O que significa ser um vilão em The Venture Bros.

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Venture Bros atualmente empata com Animaniacs pelo título de minha série animada favorita de todos os tempos, e genuinamente não sou capaz de escolher uma das duas, pelo motivo de que são diferentes demais entre si e nem é possível comparar de verdade para desempatar de qual eu gosto mais, então ambas dividem a coroa. No passado falei aqui um pouco sobre Animaniacs, e agora falarei de Venture Bros.

Venture Bros é uma série animada do [Adult Swim] que estreou em 2003, sendo a série do [Adult Swim] a mais tempo no ar, 15 anos. Nesses 15 anos, a série estreou sete temporadas somente, com as temporadas recentes tendo durado oito episódios cada. Ou seja, uma série que apesar do tempo longo no ar, produz menos episódios do que se esperaria, e o motivo disso, é que a série é um produto pensado inteiramente por duas pessoas. Jackson Publick e Doc Hammer, trabalham sozinhos no roteiro e na direção de cada episódio da série, sem usar uma equipe de roteiristas nem nada semelhante e só começam a trabalhar de verdade em uma temporada nova, quando eles estão convencidos de que o material é bom, isso tudo faz o processo criativo da produção ser muito lento, porém muito perfeccionista.

Genuinamente perfeccionista. E é impressionante, pois exceto em qualidade de animação, que obviamente não estava no seu auge na primeira temporada, e dos episódios ainda não serem feitos em widescreen, pois era outra televisão, apesar disso, a série desde 2003 soa como se fosse uma série do presente. Genuína vanguarda, eles tinham uma continuidade sólida quando animação adulta com continuidade ainda não era a norma. Seu protagonista usava sua grosseria, antipatia, e características típicas de um protagonista-cuzão-de-série-de-comédia (como vimos em uma análise de Bojack) para mascarar uma depressão severa e mostrar a audiência problemas psicológicos reais da vida moderna, tal como Bojack Horseman e Rick and Morty fazem. Eu não estou dizendo que Venture Bros preparou o terreno para séries como Rick and Morty, Bojack Horseman ou Archer, pois eu não acho que foi um sucesso o suficiente para preparar esse terreno. O que eu acho é que seus criadores previram os rumos que a ficção tomaria em uma década, e já se anteciparam, e se em 2003 o desenho era diferente de tudo que estava rolando na animação adulta, dando a ele rapidamente o título de “clássico cult”, hoje ele é um exemplo perfeito da norma do que é um bom desenho para adultos. Acho que daí vem a minha frustração, para Venture Bros não ter migrado de desenho cult para mainstream nos olhos do público recentemente, pois não perde em nada pra Rick and Morty.

É sério, se a estreia de uma nova temporada dessa série gerasse 1/10 do hype de seus contemporâneos eu ficaria tão feliz.

Enfim. O meu canal do Youtube favorito atualmente, o Wisecrack, que é essencialmente tudo o que eu queria ser, fez recentemente um vídeo analisando Rick and Morty, Archer e Gary and His Demons, discutindo como essas três séries atuais, e seus estilos de humor, evidenciam uma tendência no humor atual, a de pegar nossos escapismos do passado, e burocratizá-los com as frustrações da realidade atual, nos mostrando que sequer o nosso escapismo superou a merda que é uma vida com empregos e burocracia, e que não importa se somos super-espiões ou super-cientistas, estamos vulneráveis ao sistema. Por isso, nosso escapismo se torna frustração, e a frustração de nossa falta de poder é hilária, derivando de boa comédia. Pois bem, esse é outro ponto que Venture Bros trabalha desde 2003. Mas enquanto Rick and Morty desglamorizou a ficção científica, Archer desglamorizou a espionagem do James Bond e Gary and his Demons desglamorizou o caçadores de mitos sobrenaturais, Venture Bros desglamorizou um assunto muito interessante que foi a vilania.

“Você chama isso de exército?”

