Musicais: Quais as funções narrativas das canções?

Vejam bem, se tem uma coisa que eu gosto muito, é de musicais. Eu adoro filmes recheados de canções de seus personagens. E com isso uma dificuldade que eu sempre tive, era a de recomendar filmes musicais para outras pessoas, tanto trabalhando como atendente de locadora, como tentando convencer um amigo a ver um filme, sempre tenho que me deparar com o exato mesmo argumento.

“Então… o meu problema com musicais é que eu acho muito forçado do nada as pessoas pararem o que elas estão fazendo para começar a cantar.”

Um argumento notável, sempre que estreia um novo musical no cinema e eu recomendo para os demais eu escuto pelo menos uma pessoa falar isso. Chamar a atenção para como na vida real as pessoas não falam cantando, e que a suspensão da descrença é muito grande.

RollercoasterTheMusical.
“Dessa vez devíamos fazer um musical. Sabe? Faremos as mesmas coisas, só que caindo espontaneamente em números musicais com canções e coreografia. O que me diz?

Claro que não é todo mundo que pensa assim, afinal se fosse ninguém mais faria musicais, pois ninguém assistiria. Mas ainda sim é uma reclamação comum, e quando não é uma reclamação, mesmo assim pode ser uma observação de alguém que não se incomoda com as canções, mas nota que teve que usar da suspensão da descrença.

RainbowDash
“Poneis que começam a cantar em lugares aleatórios do nada… quem que dá dessas?”

E por isso resolvi escrever esse texto para esclarecer por que é que os personagens estão cantando, afinal. Por que os autores da obra quiseram que seus personagens cantassem diversas vezes ao longo do filme ao invés de conversar feito gente normal?

Essa pergunta tem duas respostas, a resposta curta e a resposta longa.

A resposta curta é de que desde o nascimento do teatro existe um desejo de misturar artes e de usar música para auxiliar em sua narrativa. O teatro grego usava o coro e a partir do século VI tivemos a ópera. O cinema deve muito ao teatro, e a tradição da canção acompanhou junto. Não é coincidência de que assim que o cinema passou a ter som, colocar música nos filmes foi a primeira coisa que fizeram. O primeiro filme com som da história, não tem diálogos, mas têm música.

JazzSinger
O primeiro filme com som, é também o primeiro musical do cinema.

Ou seja, existe uma tradição antiga de colocar canções em histórias encenadas. Por isso mesmo hoje, no século XXI ainda temos filmes em que personagens cantam do nada.

Ah claro, isso e o fato de que podemos vender discos com a trilha sonora. Não vamos ser muito idealistas e fingir que a indústria do entretenimento não adora tudo que aumente os lucros. Mas enfim, é uma tradição de milênios, e milênios atrás não existiam produtoras gananciosas.

PitchPerfect2

Agora… e a resposta longa? A resposta longa é uma grande análise sobre o que um filme ganha ao ter seu personagem cantando do nada. É menos um “por que o personagem canta” e mais um “pra que o personagem canta?”, por que é narrativamente útil para o filme inserir a canção além do fato de que músicas são agradáveis e existe um desejo de misturar as artes.

E para essa resposta longa, faço esse texto.

Primeiro de tudo tem algo que precisa ficar claro. Mas extremamente claro para todos os efeitos e que não pode ser esquecido jamais. Para fins de história, construção de universo e interação entre personagens, devemos sempre ter noção de que o personagem não parou o que estava fazendo para cantar e dançar enquanto fala de verdade.

500DaysofSummer
Vamos lá, essa cena estava rolando só na cabeça do protagonista. No caso de 500 days of Summer isso é um pouco óbvio, mas em outros filmes pode não ser tão óbvio.

Ao que você vai me responder: “Claro que para. Eu estou vendo o filme. Pode colocar aí no Grease e você vai ver que é isso mesmo, o John Travolta tava falando numa boa com a Olivia Newton-John e de repente ele começou a cantar.”

Grease
Olha aí, claramente estão cantando. Por acaso esse texto está querendo dizer que na perspectiva de Danny e Sandy isso não é o que tá rolando?

Sim, isso é o que o filme mostra. Mas não é como se ao fim da cantoria, a personagem Sandy pensasse, “Nossa, o Danny acabou de mandar a maior cantoria.”, para aquelas pessoas, dentro daquele universo, aquela cantoria não existiu de verdade, só existiu pra gente. Aquela cena não era mais real do que o Birdman seguindo o Michael Keaton nas ruas de Nova York enquanto falava com ele.

