Wall-E a humanização e robotização de seus personagens.

Quero aproveitar esse espaço para defender uma grande interpretação que eu faço sobre um dos meus filmes favoritos: Wall-E. Conhecido por ai como um dos clássicos da Pixar, o grande filme de amor da Pixar, entre vários outros elogios. Mas mesmo sendo um filme muito elogiado um comentário que pode ser ouvido em alguns cantos é: “era para ser um dos melhores filmes da Pixar, mas na segunda metade fica muito bobo, e a moral ambiental toma muito espaço no filme, além de que deixa de ser mudo.”

Esse post é para defender a segunda metade, onde o filme de fato fica mais bobo, a moral em prol do meio ambiente toma um grande espaço do filme, e o filme deixa de ser mudo. E a metade muda era o que tornava o filme especial.

E é mesmo, a primeira metade muda do filme separa os meninos dos homens. Nunca questionarei a excelência que é aquele começo somente com os dois robôs sem falar nada, interagindo um com o outro em uma terra completamente abandonada. Aquilo é lindo.

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Porém em relação a moral ambiental, bem ai tudo depende de qual é o real tema do filme. Claro que o tema do meio ambiente é o que mais chama a atenção, mas toda minha análise diz que o tema do filme é: inteligência artificial. É um filme sobre robôs deixando de pensar como robôs e aprendendo a pensar como pessoas, e por causa deles, as pessoas voltam a pensar como pessoas e deixam de agir como robôs, e isso salva a humanidade. E quando começamos a ver sob essa ótica, notamos que a trama da planta vai pro segundo plano. Não passa de um MacGuffin para o enredo ter direção.

O filme é sobre o Wall-E, o personagem-título e o nosso protagonista. Wall-E é um robô que foi criado faz 800 anos, e junto com uma grande quantidade de outros Wall-Es deveria ficar limpando a Terra até ela ser capaz de habitar vida novamente enquanto a humanidade estava no espaço. Porém quando o projeto começou, era uma escala planetária de robôs para limpar o planeta, e passados 800 anos desde então, o Wall-E é a única unidade que ainda está operando e trabalhando em limpar a Terra.

O clima da terra e suas ventanias absurdas eventualmente quebraram todos os robôs, e por que Wall-E sobreviveu? Porque ele adquiriu inteligência nesse meio tempo. Ele ao contrário de outros robôs, achou um abrigo para si mesmo e aprendeu a reparar a si mesmo quando quebrava, usando peças dos outros robôs “mortos”. O que levou Wall-E a fazer um salto de inteligência inédito para a máquina na época não fica claro no filme, mas ele certamente não era como os demais robôs, tanto os que morreram na terra quanto os modernos no espaço. Ele agia e pensava de uma maneira diferente de qualquer outro robô no filme em sua primeira aparição.

A direita, um Wall-E quebrado por não aguentar o clima da terra. A esquerda o protagonista do filme que sobreviveu o clima da terra pois aprendeu a se consertar.
A direita, um Wall-E quebrado por não aguentar o clima da terra. A esquerda o protagonista do filme que sobreviveu o clima da terra pois aprendeu a se consertar.

Sim, pois 800 anos depois os robôs ainda não eram capazes de pensar e ter livre arbítrio da maneira do Wall-E. Porém assim como o Wall-E, essa é uma característica que pode ser despertada, e esse é nisso que gira o enredo do filme.

Wall-E não só foi o único robô a passar no teste de survival of the fittest, ele também sentia curiosidade, ele separava o que era lixo do que era não-lixo baseado nos seus próprios valores. O que era lixo ele compactava e se livrava, o que não era ele guardava e colecionava. Ele se divertia, ele via filmes. Ele espelhou a si mesmo no protagonista de Hello Dolly (pois naturalmente robôs não tem sexo, e o único motivo pelo qual pensamos nele como masculino é porque ele criou essa identidade de gênero para si mesmo, com base em Hello Dolly e no romance principal do filme). Ele era basicamente um humano em forma de robô. Sua maneira de pensar não era diferente da de um humano em nenhum aspecto.