Enfim, paremos de comparar com os desenhos geniais da atualidade e falemos sobre Venture Bros. A série é essencialmente uma paródia de todo o escapismo que existiu nos anos 60, mais especificamente na infância dos criadores Jackson Publick e Doc Hammer. A série parodia em primeiro plano o desenho de ação Jonny Quest, mas uma visão minimamente atenciosa nota que tudo o que formou a juventude deles é parte da paródia: Super-heróis, ficção-científica, astros do rock, livros de aventura, desenhos da Hanna-Barbera, quadrinhos, de referências mainstream como a presença de uma família que é muito obviamente o Fantastic Four, até referências a Fantomas que são só pra quem conhece. Não tem um limite exato para até onde podem ir as referências e a paródia, mas tudo se resume ao mesmo cerne. O romantismo não existe, toda a epicidade desse mundo foi drenada pelo sistema, e eles são só adultos desfuncionais e depressivos tentando lidar com a vida, tanto os aventureiros, quanto os heróis, quanto os cientistas quanto os rockstars. E a maior prova de que esse romantismo fracassou é o fato de que o escapismo ainda existe.

Qual a maior prova do fracasso de um homem que tem a inteligência e os poderes de Reed Richards em causar um impacto no mundo, do que as crianças que coexistem com ele preferirem ler o gibi do Fantastic Four a ler a biografia dele? Em um mundo em que toda a super-ciência e os super-poderes existem, gibis e televisão seguem mais interessantes que a realidade, pois a realidade burocratizou todo o apelo dessas pessoas. E em ninguém isso bateu mais do que no mundo da super-vilania.

Um dos irmãos Venture do título: Hank Venture, que todo dia lida com vilões e super-poderes, mas ainda usa gibis da Marvel como fonte de escapismo. De certa forma é o oposto de Watchmen que explicita como a existência de super-heróis tornou o gênero inexistente nas HQs, pois não fazia mais a função escapista. Aqui o romantismo que a Marvel dá aos seus heróis é reforçado justamente porque um time idêntico ao Fantastic Four existe.

Em Venture Bros os vilões são organizados em um sindicato chamado Guild of Calamitous Intents. Uma organização que essencialmente é quem protege os vilões das leis que protegem o homem comum e dá a eles a garantia de que eles não passarão pelos procedimentos como julgamento ou cadeia por suas ações. Embora alguns acabem caindo na cadeia mesmo assim, mas enfim, a Guilda protege os vilões das ações dos agentes da lei o máximo que conseguem, e administram a parte burocrática, ajudando-os a conseguirem subordinados como capangas e braços-direitos fazendo o meio-de-campo entre grandes vilões, e gente que está iniciando na carreira e precisa começar como capanga de alguém. Em troca a guilda dá aos vilões uma série de restrições sobre quais limites eles não podem cruzar ao praticar sua vilania.

Escritas em um literal livro que os vilões leem para verificar se estão agindo corretamente.

Vilões registrados na guilda não podem matar seus arqui-inimigos, não podem usar armas de fogo, somente armas estilizadas, não podem abusar de tortura nem torturar quem está previamente ferido e devem permitir que seus arqui-inimigos cuidem da própria saúde mental, não atacando-os em dias em que precisem ir a psicólogos, por exemplo. Ou seja, dar aos meios para que atormentem seus arqui-inimigos, mas nunca os meios para que os destruam. A Guilda na prática é menos um serviço para ajudar um vilão a destruir seus inimigos, e mais um serviço para ajudar a manter duas pessoas em um eterno jogo de gato-e-rato.

Os heróis não podem escolher não serem alvo de arqui-inimigos, eles não tem voz quanto a isso, mas uma vez sendo alvos, eles podem entrar em contato com a Guilda para fazer uma reclamação oficial de seus membros. Um herói que deseje a relação gato-e-rato para si pode contatar a Guilda e pedir para ter um vilão designado para si. Aliás, os heróis são figuras extremamente passivas, e diferente dos vilões que abraçaram o título de vilões, os heróis não realmente escolheram ser heróis. Eles são só cientistas, exploradores e combatentes do crime, que não exatamente se organizaram, não existe uma contraparte heroica da Guilda, nem ninguém para guiá-los para o bem.

