A Song of Ice and Fire – Petyr, Bronn, Davos e a ascensão social.

Uma das coisas mais interessantes de se fazer com uma série de livros onde temos pelo menos 14 personagens que podem ser considerados protagonistas, e mais uma legião de secundários que fazem a soma total de personagens nomeados relevantes passar de 100… é comparar eles entre si.

Um exemplo do número grande de personagens na série. Fanart feita por dragonistall.
Um exemplo do número grande de personagens na série. Fanart feita por dragonistall©

Afinal, uma das coisas mais bonitas em acompanhar uma obra com foco em personagens, é ver como os arcos desses personagens dialogam entre si e como tanta semelhança quanto contraste permitme que colocando-os lado a lado você entenda um pouco mais sobre os dois.

Pois ao entender que, por exemplo, Kei Kurono e Nishi possuiam rancores semelhantes em relação a sociedade a sua volta, devido ao constante bullying, inadequação social e exclusão familiar, eles tinham tudo para tomarem os mesmos rumos da vida, e são paralelos um dos outros. Por isso quando eles tomam rumos diferentes, as diferenças entre eles são acentuadas, justamente por se revelarem entre uma grande quantidade de semelhanças, e podemos ver como ambos foram influenciados por pessoas diferentes que mudaram seus rumos. E são as experiências semelhantes e as diferentes que tornam os dois personagens únicos e em constante dialogo um com o outro.

E é por isso que Gantz é lindo.

Mas, no caso, eu quero chamar a atenção para três personagens da série de livro A Song of Ice and Fire, conhecida por ter sido adaptada para televisão na premiada série da HBO, Game of Thrones: Davos Seaworth, Bronn e Petyr Baelish, também conhecido como Littlefinger.

Bronn
Ser Bronn de Blackwater
Davos
Lord Davos Seaworth
Petyr
Lord Petyr “Littlefinger” Baelish

Alias, ao lado do blog tem um tradicional aviso explicando que todos os posts contém spoilers, e este não é uma exceção; no entanto acho válido comentar que os spoilers vão abranger tanto a série de livros, quanto a série para televisão, que tem muitas diferenças narrativas, mas ambas vão ser usadas para analisar os personagens, portanto, os danos podem ser dobrados. Spoilers a seguir.

Beware for Spoilers!!!
Beware for Spoilers!!!

Então vamos lá: A Song of Ice and Fire, série de livros de fantasia épica, passada em um mundo que exceto pela adição de alguns elementos mágicos, simula com alguma precisão, a mentalidade e a sociedade do que foi a época medieval na Europa (em particular o feudalismo). E foca na alternância de poder que o fictício reino chamado Sete Reinos têm entre as diversas famílias da nobreza que desejam o poder e jogam o jogo dos tronos para isso.

Tanto o livro quanto a série chamam também a atenção pelo fato de que além de ter um número extremamente alto de personagens centrais dividindo os holofotes, os personagens podem morrer ou ser vítimas de plot-twists não-letais independente do quão centrais são para a trama, dando uma constante tensão de que ninguém está imune a próxima vítima do sadismo de George R. R. Martin.

Alguns personagens não morrem, mas perdem uma mão, o que no ponto de vista do leitor, não é menos surpreendente nem menos impactante.
Alguns personagens não morrem, mas perdem uma mão, o que no ponto de vista do leitor, não é menos surpreendente nem menos impactante.

A morte de Ned Stark, construído para ser o mais próximo que a série tinha de um protagonista, logo no começo da história cimentou esse medo de que não tava fácil para ninguém.

Ninguém, mas três personagens chegam bem perto. Littlefinger, Bronn e Davos, são os três únicos personagens da série que após cada evento da série ascendem socialmente sem nunca terem decaído em sua posição social. O que traz para o centro da discussão o tema da ascensão social.

“O poder está, aonde as pessoas acreditam que ele está. É só um truque. Uma sombra na parede, e as vezes um homem pequeno pode formar uma sombra grande.”

A série se passa em um mundo nos moldes medievais, onde os nobres eram nobres porque nasceram nobres e a ralé era ralé porque nasceu ralé. Onde bastardos eram excluídos da sociedade, e os governantes eram governantes pois descendiam os governantes anteriores. Muita coisa muito relevante era decidida por origem e linhagem, e mudar o status quo é uma tarefa árdua, que requer além de muito esforço, muita sorte.