Isso é: dos humanos de 800 anos atrás pelo menos, em breve falamos dos humanos da época do filme.

Mas até então ele era nossa única referência de robô, não tínhamos informação para saber se no futuro todos os robôs não eram tão independentes quanto ele, ele ainda não tinha provado que era especial pros padrões robóticos daquele mundo. E ai vem Eve.

É muito fácil achar que o que aconteceu agora é que Wall-E se apaixonou por Eve a primeira vista, mas isso seria simplificar bem a relação entre os dois. Eve sequer era uma robô fêmea ainda. Os mais atentos vão notar que ao longo do filme a voz de Eve vai ficando mais suave e feminina ao longo do filme, (e menos robótica também) quando ela vai começando a assumir uma identidade feminina à medida que vai se tornando o par romântico de Wall-E. É só reparar no primeiro dialogo entre os dois. Eve vira para Wall-E e pergunta “who are you?” de uma maneira tão mecânica que os mais distraídos nem notaram que era uma frase e achou que era mera onomatopeia (entre os mais distraídos, destaco a dublagem oficial brasileira que deixou o “who are you?” no inglês original mesmo, pois não percebeu que era um dialogo. Pode conferir na sua versão dublada.)

Fora que Eve é um robô agressivo que atira e explode o máximo de coisas possível. E eu não estou dizendo que mulheres não podem ser a doida da bazuca e explodir coisas, elas podem ter a personalidade que quiserem e continuarem sendo femininas. Mas duvido que uma máquina feita pelo homem daqui a 800, ia ter sua personalidade programada para tentar subverter papeis de gênero (“eu vou projetar esse robô para ser do sexo feminino, mas ela vai ser uma tomboy, um tapa na cara de quem espera uma menininha delicada.”). Ela foi programada como a doida da bazuca, pois o cara que a programou não achou que ela ia adotar uma identidade feminina (ou uma identidade em si). Alias se ela tiver sido programada por uma máquina (e eu tenho certeza de que foram, mas isso é outra teoria), acho mais provável que essas questões de  gênero sequer tenham sido pensadas pelos programadores na hora de programar a Eve. Enfim, tudo isso para deixar bem claro que o que Wall-E sentiu na primeira vez que viu Eve ainda não era amor-a-primeira-vista. O que ele sentia era a empolgação por uma companhia.

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Enfim, Wall-E ficou fascinado por Eve, ele não via companhia robótica desde que seus irmãos foram mortos pelas tempestades de areia. E desde que ele ficou sozinho, ele se viciou em Hello Dolly, e agora precisava de alguém para fazer o par romântico das mãos dadas com ele. Sim, pois ele adorava recriar as cenas de Hello Dolly, estava entre seus passatempos. Em particular, a dança de Put on your Sunday Clothes e a cena romântica de It Only Takes a Moment, onde ele ficava particularmente curioso a respeito do ato de dar a mão para outra pessoa. A dança ele podia fazer sozinho, mas precisava de companhia para dar as mãos, então ele fica decidido a ser amigo de Eve e ter com quem fazer a cena. Nesse ponto Wall-E começa a se apaixonar, pois assim como ele se espelha em Cornelius Hackl, ele via Eve como a Irene Molloy, pois Hello Dolly era a única obra de ficção que ele teve acesso em 800 anos, então ele ficou bem envolvido com seus personagens. E foi nessa mentalidade que ele espelhou uma imagem feminina em Eve.

Outro ponto interessante em Eve, ela ignora o Wall-E, assim como ignora e explode tudo o que não tem a ver com trabalho. Ela foi para a Terra com uma missão, e vai cumprir a missão, e nada vai atrapalhá-la. Sua rigidez em relação a sua diretriz é uma das diferenças do Wall-E para todos os outros robôs do filme. Só o Wall-E fica de zoeira enquanto trabalha, e tira um tempo livre para ir mexer em sua coleção. Alias na primeira vez que o Wall-E tenta puxar conversa com a Eve, ela pergunta para ele “diretriz?” e “nome?”, a primeira coisa que ela quis saber era o trabalho dele, a outra o nome, e depois sem mais perguntas. Como todos os demais robôs do filme, Eve vivia em função de sua diretriz, um robô de verdade como Eve, sem pensamento independente, só trabalha, não para nunca.