Billy passou 4 temporadas sem um arqui-inimigo e nunca procurou por um. Até que um dia Augustus St. Cloud aparece para ser o arqui-inimigo dele, e agora Billy tem que lidar.

Os heróis nesse sentido existem meio que como consequência direta dos vilões existirem. Eles precisam atacar alguém pra justificar seu título de vilão, e os atacados são pessoas que se encaixam em arquétipos heroicos, cientistas, aventureiros e combatentes do crime. Mas tudo tem sue centro no desejo de vilões serem vilões. Os vilões recebem tanto apoio para poderem ser vilões e abraçarem esse título e esse estilo de vida, que existe uma Mary Poppins personificada no braço-direito do ex-presidente Nixon, que entra na vida de um vilão decadente só para ensiná-lo a ser tão vilanesco quanto seu potencial exige.

Mas falemos sobre a Guilda. O importante da Guilda, é que apesar de facilitar a vilania, mais do que limitar, ela tornou a vilania impessoal. Os vilões não tem nada contra seus heróis, eles somente foram designados aquele herói pra praticar vilania. A Guilda transformou a vilania em um trabalho, e portanto tornou a vilania chata. E se um homem achou que colocando uma roupa colante espalhafatosa e botando fogo nas coisas ele estaria se desvinculando de sua realidade, a Guilda vêm e o obriga a bater o cartão. Mas nada é mais grave do que não ter literalmente nada contra a pessoa que você está designado a atacar.

Por exemplo o Dr. Dugong, que literalmente ninguém tem absolutamente nada contra. Ele acaba morto pelo Monarca que descontou nele a frustração de ter que ser arqui-inimigo de um cara matético.

O que é o conflito central do vilão da série: O Monarca. O Monarca entrou no mundo da vilania por um único motivo no mundo. Odiar o protagonista da série, Rusty Venture. Ele o odeia por motivos misteriosos que veem desde muitas décadas antes da série começar, quando os dois fizeram faculdade juntos. E nada motiva o Monarca a acordar todo dia e encarar a vida, do que seu ódio latejante por Venture. Porém, como membro da Guilda, ele não está livre para meramente sair batendo no Dr e em seus filhos, existem normas que ele deve seguir, e procedimentos corretos e burocráticos, que o impedem de ser o melhor vilão que ele pode ser.

O que traz em destaque uma das coisas mais fascinantes da série. O quão realmente vilanesco o Monarca é. Digo, ele ama sua esposa e tem muita humanização nele, mas ele genuinamente vive e respira seu ódio e sua maldade. Ele pensa em planos malignos de vão desde mesquinhez (“vamos cagar na piscina dele”) a assassinato como solução para todos seus problemas (por exemplo, matar um taxista para não ter que pagá-lo). O Monarca é genuinamente cruel e frio e egoísta. E não hesita em tentar destruir com força bruta qualquer um que se coloque a sua frente, embora muitas vezes ele não tenha o poder para destruir quem se coloque a sua frente.

Em contraste, muitos dos demais vilões profissionais da série, não dividem a vilania nata do Monarca. Sua esposa, Sheila, e seu capanga principal Capanga nº21 em especial, quando estão fora de serviço são pessoas ótimas. 21 em particular é um grande amigo dos irmãos Venture. Mas falemos em especial de Sheila, ou Dr. Mrs the Monarch como é seu codinome. Ela ama o Monarca apesar de sua obsessão com Venture, e ao longo do relacionamento por anos aprendeu a apoiá-lo em sua vilania e em seu desejo por matar Venture, mas ela em si não tem nada contra ele ou contra ninguém, ela se tornou uma vilã saindo da faculdade, seduzida pelo seu professor que era um vilão profissional e a colocou nesse mundo, onde ela conheceu o Monarca. Mas pessoalmente, ela não faz nenhuma maldade quando não está trabalhando. Única hostilidade que ela apresentou contra Venture, foi antes dele ser torturado pelo Monarca, ela ameaçou matá-lo caso ele escape da tortura, ou faça qualquer coisa que pudesse impedir seu marido de desfrutar da tortura. O amor dela pelo Monarca faz dela sua cúmplice, e faz com que ela o apoie em todas as suas atrocidades, mas agindo independentemente, ela é uma mulher comum que enche o saco de super-heróis pra viver.

