esse plano tinha dois pontos. O de sequestrar os dominadores e tirar sua dominação com o poder dele. E o de tomar o controle político da cidade. Da maneira como eu vejo, o objetivo de igualdade absoluta podia ser alcançado somente com o primeiro (se ninguém tiver dominação, não é possível manter a dominação sob ninguém, e aí não tem o que fazer, todos serão obrigados a se tratar como iguais pois serão literalmente iguais). Mas o segundo ponto parecia o mais importante e prioritário. Ele estava disposto a “deixar passar” dominadores que o ajudassem em outros planos, e o maior exemplo disso é quando ele oferece permitir que Lin seguisse sendo uma dominadora se ela entregasse aonde Korra se escondia. O próprio fato de que ele não estava disposto a perder a própria dominação e se igualar aos demais é um sinal da falsidade de seu discurso.

      Mas eu presumi mesmo o desejo pelo poder, principalmente porque todo o climax dele tentando tomar a cidade pra ele, pra mim não realmente o ajuda em sua causa, ele podia só tirar a dominação de todo mundo e manter a cidade como funcionava antes. É daí que veio isso.

      E não tem problema o texto ser grande não. Não vou dizer “quanto maior melhor.” porque tem um limite (teve um comentário no começo do ano lá que veio em uma dez páginas de uns 20 paragrafos… não precisa chegar nesse nível, hahaha), mas comentários grandes são bem-vindos. Estimular o debate é uma consequência positiva do blog, e os comentários são parte disso.

      Gostar

  4. por favor, algum dia se puder, joga doki doki literary club, o jogo em si não me chamou a atenção por causa de fatores de terror, mas, sim pelos fatores citados, a monika fez atos horríveis durante o jogo, mas, é interessante ver como os jogadores buscarem ver o lado dela, assim como o próprio jogo também mostra não a mostra em si como uma vilã, foi isso que me chamou a atenção do jogo em si.

