Uma resumida história dos personagens LGBTs em desenhos animados infantis.

Sabem, os desenhos animados americanos são uma mídia que busca constante inovação e raramente, exceto em casos onde a Hannah-Barbera – hoje extinta – se envolveu, buscou pela estagnação. Pelo contrário, os desenhos animados estão fazendo inovações significativas o tempo todo.

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O mercado de animação num geral segue os mesmos princípios de South Park “parar de tentar ir pra territórios onde ainda não fomos? Mesmo depois de 20 anos de sucesso? Jamais, nem diante do apocalipse.”

Se nas décadas de 1950 e 1960 se firmaram as trucagens para minimizar o orçamento e a transição dos desenhos animados para a televisão. E os anos 1970 inseriram além de desenhos cômicos, desenhos de ação no catálogo da Hanna-Barbera, com protagonistas humanos e aventura. Nos anos 1980 os desenhos animados descobriram que o capitalismo era seu melhor amigo, e nos anos 1990 eles descobriram que seu melhor amigo na verdade era a arte e o conteúdo autoral. Nos anos 2000 inovações tecnológicas como o Flash e a influência dos animes alteraram os rumos, e agora, nós estamos no sexto ano dos anos 2010, e o que mudou na animação dessa década, o momento atual em que vivemos?

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Além de toda uma gama de maturidade e reflexões, que só estão começando a ser trazidas pra animação nessa década, destaco o fato notável de que agora é de boa ser gay e ser um personagem de desenho infantil ao mesmo tempo.

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Relativamente de boa, mas vamos chegar lá.

Afinal, gays são uma das grandes proibições que fazemos em todas as obras infantis. Como garantir que é apropriado para crianças? Não podem ter violência pesada (leia-se: sangue), não pode ter conteúdo sexual, não pode ter palavrão, não pode ter Hitler e não pode ter ninguém LGBT. É isso que significa deixar um ambiente apropriado pra crianças pelo senso-comum, não é mesmo? Mas regras foram feitas para ser quebradas, e algumas pro bem.

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Já quebramos a regra do Hitler nos anos 90, afinal de contas.

Então, tudo mudou nesse fatídico dia. O ano era 2012, o mês era agosto e o dia era 17. Estreou esse filme nos cinemas. Era uma animação com zumbis, falava muito sobre o poder do preconceito, tinha muita piada de sexo, o que mesmo sendo uma animação pra criança, ninguém ligou, pois ajuda os pais a darem risada, e no final do filme, literalmente, na penúltima cena, um dos personagens principais, um jogador de futebol americano gostosão, comenta casualmente sobre seu namorado e bum. Oficialmente colocaram o primeiro personagem comentando ser gay em um desenho infantil ocidental.

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“Você vai adorar meu namorado, ele é louco por filme de menininha.”

Um dialogozinho discreto, mas sem precedentes na história do cinema infantil.

O efeito disso para a produção americana foi semelhante ao efeito de quando o Irmão do Jorel esperou a Diretora Lola contar até 3. Todo mundo percebeu que nada aconteceu. Digo, muita galera reagiu, positivamente e negativamente, o fato não passou batido, mas o fato é que o filme não chegou nem perto de ser derrubado ou contraindicado a crianças por conta disso, pelo contrário, passa no CineCartoon até hoje, ou seja, todo roteirista e produtor viu o exato impacto que o personagem ser gay teve na aceitação do filme, e na popularidade do filme entre crianças: nenhum.

Pois bem, desde que o Mickey assobiou enquanto girava o timão do barquinho dele, até Mitch Downe mencionar ter um namorado, foi uma longa caminhada. Pois acreditem, o roteirista de ParaNorman, Chris Butler não foi o primeiro ser humano no mundo que estava escrevendo um desenho animado destinado a crianças, e teve vontade de colocar um personagem gay. Ele só foi o primeiro a de fato fazer isso, e quebrar o tabu diretamente ao invés de só contorná-lo.

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O que significa que agora ninguém tem que seguir o caminho pré-determinado.

Pois bem, esse post é para falar um pouco sobre essa caminhada que a animação ocidental deu até o tabu do personagem gay ser enfim diretamente quebrado.

Alertando que esse post não é sobre representatividade LGBT na mídia. Eu acho muito importante ter representatividade, principalmente em obras infantis, mas pra opinar entre qual a diferença entre representatividade, mídia explorando demandas de minorias com tokens que não agregam nada e onde os personagens LGBTs com conotações negativas entram nessa história e quanta conotação negativa tem um personagem gay girar sua personalidade em torno de ser gay e em nada mais, entre outros fatores eu precisaria de conhecimento que eu não tenho e precisaria ter feito uma pesquisa que eu não fiz. Então exemplos de inclusão de personagens gays que podem ter gerado muita polêmica na comunidade LGBT pela maneira como foram retratados serão igualmente listados como exemplo do tabu sendo quebrado.

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Rick Sanchez, um personagem moralmente bem questionável, mas também um pansexual e notável por estar na vanguarda de personagens não-héteros a serem os protagonistas do próprio desenho (muito embora ele não seja o primeiro, se não me engano deve ser o terceiro ou o quarto).

O fato é que gays eram um assunto proibido em geral, não é só representações positivas de gays que não podem ser mostradas pras crianças, as representações não-positivas igualmente não podiam entrar na animação pois o assunto inteiro só realmente foi abordado de frente faz 4 anos. Afinal o assunto era um tabu nível Hitler. Hoje ainda é um Tabu, mas agora já está mais para um Tabu nível “colocar uma cena com uma arma de fogo”.