Isso é, parou quando veio a tempestade que matou os irmãos do Wall-E, e o Wall-E protege sua Irene Molloy levando-a para seu abrigo, e lhe apresenta sua coleção de tralhas. Nesse momento que Wall-E começa a mostrar o outro lado para Eve, mostrar que existem itens interessantes no mundo, mostrando cubos mágicos pra ela, mostrando como ele se conserta sozinho, e mostrando Hello Dolly para ela. Após mostrar seu filme favorito para a amiga, ele tenta ensiná-la a dançar, no que ela fracassa. Mas mesmo observando o modo de vida do Wall-E, a Eve segue trabalhando. Ela acha tudo aquilo interessante, mas nada que a distraia de sua diretriz, e então ela usa seu sistema de rastreamento na coleção de cacarecos do robozinho, para continuar trabalhando até a tempestade passar. Finalmente, Wall-E mostra para Eve a planta que ele achou, achando que isso iria deixá-la fascinada, mas a planta era o item que cumpria a missão dela, fazendo ela pegar a planta para si e entrar em modo de descanso para mandar sinal pra nave. Sim, pois como sabemos, a missão da Eve era achar vida vegetal na Terra que provasse que o planeta possui condições de abrigar vida novamente.

Eva tinha o minimo de curiosidade pela tralha do Wall-E, mas mesmo em um momento de descanso ela jamais tirou o foco de sua diretriz e continuava trabalhando na casa de Wall-E
Eva tinha o minimo de curiosidade pela tralha do Wall-E, mas mesmo em um momento de descanso ela jamais tirou o foco de sua diretriz e continuava trabalhando na casa de Wall-E

Mesmo achando as coisas do Wall-E interessante, o interesse central de Eve sempre foi a planta, no que ela viu a planta, ela cortou qualquer interação com o planeta Terra e ficou só esperando ser recolhida. Mostrando que ao cumprir sua diretriz ela não precisava mais interagir com o Wall-E ou com qualquer outra coisa, o que importa é cumprir a diretriz e entregar a planta para sua nave.

Já o Wall-E, aproveitou a passividade de Eva para leva-la em encontros, jogar videogame com ela, olhar a lua com ela, só não conseguiu dar as mãos com ela, igual fazem em seu filme favorito, pois a mão estava presa ao corpo quando ela fica inconsciente, mas ele tentou (se o filme fosse um live-action essa cena seria bizarramente tensa, um homem levando uma garota em coma em situações românticas que ela nunca aceitaria ir com ele se tivesse acordada, aproveitando-se da falta de reação para namorá-la. A Sorte do Wall-E é que ele é muito inocente e muito gente boa para ficarmos propriamente indignados com isso. Mas sério, não foi legal da parte dele, foi zoado.).

Wall-E, cara, se toca. Ela tá inconsciente, isso não é legal.
Wall-E, cara, se toca. Ela tá inconsciente, isso não é legal.

Enfim, com isso já podemos ver bem o contraste de interação do Wall-E com o mundo para a interação da Eva com o mundo. Wall-E se interessa pelo mundo, é curioso, explora, coleciona, se comove, se apaixona. A Eve é completamente focada em sua diretriz, e ignora tudo que não envolve seu trabalho. O contato com Wall-E fez ela prestar o mínimo de atenção em outros fatores, e embora tenha simpatizado com o Wall-E e se interessado pelo que ele mostrou a ela, mostrando que ela está ampliando as perspectivas dela, ela ainda não mudou quase nada. No caso da Eve é bem gradual. A transformação de Eve é a mais gradual de todas que irão ocorrer, uma vez que ela dura mais da metade do filme. Mesmo achando o que ela via interessante, ela nunca deixou de dar a maior parte de sua atenção a sua missão.