Birdman
Aos que não leram o texto sobre Birdman, sinto que devo explicar que não tinha de verdade uma personificação do Birdman seguindo o Riggan.

Nem tudo que um filme nos mostra é o que os personagens estão vendo, a narrativa nos passa informações de diversas maneiras. Então em uma cena de música não devemos encarar como se os personagens estivessem todos cientes da cantoria e ouvindo a música.

Não devemos acreditar nisso, não mais do que devemos acreditar que o Aladdin realmente ficou um tempão em silêncio esperando o tapete mágico chegar na Esfinge só para mandar o próximo verso da canção.

WholeNewWorld
E agora vocês tão na grécia? No trecho passado na música eram as pirâmides, vocês pararam de cantar nesse meio do caminho, foi?

Seria ridículo, não? Então, só nós expectadores estamos ouvindo essa música, o Aladdin não realmente virou pra Jasmine em cima do tapete mágico e começou a cantar do nada. Seria estranho. A canção é só a maneira como todo o momento e clima que eles tiveram na viagem de tapete mágico foi passada para nós através dos recursos da sétima arte.

De todos os musicais que eu já vi, o que deixa isso mais claro é Chicago. Onde as músicas são retratadas exatamente como isso, um grande espetáculo que ocorre em um palco separado da história em paralelo com o que está realmente acontecendo, onde os personagens podem cantar sobre o que está realmente rolando além do que está sendo literalmente dito.

WeBothReachedfortheGun
O que estamos vendo.
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O que está rolando.

Ou seja, o que tá rolando é a mesma coisa com ou sem a canção. Colocar a canção é além de uma escolha estética, uma escolha narrativa. Se estamos bem acertados quanto a esse ponto, podemos falar sobre quais são as vantagens de se ter a canção no filme.

 

Substituição de possíveis monólogos:

OnMyOwn

A primeira vantagem é a de substituir um monologo. Imaginem a seguinte cena agora. Temos nosso vilão, ele está em frente a lareira refletindo. A câmera está filmando ele de frente e então ele começa a pensar sobre tudo o que ele está sentindo, na solidão de sua reflexão em frente a lareira. Ele pensa seus objetivos, seus sentimentos, seus conflitos e temos essa cena filmando ele pensando isso para nós em forma discursiva por sólidos cinco minutos. Seria maçante. Monólogos podem funcionar bem em teatro shakesperiano, mas no cinema um personagem falando consigo mesmo só não é mais inativo do que ter somente a lareira sem o personagem.

Se o monologo em vez de discursado for cantado, pode-se adicionar ação e dinamismo, pode-se usar o ritmo e o pacing da música para passar emoção. Pode-se tomar liberdades com o visual da cena, e principalmente, o próprio texto dito pode ficar notavelmente menos maçante. Ao invés de um vilão falando para a lareira durante toda a cena, uma cena musical pode nos dar Hellfire. Uma cena que tira a maioria de seu impacto de sua música. Sem música é possível dar impacto a cena, mas deveria ser de uma maneira diferente. O importante é que: é mais fácil fazer um monólogo ser maçante e parado do que um número musical.

Hellfire
Afinal Hellfire está longe de ser uma cena maçante.

Em boa parte das canções que você for ver para um filme, o personagem estará cantando para si mesmo, e com isso a canção se torna uma alternativa ao personagem falar sozinho ou a um voice-over falar enquanto ele mantém sua face séria para mostrar o que ele pensa. As três possibilidades são soluções para nos fazer ver exatamente o que o personagem está pensando, pois nós normalmente não podemos ver o que as pessoas pensam, tem que ser nos contado de algum jeito. Um deles é pela canção, a canção permite uma maior demonstração de emoção, tanto pela entonação e ritmo, como pela performance que viria junto.

UpThere
Ou será que a gente iria realmente preferir ver o Diabo monologar sobre o que ele realmente quer da vida?