Ou também sendo muito ardiloso, como foi o caso de Littlefinger. Petyr Baelish conseguiu esse apelido, pois ele vem de uma região chamada “os dedos”, que são as terras menos valiosas que se pode possuir. E de todos os dedos, a Casa Baelish governa menor deles. O que em resumo explica que Petyr é o nobre com menos poder em todos os Sete Reinos. Ainda sim, um nobre, claro, mas abaixo de qualquer outro nobre na série.

Petyr cresceu no castelo de Riverrun com os membros da Casa Tully, onde se apaixonou por Catelyn Tully, uma garota nobre e de alto status social que tinha a idade dele e eles eram muito amigos. Porém ela já estava prometida a Brandom Stark, que seria o herdeiro do Norte, a maior região dos Sete Reinos. E o que um Baelish podia fazer quanto a isso, sendo que nada politicamente bom poderia ser oferecido para convencer a menina a se casar com ele no lugar? Ele não era nada. Pois bem, ele resolveu desafiar Brandom em um duelo, e só não foi morto no duelo pois Catelyn pediu ao noivo para poupá-lo, mas Petyr saiu com uma humilhante cicatriz da experiência, para constantemente lembrá-lo do que ocorreu.

-Talvez você tenha escolhido o homem errado para duelar. -Ah, mas não foi o homem que eu escolhi, foi Catellyn Tully, uma mulher digna de um duelo, tenho certeza de que você concorda.
-Talvez você tenha escolhido o homem errado para duelar.
-Ah, mas não foi o homem que eu escolhi, foi Catellyn Tully, uma mulher digna de um duelo, tenho certeza de que você concorda.

A irmã de Catelyn, Lysa, por outro lado, era apaixonada por Petyr, e se relacionou com ele aproveitando a fossa do rapaz, em uma situação onde o consenso de Petyr era duvidoso, e engravidou. A reação do patriarca dos Tully ao saber do ocorrido foi a de abortar o bebê, pois Petyr era ninguém e isso arruinaria as chances de Lysa casar com alguém. Não que Petyr amasse Lysa ou algo do gênero, ele só tinha olhos para Catelyn, mas ainda sim, um lembrete de seu status social inexistente. Porém Petyr era ardiloso, e sabendo da paixão de Lysa, manteve contato com a garota, mesmo depois que ela se casou com Jon Arryn, um dos líderes de uma revolução que depôs o rei anterior e colocou outro rei no lugar. E com um novo rei, um novo conselho, onde Lysa convenceu Jon Arryn a convencer o novo rei a colocar Littlefinger como Líder das Finanças do reino.

“Ah, ele era esperto. Ele não meramente coletava ouro e guardava em um cofre. Ele pagava as dívidas do rei com promessas, e fazia o dinheiro trabalhar. Comprou carroças, navios, lojas, casas. Comprava cereais quando tinham muitas e vendia o pão quando tinha pouco. Os dragões de ouro cruzavam e se multiplicavam, e Littlefinger os emprestou e trouxe para casa com filhotes. No processo ele colocava seus homens em seus lugares, os guardiães das chaves pertenciam a ele, todos os quatro. O contador do rei e a balança do rei eram homens que ele nomeou. Ninguém questionava essas indicações, por que deveriam? Littlefinger não ameaçava ninguém. Esperto, sorridente, genial e amigo de todo mundo, capaz de conseguir quanto ouro o Rei ou a Mão precisarem. E ainda sim um homem de linhagem peculiar, pouco acima de um cavaleiro. Não é um homem a se temer, não tem aliados para chamar, nenhum exercito, nenhuma posse, nenhuma perspectiva de um bom casamento.” (LANNISTER, Tyrion)

Parece um alto cargo, mas não é. Também não é uma honra, vejam bem: estamos falando de uma época em que a nobreza era herdada, e os títulos valiam mais do que dinheiro. Ser bom com dinheiro, saber administrar, economizar, barganhar, etc… era coisa de quem lidava com dinheiro, e dependia dele, e nobres, lordes e reis não fazem isso. Quem faz isso é povão. A habilidade de Littlefinger de administrar bem o dinheiro é um vestígio do fato de que a casa nobre dele é a mais baixa de todas. Mesmo sendo um dos poucos membros do conselho real, ele ainda era visto como inofensivo.