Na nave tudo muda. Quando a Nave volta para buscar a Eve, e o Wall-E entra junto, pois não quis deixar sua Irene ir antes deles darem as mãos. Ele não esperou oito séculos para deixar ela ir embora sem experimentar a sensação de estar de mãos dadas. Ele chega até a Axiom, onde somos introduzidos ao M.O.

M.O é fundamental para analisarmos os aspectos de pensamento independente, livre arbítrio e inteligência artificial. Um dos mais importantes do filme inteiro.

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M.O é o robô que cuida da limpeza de tudo o que vem de fora da nave. Qualquer coisa que entre na Axiom tem que ser limpado pelo M.O, pois obviamente terá contaminação de outros planetas (no caso só a terra, é só pra lá que as sondas E.V.E iam), e isso é um risco para a população. E os índices de sujeira sempre eram mínimos. Só o de Eve era um pouco maior que o normal, mas faz sentido, ela enfrentou uma tempestade de areia.

Então M.O vê Wall-E, e Wall-E interage com o segundo companheiro robô em sua vida. M.O fica impressionado com o índice absurdo de sujeira do robô que passou 800 anos mexendo em lixo sem nunca tomar banho. Ele tenta limpar Wall-E, mas o lixeiro se recusa, ele zoa com M.O, sai da linha, pisa da cara dele, e faz o que quer. Todos os robôs da nave são programados para obedecer à autoridade do M.O na limpeza, mas Wall-E não é subordinado de ninguém, ele é livre. Eve ainda em modo de espera, passa na inspeção de M.O e é levada embora. E Wall-E larga o M.O para trás para seguir a sua obsessão.

Agora vemos o momento: M.O tenta seguir Wall-E, mas ele não pode. Tinha uma linha verde no chão e ele não podia sair da linha. A Axiom inteira é controlada por linhas no chão que permitem que os robôs se locomovam no caminho programado para não entrar no caminho dos outros robôs, tudo organizado para melhor funcionamento, praticidade e organização. E essa organização era o responsável por impedir que M.O seguisse e limpasse um ser externo absurdamente sujo.

Agora somos apresentados a uma das melhores cenas não só do filme como da história da Pixar.

M.O olha Wall-E se afastar, e olha para a linha. Ele está diante de um dilema, limpar o Wall-E é o trabalho dele, ficar na linha é o trabalho dele, ele não pode cumprir ambos, os trabalhos se contradizem. M.O é obrigado a escolher qual trabalho ele quer seguir. M.O é obrigado a querer, ele percebe então que ele tem o direito de escolha, é ele quem decidirá o que ele fará. E ele sai da linha. Hesita assim que sai, quer ter certeza de que nada iria acontecer com ele por quebrar uma ordem, e vê que nada aconteceu. Ao conferir que ele podia sair da linha se quisesse, ele ri, agora nada o impediria de limpar o Wall-E, não porque é o trabalho dele, mas porque é o que ele escolheu fazer. M.O perdeu sua subordinação a sua programação, e agora está livre para limpar o único robô na nave que escapou dele.

M.O hesita ao sair da linha, como se tivesse que ter certeza de que nada de ruim passaria com ele.
M.O hesita ao sair da linha, como se tivesse que ter certeza de que nada de ruim passaria com ele.

O contato com Wall-E, tornou M.O independente, inteligente e livre. Agora M.O está em passo de igualdade com seu rival e uma semente foi plantada na Axiom.

M.O foi o primeiro, mas não foi o único. O segundo é Type-E, que passou completamente batido por você quando você viu o filme. Eu só sei o nome dele, pois está na enciclopédia da Pixar. Mas o ponto é que Type-E é um robô que digita. Ele é grande composto por um tronco enorme, um único olho vermelho e duas mãos pequenas que ficam digitando o dia inteiro, ele servia de porteiro na porta que dava acesso a sala do capitão, para onde Eve deveria ser levada. Porém era Wall-E quem estava levando Eve para lá, pois ele não desgruda dela nem por um segundo. Wall-E para em frente ao sério e burocrático Type-E, e este tecla um botão e abre a porta para Wall-E, quando Wall-E entra no elevador para a sala do capitão ele agradece ao Type-E com um aceno. Type-E fica curioso com o gesto de Wall-E. Depois que Wall-E vai embora ele interrompe seu trabalho para ficar imitando o aceno dele. Tentando entender o significado do movimento de pulso.