Demarcação de temas e rimas narrativas:

LittlePriest

Nos musicais, as músicas e canções servem como dialogo e como exposição de informação. Mas elas também servem de trilha sonora, por motivos óbvios. E assim, elas continuam cumprindo os papeis tradicionais da trilha sonora no filme. Um dos mais notáveis é o de fazer o leimotiv. Leimotiv, adaptado do francês le motif, é uma técnica musical introduzida por Wagnet, para suas óperas, onde uma passagem da música é associada a um personagem e repetida sempre que o personagem está em cena. Ou seja, sempre que o vilão aparecer, vamos tocar a música do vilão. Mas isso não precisa ser relacionado somente a personagens literalmente, pode ser relacionado a instituições, objetos, conceitos, temas e vários outros elementos da história, que sempre que trazidos a tona, são trazidos acompanhados da mesma música.

Como a boa e velha Imperial March, uma das passagens mais famosas de toda a trilha sonora de Star Wars e do trabalho de John Willians. Ela toca na trilogia original sempre associada ao Império e Darth Vader. Porém mesmo sendo o leimotiv oficial do Darth Vader, ela toca duas vezes no Episode II – Attack of the Clones, prequela dos filmes originais onde não tem nem império, nem Darth Vader, então pra que diabos vai tocar o leimotiv? Para nos mostrar o paralelo com os dois. A primeira vez que toca, é quando Anakin confessa ter matado todos os Tusken Raiders movido pelo ódio que tinha deles, o que obviamente servia para indicar que Anakin estava no caminho de se tornar Darth Vader, nos lembrar de que ele estava fadado a se tornar o vilão. A segunda vez, bem mais poderosa, é quando Palpatine observa de cima, os milhares de clones que formavam o exército da república, ao tocar a Imperial March nessa cena, podemos ver que apesar da ilusão de que os clones são o exército da república, e que são uma força do bem, e que o bem está triunfando, todo o filme serviu para a ascensão do vilão, Palpatine, e tudo que estamos vendo ajudará a sustentar o Império quando ele surgiu. E essa informação foi passada na trilha sonora. Esse é o poder dos leimotiv, eles se estabelecem quando seu personagem está presente, mas falam muito mais quando seu personagem está ausente.

CloneArmy
Não é tão incomum a conotação de uma cena mudar completamente por conta da trilha sonora. Mas nesse caso tem menos a ver com a maneira como ela é orquestrada e mais com a familiaridade que ela nos remete. Não funciona se você não reconhece a música por causa dos outros filmes.

Nos musicais, as canções servem propósitos muito parecidos. Quase todo musical possui, se não uma reprise declarada, duas músicas que exceto pela letra são idênticas uma a outra. E a semelhança da música não é preguiça do compositor, é que essas músicas idênticas existem para forçar uma comparação entre elas, e ao forçar uma comparação entre elas, ela força uma comparação entre as cenas em que são cantadas.

Em Tangled da Disney, a personagem Gothel, mantém Rapunzel sempre em seu controle, sendo carinhosa e preocupada com sua filha adotiva, mas ao mesmo tempo sendo abusiva e a mantendo insegura, despreparada e covarde em relação ao mundo. Isso se demonstra na canção Mother Knows Best, onde ela alimenta diversos medos em Rapunzel, para que ela nunca cogite sair para explorar o mundo fora de sua torre. Porém no meio do filme, quando Gothel descobre que Rapunzel eventualmente saiu e explorou o mundo, ela muda sua abordagem, e canta uma reprise de Mother Knows Best. Na reprise ela joga na cara de Rapunzel que tudo o que ela acredita é uma ilusão de uma garota apaixonada sem experiência de vida e que ela não é madura como acha que é, novamente tentando deixar Rapunzel insegura, para continuar sob o controle da mãe, porém sem a fachada de carinho e proteção que marcava o relacionamento das duas no começo do filme. O fato de nas duas cenas, a exata mesma canção ter sido usada evidencia o quanto a postura de Gothel mudou entre as cenas, pois força uma comparação entre os dois momentos.

E em qualquer reprise isso acontece. Toda reprise remete o expectador imediatamente à cena da canção original, e força a comparação e nossa atenção para o que as duas canções têm de diferente, o que quase sempre é um detalhe no contexto em que foram cantadas.

No caso de Mother Knows Best e sua reprise, ambas as canções foram cantadas pela mesma personagem, e a mudança no tom na música destacou a mudança na postura da personagem, mas essa rima temática que a repetição de uma música causa, se torna ainda mais interessante quando não é o mesmo personagem que canta a música pela segunda vez, pois nos traz à terceira grande função das canções de um musical em sua narrativa.

Acentua a dinâmica entre os personagens.

Personagens. São a espinha dorsal de um enredo, são aqueles que vivem a história e que causam a ação e os conflitos e o drama e tudo o que torna uma história interessante. E em geral, quanto mais interessantes são os personagens, mais interessante é a história.