Visto como, pois manipulador como é, Littlefinger já havia aprendido a jogar o jogo dos tronos nessa altura do campeonato. E ele estava disposto a viver compensando o amor que perdeu e a humilhação que seu status social lhe deu. Ele percebeu que sua fachada de inofensivo e a imagem de “útil para todo mundo e inimigo de ninguém” que ele passava serviria para seus interesses enquanto ele secretamente manipulava várias pessoas que possuíam real poder. Além de Mestre da Moeda, ele também mantinha sua rede de relações e de espionagem administrando os bordéis da capital real, que muitos cavaleiros e nobres frequentavam.

Petyr esconde Catelyn em um bordel, onde ninguém jamais entrará para procurar uma mulher de linhagem nobre.
Petyr esconde Catelyn em um bordel, onde ninguém jamais entrará para procurar uma mulher de linhagem nobre.

Ele é um homem que usa muito de sua inteligência, uma vez que a única vez que ele usou de sua força resultou em uma cicatriz que o lembra de como ele perdeu a mulher que ele amou. E embora a gente só descubra no terceiro livro, diversos acontecimentos centrais do primeiro foram planejados por ele. Ele manipulou Lysa Tully (agora Arryn) a matar seu marido, Jon Arryn e confidenciar à irmã que os assassinos eram os membros da Casa Lannister, e manipulou Catelyn Tully (agora Catelyn Stark) a achar que Tyrion Lannister havia tentado matar seu filho, tudo para causar uma guerra entre a Casa Stark e a Casa Lannister.

Guerra essa, que ele ajuda os Lannisters a ganhar. E em sua vitória, a casa vencedora, agora mais solidificada no poder do que nunca, recompensa Petyr Baelish com um título: Lorde Supremo do Tridente, o que significa que ele é o nobre que comanda toda uma das nove regiões onde se dividem os Sete Reinos. Ele também ganha um castelo que ele nunca ocupa pessoalmente.

Agora, ele começou a guerra manipulando os Starks a irem brigar com os Lannisters, mas quando ela começou, traiu os Starks (o que na série ele faz bem literalmente colocando uma adaga no pescoço de Ned Stark), e ajudou os Lannisters a ganharem a guerra.

PetyrTraiNed

Uma vez que a rainha regente, o filho dela que era rei, e a mão do rei eram todos Lannisters no momento, pareciam aliados capazes de dar recompensas maiores. E isso exemplifica bem o modus operandi de Littlefinger. Ele provavelmente não tinha calculado toda a proporção que a guerra tomaria, só torceu para ser caótico o suficiente para lhe dar a chance de ascender em meio ao caos.

Petyr não é leal, ele fica aliado com os Lannisters até que seu recém-adquirido status de lorde permite que ele consiga se oferecer em casamento para Lysa Arryn, que ele deixou viúva. Jon Arryn era o senhor de outra das nove regiões, chamada O Vale, que agora estava nas mãos de Lysa e do filho do casal, Robert. Bem, Lysa era apaixonada por Petyr e aceitou-o em casamento sem hesitar, o que dava a ele o título de Lorde Protetor do Vale, dando duas regiões para Littlefinger governar. A primeira coisa que ele faz quando consegue o título é planejar a morte de sua recém-esposa Lysa, agora que ele não tem mais utilidade para ela, afinal embora tenha usado-a para décadas, ele nunca a amou. A única mulher que ele já amou foi Catelyn.

Petyr negociando termos com os outros nobres do Vale após a morte de Lysa, definitivamente estabelecido no local como aquele que governa em nome do filho de Lysa, Robert.
Petyr negociando termos com os outros nobres do Vale após a morte de Lysa, definitivamente estabelecido no local como aquele que governa em nome do filho de Lysa, Robert.

E claro, pouco antes de se casar ele ainda planejou a morte do rei que ele ajudou por muito tempo, afinal, existe outra família chamada Tyrell se aproximando do poder, e ele quer estar em bons termos com eles, facilitando o caminho deles, já que agora os Lannisters já não são mais grande coisa.