Type-E checando se é capaz de fazer o mesmo movimento de pulso que Wall-E fez para acenar para ele.
Type-E checando se é capaz de fazer o mesmo movimento de pulso que Wall-E fez para acenar para ele.

Terceiro robô obcecado por trabalho que muda sua perspectiva diante da atitude livre de Wall-E, algumas cenas depois, Wall-E vai passar em frente a ele. Type-E vai olhar para Wall-E e acenar para ele, e Wall-E acenará de volta. Ele interrompe o que está fazendo para imitar um gesto que achou curioso para o robô que o ensinou o gesto. É um gesto simples em um personagem simples, mas que comprova a influência de Wall-E nos robôs a sua volta, ele não age como um robô, e nem como um humano, já que os humanos da nave estão completamente robotizados. Wall-E é um humano de 800 anos atrás em sua atitude, e os humanos do filme são monótonos e previsíveis.

O capitão da nave, por exemplo, é praticamente um robô feito de carnes. Ele tem uma série de diretrizes para fazer, e ele as faz e nada mais. Não toma decisões, não capitaneia a nave, só cumpre a diretriz que foi ensinado a fazer. Não é mais independente que M.O ou Eve. Isso faz do Capitão o B. McCrea o quarto robô com quem Wall-E interage ao longo do filme, mesmo sendo humano.

O capitão interage com Wall-E pela primeira vez quando confunde Wall-E com o despertador, por este ter tocado a música de Hello Dolly, Put on Your Sunday Clothes, que é a música que Wall-E mais escuta ao longo do filme.  Depois de acordar, ele analisa o fato de que Eve voltou com uma planta cumprindo sua missão e agora ele tinha que lidar com a situação, sendo que ele não sabe lidar com situações, nunca fez isso na vida. Não foi treinado para reagir a uma sonda com uma planta. Nessa hora ele nota Wall-E que está com Eve, mas não sabe qual é a dele ou o que ele está fazendo ali, só nota que a mão dele está cheia de terra, algo que ele nunca viu na vida. Já Eve nota que está sem a planta e o capitão assume que foi alarme falso, aliviado por não ser obrigado a tomar uma decisão. A planta tinha sido roubada por Auto, o quinto robô com quem Wall-E interage. Na verdade Auto não interage com Wall-E, só reconhece a existência dele.

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Auto é o vilão do filme. E como todo bom vilão da Pixar ele não é mal, só faz seu trabalho, porém serve como obstáculo ao herói e isso dá a ele o antagonismo do filme.

Agora o fato de Auto ter roubado a planta de Eve, por não querer que a Axiom volte para a Terra é apontado como um dos grandes erros de consistência do filme. E eu concordo que ele faz sentido. Se Auto queria manter a nave no espaço, porque Auto mandou a sonda Eve procurar plantas e checar se a terra era habitável? É uma ótima pergunta. Abaixo eu dou a resposta:

Pois Auto é um robô. Ele, assim como M.O antes de sair da linha verde, e assim como o Capitão, ele não foi feito para tomar decisões. Ele não tem essa liberdade. Ele não quer nada. Auto segue uma série de diretrizes para manter a nave operacional. E uma das diretrizes iniciais foi a de mandar as sondas para a terra para procurar planta, depois de um tempo, pois o plano inicial era voltar pra terra. É para isso que a Axiom foi feita. Porém anos depois a Axiom recebe a ordem A113, onde os humanos que continuaram na terra viram que a situação nunca voltaria ao normal e portanto, era para a Axiom nunca retornar.