E agora vai um grande segredo escondido. Grande parte do funcionamento dos personagens vem da maneira como ele interage com outros personagens. Por semelhanças e contrastes. Pois bem, podemos ver toda a insegurança e receio que Walter White tinha de entrar no mundo do crime, pois ele estava constantemente sendo contrastado com Jesse Pinkman que estava estabelecido naquilo que fazia e não tinha problemas em ser um fora da lei. O quanto Walter não pertencia aquele mundo de crime e drogas ficava explícito, pois o tempo todo ele contrastava com Jesse, que pertencia. Dessa maneira, ao longo de Breaking Bad, Walter se adentra no mundo do crime, e podemos ver o quanto ele cruzou a linha da ética, pois novamente ele continuou sendo contrastado com Jesse Pinkman, que mesmo sendo criminoso tinha um senso de moral que o tornava extremamente desconfortável ao ser colocado como cúmplice das ações de Walter. Podíamos ter uma noção do senso moral e ético de Jesse pelo contraste com Walter, e vice-versa.

BreakingBad
A dupla dinâmica.

Don Quixote só é heroico, pois ele tem sempre ao seu lado Sancho Pança, que é covarde, e por contraste exalta o quão heroico seu parceiro é. Personagens opostos tiram o melhor um do outro.

Da mesma maneira personagens semelhantes também trabalham um ao outro. Darth Vader e Luke Skywalker, mesmo de lados opostos de uma guerra galática, acreditavam na força, uma religião que perdia espaço na galáxia muito distante. Os aliados de Luke zombavam dele por crer na força, e os de Vader idem. Então mesmo com todas suas diferenças, eles tinham essa conexão entre eles, que era uma constante lembrança de que Vader já foi como Luke e que eles não estão tão separados assim, o que dava a Luke o temor de um dia ser igual a Vader. Essa característica semelhante entre dois personagens colocava muito mais conteúdo em suas interações.

ImperioContraAtaca
O medo de estar seguindo os passos de Vader é acentuado pelo fato dos dois terem a mesma origem, e isso era antes de Luke e o expectador descobrirem o grande spoiler.

Em resumo. Personagens tem sua essência trabalhada quando colocados para interagir com outros personagens, através da semelhança e do contraste. Mas o que isso tem a ver com personagens fazendo cantorias no meio dos filmes?

Bom, vamos pegar o Jean Valjean de Les Miserables, ele era um ladrão que atingiu a redenção e resolveu se tornar um bom homem após receber genuína generosidade de um bispo. E canta a música What have I done, em vez de fazer um monólogo, nos explicando a força do arrependimento dele e o tamanho da mudança e do novo homem que ele está se tornando. Mais pra frente no filme, a canção será repetida, dessa vez cantada não por Valjean, mas por seu inimigo Javert, o policial que não acredita em redenção e que faz questão de prender Valjean não importa que sinal se redenção ele demonstre. Quando Javert tem seus ideais e visões de mundo abalados e começa a mudar como pessoa ele canta a exata mesma música que Valjean, indicando que as duas cenas falam da mesma coisa, mesmo com personagens diferentes.

O fato de ambos estarem cantando a mesma música, põe em evidência como a experiência pela qual os dois personagens passa é comparável, como apesar de Javert odiar Valjean, ele está passando pelo mesmo que seu inimigo passou. Porém o fato de que as duas canções têm finais bruscamente diferentes, nos aponta exatamente qual é a grande diferença entre os dois homens.

Existem diversas adaptações não-musicais de Les Miserables, muitas delas excelentes (pessoalmente acho que a versão em que o Liam Neeson interpreta Jean Valjean é muito melhor que a versão musical), e nessas versões, o conflito interno de Valjean e Javert nunca é colocado lado a lado para comparação, e não dialogam entre si. Esse é um recurso de linguagem usado para enriquecer em muito a história que foi possível graças ao formato musical do filme.

Da mesma maneira, quando Javert e Valjean batem boca, onde Valjean se defende de seus crimes enquanto Javert o acusa dos mesmos, os dois cantam ao mesmo tempo e não tem harmonia na música, pois as falas de um atropelam a do outro, mostrando o grande conflito e inimizade que existe entre os dois homens.

Confrontation
O constante conflito entre os versos reflete o conflito entre os personagens.