E assim discretamente, o menor nobre dos reinos, hoje é uma figura extremamente influente no universo da série e detêm poder significativo, controlando duas das nove regiões do reino.

E não se contenta, na série ele explicitamente demonstra que tem intenções de incluir o Norte, terra dos Starks, na lista de regiões controladas por ele. No livro ele demonstra intenções de colocar Sansa Stark, filha de Catelyn controlando o norte, provavelmente para controlar com ela, porém uma ambição mais sutil que a da série. Independente da versão, é visível que Petyr Baelish ainda não acha que cresceu o suficiente, e provavelmente não vai parar de manipular mortes e caos até estar olhando todos os Sete Reinos de uma posição elevada.

Littlefinger negocia com a rainha a ajuda dele em troca do título de Guardião do Norte.
Littlefinger negocia com a rainha a ajuda dele em troca do título de Guardião do Norte.

O truque de Littlefinger é permanecer com a aparência de inofensivo. Sempre descrito com um sorriso amigável, muitos personagens sabem que ele não é confiável, mas confiam nele mesmo assim, pois acreditam que ele não tem poder para fazer nada contra eles. Os únicos que desconfiam de Littlefinger como um grande jogador do jogo são Varys e Tyrion, dois grandes jogadores, por si só.

Littlefinger é um dos homens mais perigosos do reino. Nasceu sem dinheiro, sem terras e sem exercito. Agora ele já conseguiu os dois primeiros, quanto tempo até ele conseguir o exercito? Ele deixaria o reino pegar fogo, se pudesse ser o rei das cinzas.
Littlefinger é um dos homens mais perigosos do reino. Nasceu sem dinheiro, sem terras e sem exercito. Agora ele já conseguiu os dois primeiros, quanto tempo até ele conseguir o exercito? Ele deixaria o reino pegar fogo, se pudesse ser o rei das cinzas.”

Varys, ele próprio sendo um imigrante eunuco que cresceu até o conselho real, mas com ideais bem menos egoistas que os de Littlefinger, consegue identificar bem a índole do nobre por experiência.

Baelish é bem discreto em suas ambições, nunca deixa os demais descobrirem seus objetivos (ele acredita que quando sabem o que você quer, as pessoas passam a saber como te manipular) e mesmo pro leitor alguns de seus objetivos ainda são incertos. Entendemos seus rancores, mas não entendemos completamente o que ele quer no final. Ele é altamente pró-ativo em gerar o caos no reino, sabendo que do caos sairão suas oportunidades de ascender socialmente, e embora sempre pareça aos olhos dos demais que ele não tem poder para fazer grande coisa, debaixo do nariz de todos ele está crescendo e acumulando muito poder.

“O Caos não é um abismo… o caos é uma escada.”

Agora, outro personagem que teve uma notória ascensão na série, foi Bronn, braço-direito do Tyrion por um período considerável de tempo nos livros. Bronn era um mercenário, ele era um guerreiro notório, com grande talento para a espada e para matar pessoas, e vendia seu talento para qualquer pessoa que precisasse matar alguém. Pouco sabemos de sua origem, além de que ele apanhava do pai. Quando Tyrion foi introduzir Bronn ao seu pai ele o introduziu como “Bronn, filho de…” e Bronn completou com “…vocês nunca ouviram falar nele.” Este cresceu como parte do povão mesmo, tendo como única arma para sobreviver no mundo medieval, um talento nato em matar pessoas.

-Seu pai batia em você... -Mas minha mãe batia mais forte.
-Seu pai batia em você…
-Mas minha mãe batia mais forte.

E estava ele em uma taverna, bebendo e cuidando da própria vida, quando aparece Catelyn Stark na taverna, pedindo por aliados para aprisionar Tyrion Lannister e levá-lo até o castelo The Eyrie. E bem, Bronn não estava fazendo nada, por que não? Obviamente teria uma boa recompensa.