Auto é um robô, dependente, sem livre arbítrio que segue diretrizes. Diferente da contradição de M.O, onde seguir uma ordem implicava descumprir a outra, no caso de Auto, cumprir as duas ordens só implicava fazer um trabalho extra, completamente inútil, mas a contradição não era direta, só podia ser detectada pelo pensamento livre humano. E Auto fez esse trabalho extra inútil, afinal ele foi programado para fazê-lo. Enquanto Wall-E é o mais livre dos robôs, Auto é o mais preso, a semente que Wall-E plantou em Eve, em M.O e em Type-E não vale pro Auto, por isso a contradição de suas ordens, ele não é capaz de descumpri-las. Ele não pode sair de sua diretriz. Isso é justamente o que o torna o vilão do filme, ele é o extremo oposto de Wall-E. Elijah Price disse no filme Unbreakable (Corpo Fechado): “you know how you can tell who the arch-villain’s going to be? He’s the exact opposite of the hero.” E é exatamente isso que ocorre nesse filme.

Mas voltando aos robôs que Wall-E já conquistou. O Capitão ficou em sua nave pesquisando a terra que Wall-E deixou em sua mão ao apertá-la (provavelmente o primeiro aperto de mãos que o capitão fez na vida), descobriu uma enciclopédia sobre os costumes e natureza do planeta Terra e se fascinou por esse mundo grande e vivo e diferente de sua vida monótona. Ficou horas brincando de ir de artigo relacionado em artigo relacionado aprendendo mais sobre a Terra.

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Pela primeira vez na vida o Capitão resolve pesquisar sobre um mundo fora de sua rotina.

M.O ainda está seguindo o rastrinho de sujeira que Wall-E deixou, e limpando os rastros de Wall-E, no processo, ele atrapalhou uma fila de robôs, e eles trombam entre si. M.O atrapalhou a organização infalível da nave e não está nem ai, ele deixou de se importar, e de respeitar as linhas verdes, ele quer limpar o Wall-E e nada mais.

Ao desrespeitar as linhas de movimento, M.O causa o trombamento de três robôs, mostrando que ele deixou de se importar com a funcionalidade da Axiom.
Ao desrespeitar as linhas de movimento, M.O causa o trombamento de três robôs, mostrando que ele deixou de se importar com a funcionalidade da Axiom.

E a Eve? Ela está puta. Ela acha que a planta sumiu por culpa do Wall-E, pois não sabe do envolvimento de Auto para impedir a missão de Eve. Ela acha que por culpa do Wall-E ela será considerada um robô quebrado e vai ser mandada para a sala de conserto. E o pior é que é exatamente o que aconteceu.

Na sala de consertos temos um monte de outros robôs quebrados. Eles são muitos para eu contar, vamos considera-los, como um personagem só e chama-los de “o sexto robô com quem Wall-E interage”, para fins de organização. Esses robôs têm problemas que não deixam que eles cumpram suas funções na nave e foram colocados de escanteio. E Wall-E tem receio que na sala onde eles estão Eva vá ser desmontada. Ele corre para salvá-la, e no processo ele comete dois acidentes, o primeiro é que assim como com o Capitão, ele acidentalmente dispara seu gravador com Put on Your Sunday Clothes, para todos os robôs na sala escutarem; e a segunda é que ele dispara a bazuca de Eve, e liberta todos os robôs quebrados e destruindo o funcionamento da sala de reparos. Isso causa dois efeitos, o primeiro é que ele ganha a gratidão e amizade de todos os robôs quebrados, que mesmo sem poderem cumprir sua função, estarão livres para circular na nave, novamente uma semente é plantada. A segunda é que Eve está ainda mais furiosa com ele, e é interessante notar como a voz de Eve nesse ponto já está muito mais fina e delicada, como a voz de uma garota e não de uma máquina. Desde que ela acordou do modo de descanso, Eve já tem se comportado como um robô feminino, já que ela já criou um vínculo com Wall-E.