-Você continua matando cada herói que te dão e eu continuo tendo que me desculpar para a Guilda. -Ah pronto, agora você está tentando fazer eu ser o vilão. -Sim! Estou tentando fazer você ser o vilão! É o que nós somos! Somos vilões profissionais. -Isso, me humilhe na frente dos capangas.
-Olha minha vida. Tem um olho mágico vivendo na minha casa e meu ex-arqui-inimigo é meu atual guarda-costas. -É, parece que conseguimos! Exatamente a vida que nossos pais desejaram para nós, garantido. -Pois é. O pior é que meu pai ficaria orgulhoso. Mas enfim, você realmente não viu os garotos? -Não… já tentou ligar pra eles?

Agora, o vilão que a seduziu e a colocou no mundo do crime é Phantom Limb. E o que se pode dizer sobre ele? Ele sequer tem arqui-inimigos, sua vilania profissional envolve comercializar obras de arte roubadas. Ele apesar de ter o poder de literalmente matar um homem com o toque, raramente se envolve em conflitos com heróis. Seu conflito maior é com o Monarca, que casou com sua ex, mas é um colega vilão. E com todos na Guilda hierarquicamente superiores a ele, pois ele quer poder. Apesar de ser um vilão na série, Phantom Limb raramente representa uma ameaça aos heróis, somente aos vilões. Ele tenta destruir o Monarca, e as altas lideranças da Guilda e ganhar autoridade entre os vilões, mas somente um episódio mostra ele genuinamente atacando uma pessoa que não tem nada a ver (com a motivação para se gabar para a namorada). Sua maldade é essencialmente enriquecer com arte roubada.

-Mas e a Mona Lisa? Escuta, a Mona Lisa não é o melhor quadro do mundo, é meramente o mais famoso. E ele ficou famoso pois foi roubado. E esse aqui é roubado!

Outro vilão recorrente na série é o Red Death, um homem que parece ser literalmente a morte, com seu rosto sendo uma caveira, usando um manto e uma foice como arma. Red Death é uma lenda em relação a sua vilania, está na ativa faz décadas, é o mais competente e assustador vilão na ativa, eficácia comprovada contra seus arqui-inimigos, e envolvido em algumas das maiores catástrofes da humanidade. Red Death entrou no ramo da vilania para ter uma válvula de escape para a sua maldade, bater cartão, sanar todo seu sadismo e desejo assassino, bater o cartão de novo e estar livre para ser uma boa pessoa.

-Espera, você sabe quem eu sou? – Ah sim, grande fã do seu trabalho. Aquela marionete que você fez do Rusty Venture, maravilhoso. -Puxa, estou encabulado, Red Death meu trabalho. -Ah, é meu trabalho saber. Mas não estamos no meu escritório agora, e esse é o segredo, você tem que separar seu trabalho da sua vida. É um caminho sem volta depois que você começa a viver seu personagem. Começam as obsessões, as trevas. Um homem pode fazer coisas terríveis depois de perder o caminho. Coisas terríveis.

A persona que ele é quando está trabalhando é o oposto do cidadão afável, educado, bondoso e do pai amoroso que ele é quando está de folga. Ele se gaba de separar sua vida de seu trabalho, e recomenda ao Monarca que ele aprenda a fazer o mesmo sob o risco de jamais ser genuinamente feliz, deixando sua obsessão dominá-lo. A verdade é que Red Death já possuiu no passado um ódio mortal por um arqui-inimigo, de maneira semelhante ao que o Monarca sente, porém ele viu que não era saudável para ele seguir praticando uma vilania tão passional que consumia sua vida, então ele um dia liberou tudo em cima de seu arqui-inimigo e o matou, de desde então sua vilania se tornou um instrumento para liberar stress e seu foco pessoal passou a ser a vida familiar.