Mas não demorou para Bronn notar que Catelyn não ia dar tantas oportunidades de vida para um mercenário, e que Tyrion sim, era uma pessoa para dar recompensas. Então ao chegarem no Eyrie, Tyrion pediu para ser julgado por suas acusações, em combate, e Bronn se voluntariou para ser o campeão de Tyrion no duelo… que Bronn venceu lutando muito sujo. Catelyn e Lysa olham com desprezo para a vitória de Bronn, mas vitória é vitória, quem se importa? Não Bronn, ele se importa em ser recompensado por Tyrion que o toma como guarda-costas nesse dia.

-Você não luta com honra. -Não... [meu adversário] lutava.
-Você não luta com honra.
-Não… [meu adversário] lutava.

Tyrion era absurdamente rico, e ser guarda-costas de um nobre com o dinheiro que Tyrion tinha, certamente já era uma tremenda sorte, mas a sorte aumenta quando Tyrion acaba sendo nomeado Mão do Rei, graças a eventos que impediram o pai de Tyrion de ocupar o posto, e Bronn logo se viu servindo a Mão do Rei, não um anão rico qualquer. Ele lutou em uma batalha para proteger a cidade de Stannis Baratheon que estava invadindo, e ajudou a impedir a invasão e proteger a cidade. Ao fim da batalha, todos os méritos de Tyrion na guerra são ocultados e o chefe de Bronn é tratado feito lixo. Mas Bronn recebe os créditos por sua ajuda, e ganha o título de cavaleiro. Agora esse mercenário que nunca teve nada de valioso é um cavaleiro. Ser Bronn de Blackwater, de agora em diante.

A estrategia de Tyrion para vencer a batalha de Blackwater pode ser resumida em uma grande corrente cercando os navios de Stannis enquanto um fogo selvagem verde preparado por alquimistas incendiavam os navios de Stannis. No livro o papel de Bronn na estrategia era acionar a corrente, na série, se tornou ascender o fogo.
A estrategia de Tyrion para vencer a batalha de Blackwater pode ser resumida em uma grande corrente cercando os navios de Stannis enquanto um fogo selvagem verde preparado por alquimistas incendiavam os navios de Stannis. No livro o papel de Bronn na estrategia era acionar a corrente, na série, se tornou ascender o fogo com uma flecha em chamas.

Bom, ele continua ao lado de Tyrion por mais um tempo, até Tyrion, desrespeitado como ele é, se torna o suspeito número um no assassinato do rei, que foi morto por Littlefinger, e vai ser julgado. Sabendo que a justiça nunca vai ser feita pelos seus juízes, Tyrion pede um julgamento por combate, mas Bronn se recusa a lutar pelo chefe pela segunda vez.

Por que? Pois ele foi comprado. Para que Bronn não lutasse por Tyrion, lhe foi oferecida uma esposa de linhagem nobre. Não a melhor das esposas, ela tem alguma espécie de atraso mental, e está grávida de um estupro coletivo, mas por Bronn tudo bem. Com a esposa vinha um castelo, e nobreza, agora ele ia ser oficialmente parte da nobreza. Tyrion sempre soube que Bronn era traiçoeiro e ia pegar a melhor oferta e não levou pro pessoal, os dois se despediram como amigos e Bronn foi cuidar da sua vida, abandonando seu ex-chefe.

-Por que eu deveria correr esse risco? -Porque somos amigos. -Sim, nós somos, e quando foi a ultima vez que você arriscou a vida por mim? Eu gosto de você, mas gosto mais de mim.
-Por que eu deveria correr esse risco?
-Porque somos amigos.
-Sim, nós somos, e quando foi a ultima vez que você arriscou a vida por mim? Eu gosto de você, mas gosto mais de mim.”

Porém Tyrion escapa e Cersei, a rainha que odeia Tyrion, está convicta que mesmo casado, Bronn ainda serve ao anão, e por isso tenta arquitetar o assassinato de Bronn para fechar essa ponta solta. Ledo engano, é que ela mandou o senhor do castelo onde Bronn morava para fazer o assassinato. Bronn mata o lorde em um ato de inegável legitima defesa, e com o lorde morto, agora a esposa de Bronn é quem herdou o castelo, tornando Bronn o lorde do castelo Stokeworth.

Um mercenário que não possuía nada, ao identificar uma oportunidade abraçou ela e terminou se tornando um nobre, um tipo de ascensão que as chances de acontecerem para alguém do povo, são praticamente nulas.