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Wall-E é considerado um herói pelos robôs incapazes de cumprir sua diretriz

A voz da Eve ainda vai ficar mais delicada poucas cenas depois. No momento em que robô assistente do Auto, o Go-4 tenta se livrar da planta mandando ela pra fora da nave. Ele manda a nave com a planta para ser autodestruída, mas Wall-E vai resgatar a planta e a nave explode com Wall-E dentro. Nesse momento vemos Eve, que até cinco minutos atrás estava furiosa e querendo se livrar de Wall-E o mais cedo possível, olhar para a explosão no meio do espaço e falar “no”, nessa fala a voz da Eve já está 100% feminina, e vai seguir assim pelo resto do filme. Essa cena confirma que Eve tinha apego pelo Wall-E (já que ela viu que ele não havia pegado a planta e portanto, não era um obstáculo para sua diretriz), e portanto ela tinha uma segunda coisa com a qual se importar (a primeira e maior ainda era sua missão). Ela vê que Wall-E está vivo e resgatou a planta dela, e fica super feliz. Eve guarda a planta (porém sem se desligar no processo como ela fez da ultima vez), abraça Wall-E e dá o que provavelmente seria o equivalente dos robôs a um beijo (as testas se encontram e dão choque uma na outra). E eles dão a famosa cena da dança no espaço.

Que cena fenomenal, que em paralelo com a dança, mostra o encerramento do dia com a nave, em que John e Mary, os dois humanos com quem Wall-E trombou e acidentamente desligou o monitor de suas cadeiras, começam a explorar melhor a nave, e se divertir na piscina, enquanto o capitão mostra que passou o dia inteiro pesquisando os costumes da terra em seu computador ao invés de trabalhar (como Wall-E fazia na Terra), e descobre o conceito de dança, a explicação do computador sobre o conceito de dança, é mostrada ao mesmo tempo que a cena se foca em Wall-E e Eve dançando, uma das melhores cenas do filme, sem duvida.

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Porém quando acaba a dança, e Eve termina de se divertir, ela se acalma e o profissionalismo dela volta. Ela entra de novo na nave, com a planta e está determinada a cumprir sua diretriz, ir até a cabine do capitão, e Wall-E segue ela pedindo para eles darem as mãos (o rapaz não desiste nunca), mas Eve não está com cabeça para isso, ela quer entregar a planta ao capitão, cumprir sua missão e ser um bom robô. Ela larga Wall-E junto de um monte de toalhas, acha o capitão e entrega a planta a ele. E o Capitão tá na empolgação total de ter descoberto o que a Terra era, ele só pensa nisso agora. Assim que ele vê Eva, ele liga a câmera da robô para ele ver o que ela viu quando estava na Terra e para ver em que condições ela está agora. Nesse momento o capitão descobre o estado deplorável no qual os humanos largaram a terra, e Eve descobre que quando ela esteve inconsciente Wall-E cuidou dela o tempo todo. Como a garota certamente não se importou de ter sido colocada a força em cenários românticos durante o coma, as outras coisas que Wall-E fez por ela (protege-la da chuva, cuidar dela…) a comovem. E ela revê novamente pelas suas gravações, o filme Hello Dolly (cuja música o capitão reconhece instantaneamente, adoro como a música que o Wall-E repete acaba marcando os personagens com quem ele interage, também), onde ela repara na cena das mãos dadas e percebe que ela quer fazer isso com alguém também. Agora Eve resolve que ela quer poder dar a mão para o Wall-E, e se humaniza mais um pouco. Transformação da Eve já está 80% completa, só falta um único detalhe para ela ser tão livre quanto o Wall-E.

Assim como Wall-E, Eve descobriu o conceito de dar as mãos ao ver a cena de Hello Dolly.
Assim como Wall-E, Eve descobriu o conceito de dar as mãos ao ver a cena de Hello Dolly.

Já o capitão está 90% transformado, ele está fascinado pela Terra, e altamente decepcionado por ter visto na visão de Eve, o quão estragada ela está, e quer voltar e recolonizá-la, e pela primeira vez na vida assume uma postura de líder, questiona decisões e questiona o Auto. Ele usa a razão para convencer Auto que o certo é voltar pra Terra, mas argumentos lógicos não podem quebrar a fidelidade de Auto a sua diretriz.