    Liked by 1 person

  5. Primeiramente quero parabeniza-lo pelo texto,apesar desse assunto ser muito recorrente na mídia, você com certeza adicionou muito á bagagem das pessoas que leram esse post, estou escrevendo aqui porque em alguns pontos eu discordo do texto e gostaria de expor minha opinião, pra talvez mudar um pouco a sua opinião ou pelo menos adicionar um ponto, que talvez alguém não saiba.
    Eu quero defender o argumento de que o racismo reverso existe sim,e antes de começar o texto quero deixar uma coisa clara, racismo é um problema bem maior que racismo reverso,não ha duvidas sobre isso,mas não é porque o racismo é um problema de maior importância que o racismo reverso deixa de ser um problema, então eu tenho dois pontos pra tentar justificar isso.
    Primeiro ponto que eu quero trabalha é que talvez as pessoas generalizem demais esse tal racismo reverso e se (limitem a achar que esse tipo de problema só acontece com pessoas brancas heteras beneficiadas pelo sistema) , quando na pratica o que muitas vezes acontece é (pessoas que fazem parte de uma minoria tratando pessoas que não fazem parte da mesma minoria de forma segregativa,ou racista), fica meio subjetivo de que as pessoas só fazem isso com pessoas brancas,mas na pratica uma boa parte da galera acaba só conseguindo identificar quem é da sua “minoria” e o resto na visão de muita gente é o “INIMIGO”. Ae vem a um questionamento, se uma pessoa negra for racista com uma pessoa de origem árabe, isso é um crime? ela deve ser julgada e sofrer as Consequências por esse tipo de ato? bem pelo menos na minha opinião ,ela tinha sim que sofrer as Consequências,e esse é o ponto que torna racismo reverso em um problema,porque você não pode esperar que as pessoas já nasçam sabendo identificar quem é minoria e quem é o “opressor” por isso,pra mim racismo reverso tinha que ser considerado um problema também,pra evitar o tipo de pensamento (eu sou uma minoria e a sociedade me prejudica,então eu vou segregar todo mundo que não faz parte da minha cultura).Alem de que ao meu ponto de vista,racismo reverso,isso não uma solução pro problema de racismo, e sim uma sequela do problema de racismo,ou até mesmo uma Consequência do problema de racismo,eu vejo esse tipo de problema acontecer em alguns grupos feministas, onde um grupo de mulheres feministas negras segregam outras mulheres pelo fato delas não serem negras,ou pior,não serem negras o bastante, para lutar pela causa feminina com elas que eu citei é só um exemplo desse problema de “racismo reverso” que eu observo, eu super concordo que a mídia pode acabar manipulando a sociedade de forma sutil a fazer as pessoas acharem que atitudes pro ativistas por causas raciais são sinônimos de problema (o cara começa a lutar por uma causa “e da mesma forma que os produtores de padrinhos mágicos precisam em 22 minutos inventar uma desculpa pra qualquer desejo do Timmy sair pela culatra e o episodio terminar em nada acontece feijoada” o vilão perde a linha dentro da própria causa acaba sendo vilanizado) eu acho que diferente da ficção, as pessoas, hoje em dia ,não tem um real vilão pra combater na vida real,pelo menos não um individuo,salvo esse pessoal nazista , as pessoas tem uma ância de lutar por uma causa,mas a sociedade ainda não descobriu uma forma concreta e direta de resolver o racismo (pelo menos não de uma forma onde todos concordem),não como se (se todo mundo se juntar ,pegar tochas, e invadir um castelo e matar o racista supremo fosse resolver o problema do racismo) e exatamente pelo motivo das pessoas ainda hoje não verem uma solução direta pro racismo,algumas pessoas acabando tentando combater ele de forma equivocada,e o racismo reverso pra mim é uma dessas formas equivocadas,talvez toda essa manipulação da mídia seja pra que o racismo reverso aconteça, e pela existência dele o racismo ganhe uma sobre vida(demorar bem mais pra ser resolvido)e assim sendo o homem branco ainda tenha mais 1 seculo de farra, tirando minha parte que gosta de conspiração, o ponto que eu quero chegar é que o racismo reverso atrasa o resolvimento do problema de racismo,e só por esse simples motivo,já deveria ser considerado um problema,além da má execução por parte das pessoas,o que acaba tornando racismo reverso em racismo,então teoricamente apoiar o racismo reverso,é de certa forma apoiar (um tipo de racismo).
    E o segundo ponto que eu quero apontar é o seguinte,eu não quero que quem esteja lendo esse meu texto esqueça toda a historia sobre como o homem branco foi beneficiado as custas de minorias com o passar dos séculos mas eu quero que o leitor faça um exercício de imaginação,pegue e pense em um individuo como pessoa,pegue um único individuo e somente pense na historia da vida desse único individuo,pense agora que essa pessoa está sofrendo algum tipo de racismo(e quando eu digo racismo é, ela esta sendo tratada de forma diferente “de modo que ela não goste ou se ofenda” simplesmente pela sua etnia),eu acho que aquele individuo tem o direito de se sentir triste por isso,agora pense que ele é branco,e bem, pelo menos eu acho que mesmo se ele fosse branco,se ele sofresse racismo,ele tem o direito de ficar triste,humanos são seres emotivos e da mesma forma que uma pessoa pode ficar muito feliz por estar perto da família ou de amigos, ela pode ficar bem triste com as ações das pessoas, independente da raça,então mesmo que uma pessoa branca tenha sido beneficiada pelo sistema,se ela for vitima de racismo ou segregação, ela pode ficar triste por isso sim,é um direito dela,nós somos humanos,alem de que muitas vezes as pessoa nem tem ciência de o quão beneficiada ela são,e eu digo isso não só sobre pessoas brancas,eu digo isso pra qualquer pessoa,eu não acho que o fato de um individuo nascer branco,faz da vida dela mais feliz,que a de uma pessoa que faz parte de uma minoria,ela pode ser mais privilégiada,mas achar que ela é mais feliz simplesmente por ela ser beneficiada e a outra não,é o mesmo que achar que um cadeirante é (por ser cadeirante) menos feliz que uma pessoa saudável.
    Enfim,apesar de provavelmente eu não ter tido total exito em expor minha forma de pensar,fica ae um resumo que eu tentei fazer.Eu sinceramente não ligo muito pra algumas coisas raciais como piadas raciais apesar de também entender quem não goste,mas eu fico preocupado porque eu vejo muita gente achando que racismo reverso é meio que uma solução ,por ser uma forma de compensação ,e tipo,muita gente concorda com isso,aquela serie CARA GENTE BRANCA,expõe segregação e racismo reverso como meio que uma resposta ao racismo e isso é preocupante,não pela especulação de uma guerra racial,mas sim pelo atraso da solução do racismo que isso vai causar,é tipo tentar combater o câncer usando um mini-câncer que chamam de outra coisa.No final das contas,as pessoas precisam literalmente seguir esse meio termo dos camaradas Malcolm X e Martin Luther King ,eles precisam ser pro ativos como Malcolm X dizia e correr atras desses benefícios que só os brancos tem acesso,mas também precisam entender o que o King pregava,sobre amor e confraternização e não responder fogo com fogo.
    Desde já muito feliz com a pauta do site, com o post do site tmb,apesar dessa pequena divergência,o post do site ta sensacional,esse é meu blog favorito,e bem.. é isso.