Mas aconteceu com mais um personagem: Davos.

Davos no passado era um contrabandista, e assim como Bronn era um ótimo mercenário, Davos era um ótimo contrabandista, sendo um criminoso nos Sete Reinos, você não fica muito tempo vivo se não for bom no que faz. A habilidade de Davos na navegação e no contrabando permitiu que quando Stannis Baratheon – na época um lorde, em uma batalha durante a rebelião que depôs o Rei Louco – estava sitiado em seu castelo por um ano tentando impedir que tropas inimigas o invadissem, Davos contrabandeou comida de fora para dentro do castelo por todo esse tempo para permitir que Stannis sobrevivesse. E como recompensa por isso, Davos foi nomeado um cavaleiro. Cavaleiro das Cebolas ele foi apelidado, pois cebola foi o principal alimento que ele transportou nessa época. Stannis também cortou fora um pedaço dos dedos de Davos como punição por uma vida de crimes, pois Stannis é desses. Mas Davos achou um pagamento justo por todos os crimes que ele cometeu, pois Davos é desses.

Mão de Davos faltando Davos.
Mão de Davos faltando a ponta de seus dedos.

O ponto é que Davos, com isso, se tornou um cavaleiro e sendo ele um criminoso que cresceu no bairro mais pobre da capital, e nunca almejou nada na vida, isso foi um acontecimento notável. Ele tinha sete filhos, e ser um cavaleiro significava que os filhos teriam uma vida de mais conforto do que ele teve.

-Eu não queria virar um nobre, quase não aceitei. -E por que aceitou? -Fiz pelo meu filho. Não queria ele pisando em um rio de merda sempre que saísse de casa.
-Eu não queria virar um nobre, quase não aceitei.
-E por que aceitou?
-Fiz pelo meu filho. Não queria ele pisando em um rio de merda sempre que saísse de casa.

Porém em um ponto da série, o irmão de Stannis, que havia vencido sua rebelião, deposto o Rei Louco e se tornado rei, morreu. E quando ele morreu, Stannis se declarou sucessor e passou a se chamar de rei. O irmão de Robert tinha um suposto filho que era, na verdade, um bastardo da rainha, porém foi coroado no lugar de Stannis, então Stannis começou uma guerra, junto a outros personagens que se coroaram reis de legitimidade questionável, em um evento conhecido como A Guerra dos Cinco Reis.

Na guerra, Davos lutou ao lado de Stannis como um bom conselheiro do não-oficial-rei, e como um dos almirantes da frota de Stannis, um alto cargo militar para um ex-contrabandista. Ao longo da Guerra, seus serviços como conselheiro lhe renderam que Stannis lhe desse terras, lhe nomeasse um lorde, e depois até mesmo nomeasse Davos como mão-do-rei, o que é o título de maior poder que alguém pode ter no reino sem ser rei.

Davos lutando como um dos almirantes na batalha de Blackwater.
Davos lutando como um dos almirantes na batalha de Blackwater.

Claro, Stannis não é reconhecido com rei por 90% do reino, então não é taaaanto poder que Davos desfruta sendo a mão do rei, mas é uma grande honra, e muito mais do que a maioria dos nobres sonharia alcançar, muito menos um ex-contrabandista.

Agora, o legal de Davos, é que o motivo pelo qual Davos é um bom conselheiro, é justamente porque Davos, é um cara simplão que cresceu num cortiço, e que não tem tanta ambição. Ele não puxa o saco de Stannis, nem fala o que Stannis quer ouvir, pois quer uma aliança com o rei. Ele é um amigo de Stannis que manda a real e fala o que pensa sem medo, e por isso seus conselhos são os mais sinceros. Ele é parte da mínoria que reconhece a autoridade do Stannis como rei, mas tem distanciamento político grande o bastante para não mudar o teor de seu discurso por estar falando com o rei. Além disso, Davos adquiriu muita sabedoria em sua experiência como contrabandista, ele viu muito do mundo, e aprendeu a lidar com pessoas em uma lógica que não a de um nobre. Em resumo, tudo o que torna Davos um aliado fundamental para Stannis está ligado a sua origem humilde.