Red Death se voluntaria para matar os reféns que o Capanga 21 capturou, mas não tem coragem de matar, para poder saciar seu sadismo e poder encerrar o dia de trabalho, e também para ajudar 21 a concluir seus objetivos sem sujar a mão.

Vamos falar de outro vilão da série, já estou acabando, são só mais dois exemplos e já chego em meu ponto. Monstroso é um vilão-advogado, especializado em derrotar seus adversários usando brechas na lei para jamais cometer um crime sequer. Se do lado dos heróis ele é um advogado poderoso que não pode ser associado à nenhuma associação criminosa, na Guilda ele é um traidor ardiloso, que deixa uma faca nas costas de todo vilão que pede a ajuda dele, e a Guilda incentiva as traições.

Por último temos o Sgt. Hatred, um dos personagens mais afáveis e simpáticos da série, que também é um pedófilo. Mesmo sendo um vilão, Hatred se envergonha e luta constantemente contra seus atos hediondos, inclusive tomando uma medicação pesada que controla seus impulsos e também causa alterações físicas nele. Hatred é gentil, educado e vai sempre um passo além para deixar todos confortáveis, isso é, exceto o Monarca que ele odeia. E sua pedofilia, que poderíamos pensar, é o que faz ele apesar de tudo se provar como um vilão, é na verdade um defeito que ele herdou do lado dos heróis. Seus impulsos sexuais são efeito da época em que ele serviu do lado dos heróis, e a O.S.I (o equivalente desse universo a S.H.I.E.L.D) usou ele como cobaia para o Soro do Super-Soldado, que o transformou em um criminoso sexual, e está implícito que ele se tornou um vilão como uma maneira de dar as costas ao time de heróis que o transformou em uma ameaça para crianças.

-Não tem motivo para essa inimizade ser desprazerosa para nós.
Hatred se drogando em uma tentativa de deixar de ser uma ameaça para a sociedade.

A vergonha, culpa, tentativas de controle e constante auto-punição por seus atos que Hatred comete é notoriamente contrastada pelo outro personagem pedófilo da série, Captain Sunshine, um super-herói que constantemente adota crianças órfãs como “filhos” para treiná-los para serem seus ajudantes, e depois abandona eles depois que eles crescem e os substituí por outras crianças, deixando uma legião de adolescentes com feridas emocionais graves abandonados, e literalmente ninguém na comunidade heroica faz nada a respeito, pois ele é um herói, e heróis tem carta branca para serem escrotos.

Outro herói que comete sexo com garotos menores de idade que ele comprou em áreas no mundo em que dá pra fazer isso e se safar: Coronel Gentleman, Membro do Team Venture original, e também um misógino, que acha que “amor não tem idade” e bate em mulheres. Outro membro do Team Venture original, o Action Man, um completo psicopata, que de tanto matar violentamente os inimigos de Jonas Venture, foi o motivador para a Guilda estabelecer um sistema de equivalência, em que um vilão só poderia ser arqui-inimigo de um herói se seus poderes fossem no mesmo nível.

Venture Bros é uma série em que os heróis são notoriamente mais asquerosos que os vilões em sua atitude. Jonas Venture é um dos maiores arrombados da série inteira, e seu legado é o de “excelente aventureiro.” Brock Samson é disparado o personagem que mais matou gente ao longo da série inteira, mas como eram todos “capangas de vilão” é visto como aceitável. A Crusaders Action League, o equivalente aos Avengers nesse mundo, não só negocia diretamente com a Mafia, como cobram uma “assinatura” dos civis para o civil poder ser salvo, ignorando e negligenciando qualquer pessoa que não assine o serviço deles. Por último, Professor Impossible é um marido abusivo e não tem medo de torturar a própria família para o avanço de suas pesquisas, que eventualmente se torna oficialmente um vilão, apesar de sua inspiração primária ser o Reed Richards, herói da Marvel.

Professor Impossible ameaçando matar uma criança.