    Liked by 1 person

    1. Estava falando com uns amigos sobre isso. Como tem poucos filmes até mostram um futuro utópico, em que formamos uma sociedade melhor. Eu só consigo pensar na série do Star Trek mesmo. Gostaria que fosse mais comum.

      Gostar

  6. Não, até porque não existe exemplos de revoluçionários na vida real que se tornaram tiranos sanguinários como Che Guevara, Fidel Castro, Stalin, etc…

    Gostar

  7. Olá,de novo,o Wapol seria um exemplo melhor que o Dofla,mas ainda acho que de todos os arcos o Luffy meio que recebe permissão das pessoas pra poder se meter,com exceção daquele socão suicida em um Dragão Celestial,não o caso do Dragão Celestial seria o melhor exemplo que o Wapol,se for procurar no que consiste o legado de TIger,é em relação a libertar escravos e não se rebaixar ao nível dos seus inimigos,algo que nem Arlong ou Hordy Jones fizeram,mas Jimbei e Coala,esta que se juntou até ao exército revolucionários para derrubar os algozes do Tiger,os Dragões Celestiais. Está certo que as revoluções infato juvenis de Star Wars e Jogos Vorazes tem uma idealização de revolução sem seus perigos,mas isso,na saga nova de Star Wars,está começando a ser explorado e mostrando mais os pontos cinzas e perigosos que o revolucionário pode se perder no caminho,como em Rogue One e o fato do novo Império ter nascido novamente por causa da incompetência da república,que conversa bem com a edição da Cívil War II:The Oarth do nick Spencer em temática. Sobre a situação do afro-americano na U.S.A. eu não posso falar com segurança,só sou um homem de narrativas,uma pessoa de sociologia seria mais adequada,mas é bem patente que lá tem um histórico bem violento que ainda persiste dentro do sistema,que se ninguém fizer nada,vai continuar se perpetuando,apenas dá liberdade não basta,todo o sistema e mentalidade devem ser mudadas,elegendo pessoas que façam essa mudança dentro de um sistema omisso ou até mesmo gente que tente preservar esse sistema pra continuar moer pessoas. Toda essa historia do filme do Pantera deve se basear na construção que Jonatha Hickman fez com o personagem na sua fase nos Novos Vingadores. No vol. Um Mundo Perfeito,o Pantera questiona aos seus ancestrais a ética de destruir um outro planeta para salvar a sua terra,todos os panteras não pestanejaram em dizer que deve sim destruir esses mundos,mesmo neles tendo inocentes,pra proteger sua terra e o pai de Tchala fala,como exemplo,que via a situação de necessidade de outros africanos de outras nações precisando de ajuda e ele não levantou um único dedo pra ajudá-los,mesmo que isso doesse no seu coração,mas proteger Wakanda vinha em primeiro lugar. Pra mim,Killmonger está mais como o pecado de Wakanda omissa que abandonou uma criança a sua própria sorte para preservar seu status quo.

    Gostar

  8. Cara, eu leio todos os seus textos e esse é mais uma vez brilhante. Infelizmente não terei tempo agora para contrapor as ideias, mas quero dizer que continue assim. Esse site é talvez a leitura mais inteligente que eu faça hoje na internet, sempre me fazendo quebrar a cabeça, rs.
    Black Panther para mim é um filme fantástico. Li alguns textos a respeito, mas nenhum com uma abordagem tão profunda e fora do lugar comum como este.
    Tenho algumas inquietações e pensamentos, espero poder voltar a esse espaço para compartilhar.
    No mais, prossiga sempre com suas análises. Eu e um amigo meu ansiamos cada segundo para ler suas postagens, sempre profundas e precisas.
    Um abraço de Salvador-Bahia.

    Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s