Davos, assim como Bronn e boa parte do povo não-nobre cresceu analfabeto até a vida adulta, e foi ensinado a ler pela filha de Stannis, Shireen. De todo o salto social que ele deu na vida, dentre ganhar terras, ganhar uma frota, ganhar autoridade, ganhar poder, até mesmo ganhar um sobrenome, poucos elementos simbólicos da sua ascenção são mais valorizados por ele do que ter aprendido a ler. Ele constantemente se lembra de como é incrível saber ler, e incrível saber que seu filho sabe ler e seus netos saberão ler.

“Até que eu não fui mal. Sai da Baixada das Pulgas e me tornei Mão do Rei. E aprendi a ler e a escrever.” é o que pensa Davos quando acredita que está prestes a morrer.

Outro ponto destacável, é que Davos não tem ambição nenhuma de crescer. Ele entende que cada título novo que recebe de Stannis não é uma nova recompensa por anos de serviço, e sim uma nova responsabilidade que Stannis delega a ele por não poder confiar em mais ninguém. Conforme Davos ascende, ele não tira prazer de sua posição nova, ele é leal a Stannis e seguirá usando sua nova posição para ajudar a colocar Stannis no trono.

O que é o extremo oposto de como Littlefinger reage aos títulos que ganha, sempre que Petyr Baelish está perto de Sansa Stark (única pessoa perto de quem Petyr quebra a fachada, e com quem ele abertamente se gaba de sua manipulação). Littlefinger deseja ter o poder como uma maneira de apagar sua origem como um nobre baixo, mas mesmo um nobre baixo ainda é um nobre. Davos teve uma origem realmente humilde e não usa sua ascensão para apagá-la.

Os contatos que Davos adquiriu na sua época de contrabandista se tornam uteis na hora de conseguir aliados e favores para Stannis.
Os contatos que Davos adquiriu na sua época de contrabandista se tornam uteis na hora de conseguir aliados e favores para Stannis.

Acho curioso notar que Littlefinger, Bronn e Davos, além de serem os três personagens que estão em constante ascensão social, sempre terminando os eventos em situação melhor do que começaram, também são três personagens que tem em comum o fato de terem criado seus emblemas.

Pois na série todo personagem nobre tem um emblema que representa a sua família e fica em suas bandeiras e escudos e é passado de geração em geração para honrar o legado da família nobre e blá-blá-blá. E como isso é algo herdado, não cabe a 99% dos personagens da série escolher que imagem vai ter no escudo deles, exceto por esses três, dois que não começaram a série como nobres, e viraram nobres, e um que começou…

O fundador da casa Baelish, foi o avô de Petyr, um mercado de Braavos, que escolheu como insígnia para sua casa, a imagem de um Titã, que é o símbolo de Braavos, mas Petyr, em seu direito de único Baelish vivo na série, mudou isso, e adotou a insígnia do tordo, um passarinho inofensivo e pequenininho, no qual ninguém presta atenção. Um símbolo que visa ser o oposto da intimidação, o que é bem diferente do que a maioria dos símbolos almejam ser, pois Littlefinger quer passar desapercebido enquanto acumula poder e cresce.

O brasão da Casa Baelish, por Scafloc29
O brasão da Casa Baelish, por Scafloc29

O símbolo de Bronn, que ele passou a usar após se tornar cavaleiro, é o de uma corrente em chamas verdes. Uma vez que acionar uma corrente foi o seu papel na batalha para impedir a invasão de Stannis à capital. Essa batalha foi conhecida como Batalha de Blackwater, e após se tornar cavaleiro, Bronn passou a ser conhecido como Ser Bronn de Blackwater. Ou seja, Bronn se simboliza com marcas do evento de sua ascensão. Ele não é ambicioso como Littlefinger, ele meramente espera estar no lugar certo e na hora certa para abraçar uma oportunidade que ele sabe que não teria em outra vida.

Símbolo pessoal de Bronn. Imagem retirada de East of Essos.
Símbolo pessoal de Bronn. Imagem retirada de East of Essos.