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Se bem que ambos são negociáveis. É conhecida a história de Avengers: Earth’s Mightiest Heroes, em que os produtores deram aos roteiristas duas opções, ou o desenho teria armas de fogo ou teriam nazistas, na hora de recontar a origem do Captain America, mas os dois simultaneamente era demais… no final o desenho escolheu as armas de fogo.

Afinal se tem uma coisa que um artista odeia é uma cartilha de coisas que ele é proibido de colocar nas suas obras, e roteiristas não são exceção, por isso desde que eles ganharam mais poder no ramo existiram tentativas de quebrar esse não. Não só esse, todos os outros não que colocam na animação também, mas esse é um caso que vale uma análise própria. Mas iIsso não significa que o roteirista é um herói da causa LGBT (embora eu não duvide que alguns se vejam assim), só um artista querendo colocar o que ele quiser em suas obras.

Pois bem. Tudo começou em 1991….

Sim, eu falei do Mickey no barquinho e deve ter dado a impressão de que eu ia lá atrás buscar o primeiro personagem gay na década de 1930, mas não. Nessa época não tínhamos nenhum personagem gay na animação ainda. Era a década de 1930, esperavam o quê?

O que não impedia a comunidade gay de adotar seus próprios ícones LGBTs por parte dos personagens dessa época e das décadas posteriores, claro, os quais destaco o grande Bugs Bunny (Pernalonga), rei do crossdressing, drag queen fabulosa e beijador de caçadores. Snagglepuss (o Leão da Montanha), o grande Gazoo dos Flinstones, a Velma do Scooby Doo. Patty e Marcie dos Peanuts, o príncipe Adam em He-Man, Entre outros. Muitos desses receberam, em resposta, um esforço imenso dos criadores pra perderem o status de ícone gay, como se esse status fosse negativo.

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Pessoalmente sou um grande fã de Peppermint Patty e Marcie como um casal.

E esse é o sinal do Tabu, não basta o personagem não ter sido pensado como gay, só o fato de que agradou um grupo LGBT nos EUA já foi o suficiente pros produtores pensarem “ok, isso está errado, vamos consertar essa porra.” E isso é prova de justamente porque é importante que os produtores e roteiristas estejam perdendo o medo dos personagens gays.

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Por isso que é foda que a resposta de Trey Parker e Matt Stone quanto a todo um nicho de fãs que lêem Tweek e Craig como gays tenha sido fazer um episódio em homenagem a esses fãs e ter deixado eles brincar.

Bugs Bunny ganhou forçada e inorganicamente uma namorada, e parou de vestir de mulher… isso é, exceto nas obras que não reconhecem a existência da Lola Bunny. É curioso como a existência da Lola Bunny e o hábito do Bugs Bunny de se travestir parecem não ser capazes de coexistir, como se tivesse uma mensagem passada por quem ainda faz ele se vestir de mulher em desenhos modernos.

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Tudo envolvendo a Lola Bunny é errado. Criada pra atender a demanda de uma Looney Tune mulher, sendo que existiam várias, que eram mulheres, só ficavam no plano de fundo por não serem sexys e sexualizadas, e para cumprir a demanda de um Bugs Bunny mais heteronormativo, além de envolver os Looney Tunes com todo um desnecessário lance furry. Esse personagem é todo errado.
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Fato parodiado em uma cena brilhante no péssimo filme Looney Tunes Back to Action, a Relações Públicas de Bugs lhe propõe “Como posso fazer pra reposicionar a sua marca no mercado? Minha proposta, você começa a fazer parceria com uma mulher sexy como co-estrela.” e a resposta de Bugs é na lata “Mas normalmente eu é que sou a garota que faz o interesse amoroso.” após isso a RP manda ele parar de se travestir. A resposta final de Bugs é “Dona, se não quer ver um coelho usar batom, não temos nada o que conversar.”

O Schulz nega de pés juntos qualquer romance entre Patty e Marcie, e em uma encarnação relativamente recente do Scooby Doo forçaram um romance da Velma com o Shaggy, dentre todas as pessoas. E não foi a primeira vez que tentaram forçar um romance e por consequência a imagem da Velma de hétero pra ela perder seu referencial de lésbica. E é disso que eu estou falando, os personagens não tinham nenhum indício de sexualidade, mas aí passou a ser extremamente importante firmá-los como héteros.

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Mas como os dois não tem química nenhuma, a dinâmica do casal foi decidida como “O Shaggy não quer nada com a Velma, mas ela tem esse desejo pelo Shaggy” tornando um romance unilateral por parte da Velma.

Quem se safou nessa foi o Snagglepuss, muito lado-B da Hannah-Barbera pra se darem ao trabalho de mudar a imagem dele, então não recebeu um romance hétero forçado. Ao invés disso, em 15 de Novembro de 2008, em resposta a legalização do casamento gay na Inglaterra, um dos apresentadores do Saturday Night Live se vestiu de Snagglepuss pra comemorar o fato, mostrando como embora o personagem seja dos anos 1960, o ícone persiste até a atualidade.

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E viva o casamento gay.

Mas personagens de desenho se tornarem ícones gays foi algo que nunca parou, temos hoje o Spongebob e a Rainbow Dash… é algo que vai existir pra sempre.