Em um mundo em que heróis são antipáticos, cruéis, e dividem os mesmos vícios de personalidade que os vilões, e cometem o mesmo tipo de crimes, soa que a diferença entre heroísmo e vilania nesse mundo é uma mera questão de seguir o que o coração manda. Mas no caso atentando a uma diferença entre quais os fins e quais os meios.

Enquanto os heróis cometem qualquer atrocidade necessária para seus fins que no caso de Jonas ou Impossible seria a ciência. Ou no de Brock Samson a proteção das pessoas. Como eles estão focados em um fim, os meios recebem uma enorme vista grossa.

Mas para os vilões os meios são o importante. Como esse vídeo aqui, que aliás é muito bom e me fez repensar muito sobre Venture Bros assistindo, aponta bem. Ser um vilão é uma questão de identidade, o pelo que você faz é menos importante do que o “como você faz”, os fins são um mero pretexto pros meios serem aplicados. Ser vilão é atacar um homem contra quem você não tem nada contra, só pelo prazer de no processo usar uma fantasia elaborada, juntar capangas e tunar uma super-base.

Os membros da Guilda tem muito mais interesse em administrar o poder interno deles, passar outro vilão para trás, roubar o arqui-inimigo do colega e ascender socialmente na organização, do que praticar o mal propriamente dito, e quase todos os rancores que os vilões tem é entre si.

Tornando tudo uma fantasia de poder, pessoas que prezam por um estilo de vida moldado em torno de um jogo eterno de gato-e-rato, e que não tem interesse real na vilania, mas esse é o lado em que é possível ser uma figura ativa no jogo.

A vilania tanto se tornou uma performance, algo sem um real objetivo que você faz pela excitação de fazer, que em Venture Bros a maioria dos artistas são vilões. O principal deles sendo David Bowie (que tecnicamente não é o David Bowie de verdade, mas tecnicamente é ele quem gravou Diamond Dogs, e era amigão do original, então está valendo). Além de Bowie, Buddy Holly sob a alcunha de Red Mantle, é um personagem recorrente. Além de um flashback ter mostrado que Freddy Mercury foi um vilão nos anos 80 chamado Mr. Fahrenheit. Mesmo Andy Warhol é um super-vilão na série. Na realidade, é dito que a Guilda foi formada inicialmente por um único vilão e uma cambada de rockstars da época. E isso faz sentido, pois repito, a vilania é uma performance. É movida a criatividade e estética, muito mais do que é movida à maldade.

O que é um enorme desperdício de boa infraestrutura para vilania. Uma organização inteira que impede que o Joker vá preso, o ajuda a conseguir capangas, ajuda com o financiamento de seus projetos, armas, mas tudo isso sem ter ninguém envolvido que genuinamente se importe com o Batman para poder agir feito o Joker.

-Meu arqui-inimigo morreu faz seis meses e vocês ainda não me designaram um arqui-inimigo novo.

E nesse ponto que o Monarca brilha, por ser o único ponto fora da curva, praticamente todo vilão que eu citei aqui teve um antagonismo com o Monarca em determinado ponto, e o motivo disso é o Monarca ter tanta maldade e vilania genuína dentro dele, que ele não tem absolutamente nada em comum com os vilões profissionais. O que explica um de seus grandes conflitos ser o quanto ele não de dá bem na companhia de vilões, e sente um deslocado em festas da Guilda, ele não é um deles. O único motivo pelo qual ele não sai da Guilda, é porque a sua esposa é um membro importante, e isso é ótimo, pois mantém o conflito entre ele e a Guilda forte e ativo.

Aproveitemos essa imagem do Monarca desconfortável em uma festa de vilões para apreciar que Donald Trump é um dos vilões presentes na festa, e isso antes dele ser o presidente.