Qualquer dueto é capaz de trazer a tona nuances da relação entre dois personagens. Em Frozen, o quão diferentes eram as perspectivas de vida de Anna e Elsa é algo que fica muito claro em For the First Time in Forever, quando Anna canta com uma grande empolgação sobre a abertura dos portões, enquanto Elsa canta com receio e medo sobre o mesmo evento. Ou ainda em Sweeney Todd – The Demon Barber of Fleet Street. Johanna é para ser uma música romântica cantada pelo jovem marinheiro que deseja roubar Johanna da prisão que é seu quarto e ficar com ela. É uma canção de esperança e de amor. Porém quando Sweeney, o pai de Johanna que não vê a menina desde que era um bebê, canta a reprise dessa mesma canção, ele canta uma canção desesperançosa, se despedindo da possibilidade de qualquer dia poder rever a filha, e abraçando a própria loucura como uma das poucas coisas que lhe restaram em vida.

Johanna
Sweeney Cantando durante a reprise de Johanna

Da mesma maneira na canção Pretty Woman, Sweeney está cara a cara com o juiz que roubou Johanna dele, e este não reconhece seu inimigo. Enquanto se prepara para se vingar do juiz, Sweeney finge amizade com ele cantando uma canção sobre as belas amizades e os dois começam um dueto sobre o que eles amam sobre as mulheres. Os dois homens foram apaixonados pela mesma mulher, e esse é o início de todo o conflito entre eles que culminou no ódio mortal que Sweeney tem pelo juiz. A canção constrói naquilo que sabemos que os dois têm em comum: uma paixão pelo sexo oposto. Porém a canção também funciona adicionando uma grande tensão na cena, por ser uma música alegre e inocente, enquanto o expectador vê a cena toda esperando que Sweeney mate o juiz a qualquer minuto, sabendo o quanto de seu ódio ele está segurando enquanto canta. É uma cena poderosa (na minha opinião, a melhor cena do filme), que usa a música não só para trabalhar o que os personagens tiram um do outro, como para gerar uma enorme tensão.

PrettyWoman

Em Grease, na icônica cena Summer Nights, o fato de Danny e Sandy estarem usando a exata mesma cena para descrever como foi o verão, é o que dá destaque para o fato deles estarem dando foco em coisas completamente diferentes nas suas descrições.

Montagens de tempo.

AcrosstheUniverse

Por ultimo, um uso muito comum das músicas em um musical, são as montagens musicais.Que tem como seu principal objetivo fazer uma cena curta mostrar resumidamente uma passagem longa de tempo.

E como fazer isso? Intercalando várias cenas com grandes intervalos de tempo entre elas, para mostrar o tempo passando e o que está mudando enquanto isso (ou também, o que não está mudando enquanto isso). Muito simples, mas o que vamos fazer enquanto temos essas ceninhas intercaladas? Ah, vamos passar uma música.

Montage
“Mostre um monte de coisas acontecendo ao mesmo tempo, lembrando todo mundo do que está rolando. Cada plano mostra um pequeno avanço para resumir o que demoraria muito. Isso se chama montagem. Em qualquer situação em que você precise ir, de iniciante a profissional, vai precisar de uma montagem. Até Rocky teve uma montagem.”

Mesmo filmes não-musicais sempre colocam uma música nessas horas. Porém se o filme é um musical, ai um dos personagens pode ser o cantor dessa montagem, ou a letra pode ser mais significativa. No mínimo tendo sido composta para o filme. O importante é que qualquer cena de música vai resumir a cena em no máximo 4 minutos, e dependendo do que seria o contexto da cena, talvez fosse algo que em um discurso mais literal não durasse tão pouco tempo. O número musical tem o poder de encurtar a cena.

ZerotoHero
Pra que mostrar as grandes batalhas do Hercules se o filme não é sobre elas? Narrativamente isso é resolvido com um grande resumo das batalhas e suas consequências ao som da canção mais foda do filme.

 

Agora, eu pessoalmente eu sempre me frustro quando eu vejo que musical ainda nos dias de hoje é classificado como um gênero pelas pessoas. No Globo de Ouro tem uma categoria chamada “melhor filme de comédia ou musical”, deixando claro que um musical nunca concorreria a melhor filme do lado de um “filme de verdade”, e sim sempre ao lado das comédias. Como se um filme como Hair tivesse mais em comum com um filme do Steve Carrel do que tem com um filme político. E o pior, dizendo que musical é um gênero.