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Foto retirada em uma parada do orgulho gay nos EUA em 2011.

Além desses ícones tivemos dois personagens da Disney que são muito lidos como gay por sua audiência, mas não foram exatamente elevados ao status de ícone. São eles Flower de Bambi, o gambá delicado e afeminado que por conta de seu nome – e do fato dele obviamente ter flertado com Bambi em sua primeira aparição – é muito fácil de se confundir o gênero dele, mas é macho, e no fim do filme ganha uma namorada pra deixar bem claro seu status de macho hétero. E o outro é Baloo, o urso de The Jungle Book, por conta do seu jeito mais solto e hippie que contrastava toda a caretice e conservadorismo do Baguera até culminar nessa cena que muitos interpretaram em uma cantada que o Baloo passou pro Baguera.

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“Baloo, você não pode adotar Mowgli, cada qual com seu igual, você não casaria com uma pantera, casaria?” “Olha… nenhuma pantera me pediu em casamento ainda.”

Mas era isso essa época. O máximo que a gente tirava da animação anterior dos anos 1990 era o Baloo passando uma cantada no Baguera, e uns personagens que por diversas características foram adotados pela comunidade gay como ícones. Mas nenhuma iniciativa muito interna vindo da indústria.

Mas aí veio a Renascença da Animação Americana, e com a Renascença, os desenhos animados ficaram notavelmente mais autorais, os desenhos tinham vontade de quebrar com o padrão, as normas e a mediocridade que era o status-quo dos anos 1980, e então, surgiu esse canal pra televisão exclusivo pra conteúdo infantil chamado Nickelodeon, e na primeira leva de desenhos originais da Nickelodeon, no dia 11 de Novembro de 1991, veio um desenho chamado Ren & Stimpy que já veio no espírito go big or go home, uma voadora de dois pés no peito em relação a tudo que qualquer um naquela época estava acostumado.

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Ren & Stimpy era violento, ácido, perverso, irônico e muito engraçado, e era protagonizado por esse chihuahua chamado Ren e esse gato chamado Stimpy que moravam juntos e tinham alguns episódios meio…. suspeitos. A relação entre eles mudava dependendo do episódio, eles podiam se portar como se fossem melhores amigos, pai e filho ou casados, principalmente casados. E o pessoal logo notou esse subtexto. Até que depois o autor disse em uma revista em 1997 que era completamente intencional e que nesses episódios eles eram sim um casal gay.

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Mas claro, nada fora do subtexto, pois o desenho ainda era pra crianças. Até que um dia, o desenho resolveu fazer um spin-off, mas dessa vez como uma animação adulta. E embora esse spin-off tenha sido mal-recebido pela crítica e cancelado com pouquíssimos episódios, ele foi imortalizado pela cena em que o ato de serrar um toco de madeira se tornou uma metáfora pros dois fazendo sexo de uma maneira notavelmente explícita até mesmo pros padrões da animação adulta de 2016. Eis o link.

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Mesmo nos padrões atuais, mesmo nos padrões da animação adulta, mesmo incluindo o sexo hétero, eu acho que conto nos dedos as vezes em que vi metáforas pra sexo tão pouco explicitas quanto essa. (mas a lista inclui o filme Sausage Party desse ano).

Pois bem, Ren & Stimpy oficialmente são os primeiros homossexuais da animação, muito embora isso não pudesse sair do subtexto, afinal, não podem ter gays na animação. Mas não foram os únicos de sua época, nos anos 1990 houve uma grande leva de personagens com subtexto que os autores confirmavam que eram homossexuais ou bissexuais em entrevistas, mas no programa em si no máximo davam uma ou outra dica.

Um caso interessante foi o da personagem Harley Quinn, que provavelmente é a personagem mais influente da DC a não ter sua origem em histórias em quadrinhos e sim na animação, na série animada Batman, The Animated Series que até hoje é lembrado como uma das melhores séries animadas de todos os tempos. Pois bem, todos conhecemos a Harley, e quem não conhecia, conheceu esse ano pelo filme Suicide Squad, ela é a namorada do Joker, uma psicóloga brilhante que teve o Joker como paciente e se apaixonou por ele. O relacionamento dos dois é um relacionamento abusivo e violento, onde Harley se submete a todos os desejos de Joker sem receber nenhuma consideração em troca e frequentemente apanha de graça. Pois bem, em 18 de Janeiro de 1993, foi ao ar o episódio do desenho que virou um pouco o jogo e revelou uma nova faceta da personagem, Harley and Ivy.

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Harley e Ivy tomando café da manhã juntas usando somente camisetas no episódio Harley and Ivy. Não prova nada, mas indica muito.

No episódio, após ser expulsa de casa pelo Joker, Harley fica amiga de Poison Ivy, as duas começam a morar juntas e se tornam parceiras no crime, até o Joker perceber que sem Harley, ninguém fazia as tarefas domésticas em seu covil e então ir atrapalhar a dupla para recuperar sua propriedade, culminando em uma batalha entre Poison Ivy e Joker. O episódio carregou fortes subtextos românticos, principalmente pelo contraste entre o relacionamento saudável que dá auto-estima pra Harley como era o com Poison Ivy e o relacionamento abusivo que reforça o complexo de inferioridade de Harley que era o com o Joker. Mas eventualmente Harley sempre volta pro Joker pois ela é um capacho. Apesar disso, a amizade delas é algo que se mantem e a parceria recorrente no crime também, mesmo a Harley voltando com o Joker, e todas as vezes que eles brigam (o que acontece de tempos em tempos) é pra Ivy que Harley corre.