Já Davos, tem como símbolo, um navio com uma cebola em sua vela. Uma referência direta ao seu passado de contrabandista e ao seu apelido de Cavaleiro das Cebolas. Davos não tem vergonha da sua origem, e não vê problema em reforçá-la em seu símbolo pessoal e no de sua família. Davos faz o oposto, ele sabe que quem a despreza nunca vai esquecer que ele começou como contrabandista de cebola, então usa isso como orgulho, para esse fato não poder ser usado como arma contra ele. Não é problema ter contrabandeado cebola, é o que ele é, e ele não vê problema em ser lembrado por isso, desde que possa fazer o seu melhor para seu rei.

Simbolo da casa Seaworth.
Simbolo da casa Seaworth.

Embora os três personagens estejam todos se beneficiando dos conflitos que ocorrem nos livros e crescendo a partir do caos que foi instalado, cada um dos três, tem reações, ambições e perspectivas bem diferentes quanto à própria ascensão. Petyr Baelish veio de um ponto baixo e atingiu um ponto alto, e obviamente almeja ainda mais para compensar por isso. Bronn sabia se virar em seu ponto baixo, deram a oportunidade a ele de subir e ele subiu, e está sabendo se virar enquanto cresce, um homem que aproveita as oportunidades, bem menos pró-ativo que Littlefinger. E Davos, veio do mais baixo de todos os pontos, e cresceu até um dos mais altos, e nunca realmente almejou o crescimento ou extraiu glória dele, os recebeu com extrema humildade, de quem quer somente fazer seu melhor para seu rei e sua família.

Claro que isso reflete também uma relação de moral. Davos é um dos personagens mais morais de Game of Thrones, que preza a Lei, preza os Sete Deuses e seus conselhos sábios para Stannis são sempre pautados em guiar seu rei para fazer o que é certo. O que é curioso dado que ele vivia uma vida de crimes, por necessidade. Contraste alto com Littlefinger que, é o mais próximo que a série tem de um vilão atualmente (não dá para dizer que A Song of Ice and Fire tenha um vilão principal, mas se tivesse, Littlefinger seria um forte candidato, junto de Joffrey e dos White Walkers). Bronn se distancia do contraste sendo completamente amoral, porém se distanciando de qualquer ato vilanesco ou manipulador (de fato, quase todas suas participações ele se posicionou do lado mais justo, por interesse próprio, porém justo), sendo um meio termo entre os dois, posicionado onde ele vê melhor chances para seu sucesso, mas sem realmente tomar um partido.

Com o sexto livro da série: The Winds of Winter, chegando nas livrarias em 2016 (talvez), fica a pergunta de se o laço comparativo que une esses três vai se manter, e como eles vão continuar posicionados no mapa social de Westeros, e caso decaiam, como decairão.

WindsofWinter

Eu aposto em uma queda bem humilhante para Littlefinger, provavelmente arquitetada por Sansa Stark, como uma ironia interessante, já que ele está tentando tornar ela tão manipuladora e ardilosa quanto ele, e pagaria por isso. Davos não tem para onde ascender, só se ele virar Rei ou se Stannis virar um rei de verdade, mas eu acho que Davos continuará estável em sua posição de braço direito do rei-legitimo-não-coroado. E Bronn é uma icognita, não tem como saber o posicionamento dele, mas não imagino ele se fodendo, ele é muito esperto e oportunista, mas ao mesmo tempo, não é pró-ativo o suficiente para invocar a força do karma (que por mais cínico que George R. R. Martin seja, o karma está sempre perseguindo seus personagens atrás de punições irônicas.)

Aguardo muitas boas surpresas para esses três personagens no ano que vem.

3 thoughts on “A Song of Ice and Fire – Petyr, Bronn, Davos e a ascensão social.

  1. Ótimo texto, Izzo!

    Mindinho sempre foi, pra mim, o personagem mais intrigante e misterioso da série. Que ele quer poder isso todo mundo sabe, mas elucidar de uma forma mais específica seus objetivos é muito difícil. Acho que você conseguiu ir para um lado correto.

    Quanto a Sor Davos e Bronn, realmente eles acenderam de uma forma parecida, mesmo sendo tão opostos (um queria poder para viver confortavelmente, o outro não procurou o poder mas o recebeu como um trabalho e dever a ser cumprido).

    Novamente, parabéns pelo texto! E que venha o próximo livro e a próxima temporada \o/

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