Genres

Quando se divide um filme por gêneros, geralmente essa divisão nos ajuda a saber o que virá até nós. Então se eu vou ver um filme de terror, pela classificação eu já posso esperar que venha um filme que fale de coisas sobrenaturais, e não devo me surpreender se o protagonista morrer na última cena, mesmo sendo o protagonista, pois afinal é um filme de terror. Se eu vou ver um filme de ação eu devo esperar muita cena de ação, muita porrada, e não devo esperar uma grande e elaborada história, pois eu sei que a maior parte do tempo do filme vai ser dedicada a cenas de gente se batendo em cima de trens com uma grande bomba embaixo deles. Se eu vou ver um filme de Super-Heróis, eu espero personagens caricatos, uma suspensão da descrença quanto ao uso de tecnologias no filme, um plano de um vilão elaborado, porém levemente ridículo, mais humor que o de costume para equilibrar com a ação e uma história que não é grande coisa. Os gêneros já te alertam quanto ao que esperar. Mas de um musical eu espero o quê? Só que os personagens falem cantando de tempos em tempos, mas honestamente, eu não acho que Sound of Music, Chicago, Grease, Hair, Les Miserables, Sweeney Todd, RENT, e Singing in the Rain, sejam farinha do mesmo saco, onde tendo visto um, já dá para saber o que esperar do outro. São filmes extremamente diferentes em relação ao clima que eles passam e a qual tipo de emoções eles trabalham no expectador.

Musicais
Note como são todos muito parecidos um com o outro.

Musical não é um gênero. É um estilo estético. É uma linguagem. É um recurso narrativo. Podemos ter musicais de comédia. Musicais de drama. Musicais políticos. Musicais de suspense. Musicais de terror. Qualquer gênero pode se tornar um musical, e a verdade é que saber que o filme é um musical não diz nada sobre o filme se você não sabe o gênero do filme.

Mas essa ideia ainda é muito forte. Tão forte que Into the Woods trabalha com isso, usando a expectativa de seu público para chocá-los, se introduzindo como um conto de fadas normal, mas desconstruindo completamente o gênero de uma maneira violenta e cínica, o que pega o público ainda mais de surpresa por ser um musical, e ninguém esperar cinismo em um musical, embora devessem.

Intothewoods
E a peça é ainda mais tensa. Pessoalmente eu acho que o filme falhou em pegar completamente o clima desconstrutivo da peça e não ficou tão bom assim. Mas definitivamente não é um conto de fadas feliz.

Mas ainda sim, seguimos, em 2016, achando que musical é um grande gênero. Assim como tem gente que acha que animação é um gênero. E essa ideia força o esteriótipos de que musicais são ou deveriam ser todos parecidos. Assim como tem gente que acha disso de animações. Aí quando um musical tenta sair desse estilo os comentários começam com “mas nem parece um musical.”

Mas acho que se pararmos de achar que filmes musicais são um gênero, que estão atrelados a regras, que são indignos de concorrer em Globo de Ouro, e que precisam de uma sessão própria das lojas para separá-los dos filmes de verdade. E se pararmos de achar que os filmes são inverossímeis, pois os personagens começam a cantar do nada, e que não dá para levar a sério um filme em que alguém cante do nada, talvez só então possamos ver o quanto a música pode adicionar a uma história, e como o formato musical agrega muito aos seus filmes, e poderia agregar ainda mais.

HughJackman
Hugh Jackman com seu Globo de Ouro por “Melhor ator em filme que concorre por fora.”

3 thoughts on “Musicais: Quais as funções narrativas das canções?

  1. Bom texto, me deixou pensando sobre os musicais. Muita gente não gosta talvez por uma questão cultural no Brasil – já que nacionalmente é pouco usado e desprezado- eu não sou muito fã porque me cansam, especialmente se tem muitas músicas e tbm pq as vezes a cena musical parece cobrir a falta de um bom texto, ou então é dispensável. Há alguns filmes, porém, que eu considero esse recurso bem usado – como em Chicago, que vc explicou perfeitamente a razão- dancer in the dark, e Moulin Rouge.
    Uma outra obra que segue o estilo e eu adoro é a série Crazy Ex Girlfriend. O bom é que a história por si só é muito boa e as cenas musicais são compactas, explicitando as críticas que o show faz e reforçando o humor e a ironia da série. Se vc ainda não vê recomendo muito.

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