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Chega ao ponto em que elas se tornam uma das duplas mais consistentes do universo DC.

Curioso notar que ao longo de todo o episódio, Ivy discursava contra o patriarcado, e dizia que elas jamais seriam presas pelo Batman, pois jamais seriam diminuídas perante um homem, até serem ao final presas pela outra personagem lésbica que a série animada criou, Reneé Montoya (embora Montoya só tenha saído do armário nos quadrinhos, depois dos quadrinhos oficialmente adotarem ela como membro da mitologia oficial do Batman).

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“Nenhum homem nos fará prisioneiras.”

Quando Harley Quinn saiu da televisão e foi pros quadrinhos, seu relacionamento com Poison Ivy foi junto com dicas ainda mais notáveis, mas foi só em 2015 que a DC oficialmente admitiu o que todo mundo já tinha notado logo quando elas foram morar juntas pela primeira vez, que elas eram mais que amigas. Pra ser preciso que elas mantém um relacionamento não-monogâmico muito amoroso.

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As duas nos quadrinhos.
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Agora peguem a ironia. Aí quando a DC cria um desenho com o único propósito de mostrar as mulheres da DC sendo amigas entre si, a amizade de Harley e Ivy não migra junto, e elas se tratam como conhecidas ou “amigas só porque andamos na mesma turma” no máximo. Claro, um desenho que é pretexto pra venda de brinquedo não quer incentivar boatos de que as duas possam fazer… coisas, por mais icônica que seja a dupla. Mais um notório desserviço dessa péssima ideia.

Em 1994 tivemos o caso da gárgula Lexington do desenho The Gargoyles que também foi confirmado como gay pelo seu criador, mas diferente de Ren, Stimpy, Harley Quinn e Poison Ivy, não existe nenhum indício ou subtexto por mais discreto que seja no desenho, foi um caso com literalmente o autor só jogando essa informação de graça. Por outro lado tivemos o desenho Hey Arnold, uma das obras-primas da Nickelodeon que está armando seu retorno triunfal, e o personagem do Mr. Simmons, o professor sensível, otimista e inseguro dos protagonistas, que foi não só foi confirmado como gay pelos criadores, como foi confirmado que seu namorado já apareceu na série.

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O que trouxe a cena do jantar do dia de ação de graças na casa de Mr. Simmons um contexto completamente diferente. O autor não disse que foi nesse episódio que o namorado aparecia, mas a revelação de que Simmons é gay trouxe informação pra que possamos interpretá-la pelo que realmente estava acontecendo, a cena é obviamente sobre a mãe não aceitando a homossexualidade do filho. Infelizmente não tem essa cena no youtube para eu linkar.

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Simmons e seu namorado Peter, que por motivos da homofobia da mãe de Simmons, Peter foi convidado como amigo pro dia de ações de graças, onde ele foi notavelmente mal tratado pela sogra que tentava armar um encontro entre Simmons e outra garota.

Ultimo exemplo de personagens sendo confirmados como LGBT por fora, foi com o caso de Kitty e Bunny, personagens do episódio The Mask de Courage, the Cowardly Dog, que passou em 2002. Notável antes de qualquer coisa notar que esse foi o único episódio de Courage classificado como PG o que significa que ele pode não ser apropriado pra crianças e que os pais devem ficar alertas quanto ao conteúdo. Curioso esse ter sido o único episódio de Courage a chamar a atenção da censura, sendo que a série constantemente nos mostra umas parada tensa.

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Lembram o episódio que no fim os donos do Courage morrem e são transformados em bonecos e o Courage passa o resto da vida animando os bonecos pra manter a rotina do dia a dia inalterada e fingir que ainda tem família? Não foi tenso o suficiente pra precisar alertar os pais.

Pois bem, no episódio o sítio de coragem é visitado por essa gata chamada Kitty que começa a espancar Courage sem dó, pois ela acha que cachorros são todos malignos. E após uma investigação ele descobre que Kitty tem essa imagem de cachorros, pois sua amiga mais próxima Bunny foi obrigada a entrar em um relacionamento violento com esse cachorro cuzão e com isso Kitty perdeu Bunny pra sempre. Bunny quer largar o cachorro e voltar pra Kitty, mas é constantemente ameaçada, até que Courage salva Bunny e reune as amigas novamente pra elas viverem felizes para sempre.

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Só muitos anos depois e via Reddit que o autor do episódio admitiu, o que a internet já havia entendido na hora, que as duas eram um casal. O autor também comentou que tinha certeza de que o episódio não ia ser autorizado, mas foi, só acabou sendo considerado o episódio mais impróprio de uma série onde todo episódio tem merda macabra.

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Sei que um inseto bebendo os sucos vitais de uma idosa até ela morrer parece pesado, mas existem coisas mais pesadas nesse mundo. Como por exemplo, mulheres apaixonadas entre si.

Mas já que estamos falando de classificação indicativa, vamos falar como as animações adultas, que começaram a surgir em grande escala nos anos 90 se encaixam nisso. Muito simples, a grande maioria das animações adultas inclui gays, aliás, a grande maioria mesmo tem ao menos um personagem recorrente gay, que fará questão de lembrar o expectador disso em todo episódio em que aparecer.