E o principal, torna sua inimizade com Rusty Venture ainda mais forte. Pois se o Monarca não comprou vilania ridícula que a Guilda quis vendê-lo e não gosta desse mundo, Rusty faz o mesmo com os heróis. Rusty é tão traumatizado pela má experiência que ele teve com seu pai, que ele não só despreza cada aspecto da vida de aventureiro, como ele já viu merda o suficiente para não achar nada impressionante. A única coisa que Rusty deseja é capitalizar todos os seus traumas e ganhar dinheiro, pois ele sente que depois de todas as merdas que ele passou na infância, o universo deve a ele uma vida de fortuna e conforto. Ele não tem um pingo de respeito pelos heróis, pelos aventureiros, ou por uma vida de constante antagonismo, ou mesmo pela ciência. Tal como o Monarca não tem respeito pelo mundo da vilania profissional. Eles são a antítese de tudo o que seus mundos esperam deles, e por isso são adversários fascinantes, pois eles têm mais em comum do que são capazes de admitir um para o outro.

-Nós somos decadentes, perdedores! Você sabia que meu melhor capanga me abandonou? -Sabia, porque ele passa o dia na minha propriedade, o que nunca aconteceria se o Brock ainda estivesse comigo. -Você devia ficar feliz de não ter mais alguém roubando seu holofote. -Ah, é porque você não conheceu meu irmão. -Ouvi falar que ele está se dando bem. Ficou sabendo da minha esposa? Está sendo cogitada ao Conselho dos 13, então é isso, minha ex-segunda-em-comando vai se tornar a minha chefe. -Isso não é nada, meu novo guarda-costas é meu antigo arqui-inimigo. -É, isso é zoado. Bem, acho que devíamos ir pra casa agora. Pra você ainda é uma casa? Ou virou uma caixa cheia de memórias? -Pois é, estou indo. Tem como descolar uma carona? -Não dá, vou ter que mentir pra esposa que você escapou. -Entendo, então eu vou… -É, vai lá, e quebra umas coisas no caminho, por favor. -Cara, eu prefiro ser torturado a ter essas conversas. Isso é o inferno.

Venture Bros tem seu título designado dos dois filhos de Rusty: Hank e Dean Venture. Mas o verdadeiro protagonista é Rusty. Mas apesar disso, o pilar que sustenta a série é o Monarca. Que temporada a temporada vai migrando entre subidas e quedas na sua vida pessoal e profissional, enquanto os protagonistas empurram a vida com a barriga. De todos os personagens que são divertidos de acompanhar, o Monarca é dentre os principais aquele que nos dá vontade de torcer, de desejar que ele supere obstáculos, e triunfe e realize seus sonhos. Não porque odiamos Venture, mas porque ele é o que tem um arco pessoal baseado em seu esforço sendo confrontado por um sistema maior do que ele.

E eu torço sinceramente, pra que um dia ele chegue lá.

E esse é o segredo da série, explorar a relação heróis-vilões, colocando todo o foco, o trabalho e a complexidade nos vilões. Tanto no fato deles terem a própria organização, de termos muito mais personagens vilões que heróis, e como eles se contrastam, mas no da série dentre todos seus protagonistas, focar o maior arco de desenvolvimento no núcleo dos vilões. Monarca, Capanga nº21 e Dr. Mrs the Monarch não são o protagonista nem os personagens-título, mas são o coração da série.

Sobre o autor

Izzombie

Sou um cara chato que não consegue ver um filme sossegado sem querer interpretar tudo e ficar encontrando simbolismos e mensagens. Gosto de questionar a suposta linha que separa arte de filmes comerciais, e no meu tempo livre pesquiso sobre a história da animação.

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Sou um cara chato que não consegue ver um filme sossegado sem querer interpretar tudo e ficar encontrando simbolismos e mensagens. Gosto de questionar a suposta linha que separa arte de filmes comerciais, e no meu tempo livre pesquiso sobre a história da animação.

Alertas

  • – Todos os posts desse blog contém SPOILERS de seus respectivos assuntos, sem exceção. Leia com medo de perder toda a experiência.
  • – Todos os textos desse blog contém palavras de baixo calão, independente da obra analisada ser ou não ao público infantil. Mesmo ao analisar uma obra pra crianças a analise ainda é destinada para adultos e pode tocar e temas como sexo e violência.

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