Então Mission Hill tinha um casal gay que aparecia recorrentemente. South Park tinha o Mr Garrisson. No King of the Hill, foi revelado que o pai do Dale era gay. Family Guy tem Jasper o primo gay do Brian. Moral Orel tinha a Stephanie Ruby. Piadas de gay constantes nesse tipo de desenho também são uma coisa bem normal, mesmo em desenhos sem um secundário gay recorrente como The Critic, Duckman ou Dilbert. No geral, como o foco de todo o bloqueio de personagens LGBT em mídia infantil é justamente a categorização dos gays como “impróprios para menores”, eles acabam se tornando um meio da animação adulta se afirmar como adulta. “Olha, como isso muito não é pra criança, tem até um gay.”, afinal apesar do tabu, são menos polêmicos que mamilos no mundo da animação. Por isso se for uma animação que gira em torno de um núcleo familiar, gays são muito mais práticos do que violência pesada de se inserir nos episódios, embora uma coisa não exclua a outra.

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Dentre eles destaco o Alchemist de Venture Bros, um dos melhores personagens da série.

Mas vamos falar dos Simpsons? Embora os Simpsons sempre tenham feito piada com gay, e o personagem Smithers tenha dado indícios de ser gay no armário por um bom tempo, com sua paixão platônica pelo Sr. Burns, foi só na 16ª temporada só que eles resolveram tirar um personagem já estabelecido do armário de verdade. E foi com a Patty, irma da Marge que tentou se casar com uma mulher chamada Verônica. Enfim, o casamento não rola, pois Verônica era um homem, mas tal qual é a marca registrada da fase desesperada dos Simpsons, foi anunciado com muita antecedência que ia ter um episódio de casamento gay, e quando o episódio saiu, em 2005, saiu com um aviso de “conteúdo impróprio” logo antes do episódio, em uma animação adulta ainda precisaram avisar sobre o conteúdo impróprio. O primeiro e único episódio das 28 temporadas da série a ganhar esse tipo de aviso. Isso é, exceto pra nós, já que quando o episódio que os Simpsons vem pro Brasil foi exibido aqui foi exibido com o aviso de “conteúdo ofensivo” também.

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Olha só que coisa mais imprópria.

E não é como se a série já não tivesse feito um episódio inteiro focado no Homer e na Marge transando em público, ou zoasse o Smithers constantemente por ser gay, mas não, foi a Patty querer casar que cruzou a linha do moralismo.

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Aceitável.

Mas não só de mudar drasticamente a política de classificação indicativa vive a animação americana. As vezes quando a animação não é americana e tem um homossexual, os Estados Unidos simplesmente não transmitem as partes onde tem homossexualidade. E se for um anime, isso significa que o Brasil também não transmite, pois ao menos nos anos 90, a gente não comprava nossos animes diretamente do Japão, algum outro país ocidental fazia o meio de campo.

Então temos os famosos caso de Sailor Urano e Sailor Netuno que são lésbicas assumidas na mídia original e aqui elas viraram…. Boas amigas? Primas? Não tenho certeza, mas uma coisa que elas não eram na dublagem era namoradas. E Sakura Card Captors fez de novo, com a paixão que a Tomoyo sentia pela Sakura e o relacionamento do Touya com o Yukito.

Em Sakura é curioso, pois eu lembro que mesmo picotando a homossexualidade da Tomoyo sem dó, eles mantiveram o lance do Shaoran ser apaixonado pelo Yukito, eu era criança e pensei “mas olha só, quem diria, tem gays nesse desenho?”, mal sabia eu que era CLAMP que eu estava vendo. Enfim, no fim é revelado no próprio anime original que o Shaoran nunca realmente se apaixonou pelo Yukito, que foi outro lance rolando, relacionado ao poder mágico dos dois. Enfim, se a dublagem brasileira já sabia disso quando deixou essa passar ou se foi coincidência é algo que eu genuinamente não sei. Mas precede o Mitch Dowe na mídia brasileira em muitos anos.

Edit: Um leitor me apontou aqui que a dublagem brasileira manteve o relacionamento do Touya e do Yukito sim, e que a nossa versão foi 100%  sem relação com a americana que foi ainda mais picotada que a média, tirando não só a homossexualidade, como tentando fazer o Shaoran parecer o protagonista.

Mas não precisa ser anime pra ter esse tipo de censura, em especial por que não precisa ser japonês pra achar que é de boa retratar gays na ficção e não colocar uma tarja de conteúdo impróprio em cima. Por exemplo, no Canadá é de boa enfiar personagens gays em seus desenhos animados. Braceface tinha um, e a série Total Drama constantemente fazia piada de gays (ou melhor, piada de hétero querendo reafirmar constantemente que são héteros, após ter sua heterossexualidade questionada). Mas o melhor exemplo é o desenho 6Teen onde temos dois episódios em que um personagem secundário gay traz confusão na vida amorosa dos personagens.

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Um desenho que era essencialmente 6 amigos no shopping conseguindo empregos e entrando em relacionamentos. Era exibido no Cartoon Network no horário nobre nos EUA, mas no Brasil era exibido as 22h30h de sexta como último desenho a passar antes do Adult Swim oficialmente começar.

Em um episódio uma das garotas se apaixona por um cara que ela descobre depois ser gay, e no outro, uma das garotas fica muito íntima de uma menina lésbica e se questiona se a tal menina teria segundas intenções nessa amizade. Em ambos os casos tudo acaba bem, e todos os personagens aceitam de boa a sexualidade dos personagens. Nenhum desses dois episódios foram exibidos nem nos EUA nem no Brasil. Mas no Brasil isso se deve ao fato de a série só ter exibido sua primeira temporada exibida. Nunca saberemos se teríamos exibido esses episódios caso nos dessem a chance.

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Casal de lésbicas em 6Teen.

Falando em episódio nunca exibido, o desenho Cow and Chicken é notório por ter um episódio em que um grupo de motoqueiras convence Cow a entrar em sua gangue de motoqueiras. Enfim, essas motoqueiras tem o hábito de entrar na casa dos outros e aleatoriamente começar a mascar o tapete delas. Onde quero chegar? Bem, na língua inglesa, “mascar tapete” é uma gíria pra fazer sexo oral em uma mulher, e o ponto é, esse é um de uma lista relativamente curta de episódios do Cartoon Network que tem sua exibição completamente proibida e só foram transmitidos uma única vez.

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Enfim, é nesse ponto que estávamos quando o Mitch navegou águas não-antes-navegadas e admitiu ter um namorado nos minutos finais de ParaNorman, 4 anos atrás. E nesses quatro anos, o que mudou? Vejamos os desenhos atuais.

Em Adventure Time temos o famoso e popular casal da Bubblegum com a Marceline do qual já falei no passado, mas que como diversos outros casais no passado, tiveram que ser confirmados por fora, em entrevistas. A alegação feita é que eles gostariam que o casal pudesse admitir seu passado amoroso, porém que tem países em que o desenho é exibido onde é ilegal passar esse tipo de conteúdo.

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Apesar do status pseudo-oficial delas seja de “ex-namoradas”, o clima da série cada vez mais parece como se elas pudessem voltar a qualquer momento. No final de Stakes Marceline sonha em envelhecer ao lado de Bubblegum, que por sua vez convida diretamente Marceline pra morar junto com ela, mas a vampira recusa.

Mantendo a tradição dos criadores confirmando homossexualidade de seus personagens fora das telas, em How to Train Your Dragon 2, o personagem Gobber faz um comentário que depois foi confirmado como a revelação de que ele era gay.

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No filme em questão ele afirma que nunca se casou por “…aquele motivo.” por fora confirmaram que aquele motivo era ele ser gay. Imagino que a sociedade viking seja bem conservadora.

E saindo do território do “alguém teve que confirmar em entrevistas” pro território “está obviamente muito implícito e muito claro e muito mastigado, mas sem mostrar nada.” que foi o famoso caso de The Legend of Korra, da Nickelodeon, com Korra e Asami se tornando um casal na última cena da série, em um momento que espelha diretamente a última cena de The Last Airbender onde Aang e Katara se tornam um casal.

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Exceto que numa dessas cenas foi um beijo épico e na outra foi a discrição de duas mulheres que sabem que só podem namorar na televisão se não se beijarem.

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As cenas foram pensadas para as duas serem um espelho uma da outra, com a confirmação do casal seguindo da câmera se movendo pro céu. Porém a maneira de confirmar o casal escolhida foi bem diferente em cada série.

Mas ainda sim, Korra chamou muito a atenção pelo alcance e repercussão do desenho, e pelo trabalho de construção que as duas tiveram culminando nelas se apaixonando entre si. Sério, a internet não falava de outra coisa no dia seguinte da exibição do episódio.

E aí veio Steven Universe, que mostrou duas personagens femininas em um relacionamento amoroso , nada ambíguo e claro. Ruby e Saphire, duas namoradas que decidiram passar o resto da vida fundidas. Onde está o migué? Como o Cartoon Network deixou isso passar? Bem, em teoria elas são alienígenas de uma raça sem sexo biológico e onde 100% da população se identifica com o gênero feminino, então a primeira vista parece que não é como se tivesse um vasto arsenal de opções pra sexualidade das personagens… a primeira vista.

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“Eu luto pelo lugar onde sou livre, pra vivermos juntas e existirmos como eu.” diz muito sobre que tipo de aceitação a Garnet tinha no Mundo Natal.

Pois o amor e a fusão por amor são visto com maus olhos na sociedade delas. Quem diria… mesmo se homens nunca tivessem existido a sociedade ainda discriminaria as lésbicas. Então Ruby e Saphire são consideradas extremamente indecentes em seu planeta natal por gostarem de se fundir entre si. (e já falamos aqui pra que que a fusão é metáfora). Além de Ruby e Saphire, a série tem a Pearl, uma das protagonistas que se apaixonou por Rose Quartz, a líder das Crystal Gems. E depois da morte da Rose, Pearl teve ou está tendo (não está claro que fim levou essa história) um lance com uma humana que se parece com a Rose. Ah sim, e a Rose é claramente hétero mostrando que mesmo todas sendo mulheres e não tendo contato nenhum com o gênero humano fora da Terra, ainda sim tem gems que são hétero, mas, mesmo assim, Pearl, Ruby e Saphire não são.

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A serie deixa claro que antes de Greg, Rose já “trouxe vários homens pra casa”, todos homens, todos romanticamente envolvidos com Rose, mostrando que mesmo sendo uma alien sem sexo biológico de uma raça só de mulheres, ela é claramente hétero, o que enfatiza o fato de que diferentes sexualidades existem entre as gems, e que no caso das protagonistas, metade são lésbicas.

Curioso notar que Steven Universe sofreu modificações na dublagem fora dos EUA para tentar apagar qualquer traço de romance entre Ruby e Saphire e entre Pearl e Rose, tanto na Inglaterra quanto na França, mas graças aos efeitos da internet, os fãs dos respectivos países já tinham visto a versão legendada antes e puderam fazer uma pressão forte pra versão dublada conter os relacionamentos dos personagens. A França eu sei que cedeu, mas se não me engano a Inglaterra ainda não cedeu.

Novamente no caminho do implícito, a Disney agora adotou a mania de colocar personagens LGBT como easter-eggs em seus filmes. Tanto Frozen quanto Zootopia possuem cenas com u casal gay que tem que prestar muita atenção no filme pra notar. Em Frozen, o personagem em questão é o Oaken, dono da loja onde Christopher foi comprar utensílios de inverno. Ele afirma que sua família estava usando a sauna, e quando vemos a sauna vemos um outro homem e várias crianças. Claro que sempre pode ser só o irmão do Oaken e os sobrinhos, mas não foi o que deu a entender, e na mídia audiovisual, cenas pequenas como essa costumam ser o que elas dão a entender.

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Em Zootopia, temos os vizinhos de Judy, Bucky e Pronk. Os dois têm o sobrenome Oryx-Antlerson, com o hífen indicando que esse sobrenome é a junção de dois sobrenomes via casamento. E os dois são de espécies diferentes, que fez muitos interpretarem que talvez eles sejam um casal, já que é improvável que tenham parentesco sanguíneo sendo de espécies diferentes, claro que o Bucky pode ser adotado, mas o mais provável é que sejam um casal mesmo.

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E no Finding Dory tem essas duas mulheres com um carrinho de bebê, que também não prova nada, mas a internet percebeu.

findingdory

Incluindo é muito comum a interpretação de que a própria Elsa talvez seja lésbica, eu mesmo tive essa impressão vendo o filme, não devido ao fato dela terminar o filme solteira, diferente de muitos aí (mesma galera que acha que a Merida é lésbica pelo exato mesmo motivo, pessoalmente eu sempre interpretei que eventualmente ela iria acabar se envolvendo com um daqueles três, mas que eles iam esperar rolar naturalmente e não por motivos políticos) mas devido ao grande simbolismo de “parar de se fechar pro povo e abrir essas portas”, com portas sendo usadas como simbolismo pra Elsa se reprimindo o filme inteiro. E eu não consigo deixar de pensar em como as portas me lembram as portas de um armário (em especial porque 90% delas são portas duplas)

portas
A única que não é dupla é a porta do quarto onde Elsa se trancava pra esconder seus poderes. Mas no concept art ela era pra ser uma porta dupla também.

Isso e a canção Let it Go ser literalmente ela falando “me assumi e estou cagando procês”, com o único porém dela estar assumindo seus poderes e não sua sexualidade, mas eu fiquei com essa sensação, de que no subtexto podia ter algo mais. A palavra-chave aqui é sensação, pois não há nada no filme que realmente indique a menos que você queira ver uma metáfora bem específica e não-obvia. Porém eu não fui o único, existe uma campanha forte para que Elsa ganhe uma namorada no inevitável Frozen 2, e vamos ver o quanto a Disney cede á pressão, e faz a primeira princesa lésbica. Acho que em questões de comercializar a inclusão de minorias pros lucros da Disney falta só a princesa lésbica e a princesa mexicana que eles já incluem todas as principais minorias dos EUA, então seria um próximo passo bem lógico, se não na Elsa em alguma princesa futura.

letitgo
“A garota perfeita se foi. Aqui eu vou ficar, e à luz do dia.”

Fechando com os últimos exemplos de casais gays na animação americana infantil atual, em 2014 começaram a ser oficialmente inseridos personagens crianças que tem ou dois pais ou duas mães. Com o personagem Jeff, de Clarence que possui duas mães. Esse ano estreou na Nickelodeon o desenho The Loud House, onde um dos amigos do protagonista possui dois pais. E são esses, só dois, mas esse é um caso que eu imagino que vá virar tendência, mais crianças com dois pais aparecerão. Na série live-action da Disney, Good Luck Charlie também apareceu um personagem com duas mães, então é, esse vai ser o grande token dos homossexuais na mídia infantil agora, é jogar seguro e cruzar a linha ao mesmo tempo, todos vão querer fazer.

E o último exemplo, é o caso dos policiais em Gravity Falls, Blubs e Durland, que depois de anos chamando a atenção por se tratarem com muito carinho em serviço, finalmente declararam seu amor um pelo outro em público no Series Finale que saiu em 2016.

blubsedurland
“Estamos loucos de amor.”

E é aqui que estamos. Muitos personagem que ainda precisam ser confirmado como gay por entrevistas, algumas pedras preciosas alienígenas sem sexo biológico se amando entre si, crianças com dois pais ou duas mães e easter eggs escondidos em filmes Disney, mas, apesar disso, o ovo de Colombo foi posto de pé, e agora todo mundo sabe a linha foi cruzada sem maiores consequências a não ser uns mimimis homofóbicos no twitter, nada que tenha impedido alguns desses desenhos de virarem minas de ouro. Então só estão com medo de já sair metendo a voadora de dois pés e querem caminhar a passos lentos. Ah, se, pelo menos, o criador de Ren & Stimpy ainda estivesse produzindo animação, aquele ali não acreditava em ir mudando gradualmente não.

Enfim, mas eu acho que essa é a tendência, e que de fato, essa vai ser uma das marcas de 2010, a década em que os personagens gays começaram a sair do armário na programação infantil. Existem passos importantes a serem dados? Sim, sim, vários, os gays não se beijam ainda nos desenhos animados, e num geral acho que vão se passar mais pelo menos 5 anos até algum personagem de desenho pronunciar a palavra “gay” sem a mera menção da palavra ser suficiente pra tirar o episódio do ar. E sem contar que a sigla é LGBT, mas provavelmente a representação de pessoas trans e não-binárias só vai dar um passo real nessa mídia quando eles já tiverem resolvido o assunto da homossexualidade.

gaykiss
Gay… mas não gay demais, senão os produtores brigam.

Sim, temos o BMO e a Stevonnie atualmente, mas sério, a gente não vai conseguir muito mais que isso enquanto não tiverem feito completamente as pazes com o conceito de personagens gays. Pra mentalidade do produtor de hollywood um desses conceitos é imensamente mais fácil de digerir que o outro e mesmo assim está passando bem aos poucos. Dou quinze anos no mínimo pra eu poder repetir esse texto com pessoas trans, e não-binárias, tendo material o suficiente pra fazer um texto.

donnie
E quando tentam é aquela coisa, né, uma exposição de metáforas ruins, péssima simetria e capacidade de deixar o grupo que você quer incluir ainda mais puto.

Mas enfim, é esse o assunto da década nas áreas onde os produtores e roteiristas de animação estão envolvidos, e não é coincidência cada vez mais e mais desenhos tentando cruzar a linha de maneira diferente, não foram vários roteiristas que acordaram sendo mais inclusivos, é um lance de décadas que agora começou a se mostrar aproveitando um espaço que foi aberto. Agora com Adventure Time chegando ao fim, vamos ver se é Steven Universe quem vai quebrar os tabus que ainda restam pros outros desenhos imitarem ou se um novo Adventure Time está pra surgir.

Mas de qualquer jeito, Frozen 2 está virando a esquina já… 2018.

6 thoughts on “Uma resumida história dos personagens LGBTs em desenhos animados infantis.

  1. Otimo texto e muito interessante o tema. Outro personagem que você poderia ter citado era o Gear de Super Choque o personagem é gay nos quadrinhos(inclusive sofria homofobia de sua família) mas os produtores proibiram de mostrarem isso mas os roteiristas chegaram a fazer referencias a isso em alguns episódios por exemplo naquele que o pai dele era racista fica subentendido que alem dele ter problema com a raça do Virgil ele tambem suspeitava que eles fossem um casal. Mas fica so nisso mesmo o Richie inclusive se mostra em outros episodios interessado por meninas. Uma pena.

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    1. Eu confesso que não assisti Super Shock, aí não tinha certeza se isso era um lance só dos quadrinhos ou da animação também, aí pra não falar errado preferi pular o Gear.

      Mas interessante saber que teve esse episódio, vou correr atrás dele agora.

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  2. Excelente post com ótimos exemplos e analise sobre o assunto. Gosto muito do seu texto, humor e dos pontos levantados em seus post e fiquei imensamente feliz com esse.

    Sobre o caso de The Gargoyles, acredito que a declaração do criador sobre Lexington não foi tão gratuita, devido a forma mais suave e doce que seu dublador original usou no personagem já despertava as duvidas da meia duzia de fangirls de slash da época. O Nostalgia Critic também apontou isso em sua analise sobre sobre a série 🙂

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  3. Meu sonho é ver um ep de South Park, onde mostra que o Tweek e o Craig se tornaram, de fato, namorados. Onde todo o lance de fingir acabou virando algo a mais… (kkkkk).
    Ótimo texto.

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  4. No episódio Carnivoro não/I never ate for my father (de Família Dinossauros), os roteiristas foram tão bons que mesmo que o foco principal do episódio fosse sobre o uso das drogas; eles também falaram sobre orientação sexual de maneira sutil; na cena em que o Bob esta junto com um amigo, reparem não só no choque do Bob quando ouve o amigo admitir que já tinha experimentado vegetais como também no tom de voz do amigo quando ele faz confissão.

    Destaco também a parte em que todos estão dentro do estomago do dinossauro monstruoso. Nesta cena Dino e um mamífero pré-histórico estão conversando sobre a “cadeia alimentar” e o mamífero diz que o filho o questionou uma vez sobre a mesma: “O que você fez?” – perguntou Dino – “Eu comi ele!”, e o Dino responde “Gostei dessa.” O que seria isso senão um pai bater no próprio filho simplesmente porque não aceita que ele seja um gay ou um drogado? Outro detalhe interessante é que um pouco antes Dino tentou fazer Bob devorar o mesmo mamífero porém Bob esta decidido a não fazê-lo. É aí que ele faz a pergunta com tom de surpresa/desdém: “Qual o problema do menino? Ele não come carne?” Descobriram aonde quero chegar? Sendo que logo depois de ouvir isso, aí sim que o Dino tentou forçar o Bob a comer o animal.

    Depois de uma conversa franca entre pai e filho, o monstro os vomita e o episódio acaba com a família do Bob aceitando que ele coma vegetais (ou seja: quem ele é).

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