Curioso que Auto é visivelmente inspirado no Hal 9000, robô icônico como um dos grandes personagens da ficção a mostrar como a inteligência artificial iria eventualmente se tornar uma ameaça ao homem, pois com inteligência eles iriam tentar eliminar a espécie humana, tão cheia de falhas. E isso foi repetido várias vezes. Porém Auto que empresta várias características desse personagem, é seu extremo oposto, é a ausência de uma real inteligência artificial que o torna incapaz de questionar a programação, e culmina em sua deslealdade ao capitão. Afinal ele é programado para tomar o controle do navio, o capitão não tem autoridade sobre ele, ele controla tudo.

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A cena do Capitão e do Auto brigando é fenomenal, desde a troca de diálogos “In space, you will survive.” “I don’t want to survive! I want to live!”, até o Capitão notando na galeria de imagens de todos os capitães da Nave que o Auto sempre esteve atrás de todos os capitães, e sempre foi quem de fato comandou tudo. Culminando nele assumindo a postura de capitão, ajeitando o quepe, e mandando Eve levar a planta ao centro na nave, para a nave poder tomar rumo à Terra. Assim como M.O, ele tomou a primeira decisão de sua vida, baseada na sua vontade individual de ver o planeta Terra. A jornada de transformação do Capitão já está praticamente completa, só falta um único detalhe. A cena termina com Wall-E aparecendo (afinal ele nunca para de seguir a Eve, mesmo que ela tenha mandado ele ficar lá nas toalhas), e ao ver o que está havendo, ele tenta proteger a planta. Ao não entregar a planta para Auto, o vilão eletrocuta o pobre Wall-E diretamente em sua placa mãe, e joga Wall-E, Eve e a Planta no deposito de lixo.

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E ai temos a cena no depósito de lixo, a minha favorita no filme inteiro. Nela vemos Wall-E detonado, ele agora anda todo molenga, com um olhar ainda mais baixo que o de costume e sem o estilo palhaço que ele manteve no filme até agora. Ele que nunca parava de zoar, agora está sério e sem forças. Ele e Eva são finalmente encontrados por M.O, que aproveita que Wall-E está um caco e não consegue se esquivar do robô-da-limpeza e limpa ele. Após a limpeza, Wall-E se introduz para M.O, e ambos apertam as mãos. M.O não vai limpar mais nada ao longo do filme inteiro, nem seguir uma diretriz, agora que ele restaurou seu orgulho, será um amigo leal de Wall-E até o final. A partir dessa cena M.O. é tão independente quanto Wall-E, transformação dele 100% completa. Já Eve está preocupada de ver Wall-E em um estado tão grave, ela vê a placa mãe de Wall-E com um buraco de queimadura no meio e aproveita que está no meio do lixo para procurar uma nova, sem sucesso, usando o mesmo mecanismo de procura que ela usou na Terra para procurar a planta. Wall-E, mais sério do que ele já esteve o filme inteiro, entrega a planta para Eve, e explica para ela que ela deve levar a planta pro centro da nave para a nave poder voltar para a Terra, e que essa é a diretriz dela. E Eve então pega a planta e arremessa ela no meio do lixo, ela não considera mais a planta sua diretriz, ela não liga para salvar a Terra ou para a função para a qual foi programada. Ela criou uma nova diretriz para si mesma, segurar a mão do Wall-E igual os personagens no filme Hello Dolly. Porém por incrível que pareça, Wall-E não quer dar mãos agora, sinal do quão sério ele está, ele não está com cabeça para isso. Ele explica para Eve que eles precisam que a nave volte para a Terra, pois só assim ele vai poder ir para o abrigo dele se consertar. Wall-E também não está se importando nada com o futuro da humanidade, ele só quer voltar para a coleção de peças dele, para pegar uma placa mãe nova. Eve percebe então, que a única maneira de salvar o Wall-E, é indo para a Terra, então ela, Wall-E e M.O decidem que eles vão levar a planta ao centro da nave. Eve não responde mais a sua diretriz, ela responde somente aos sentimentos que sente por Wall-E. Eve está 100% transformada, ela é um robô completamente livre agora.

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Um momento discreto e simbólico da diferença de Eve, é que no começo do filme quando ela está dando uma bronca em Wall-E por ter feito ela parecer uma robô defeituosa, ela tem uma foto tirada com o anuncio “robôs rebeldes”, onde ela aparece ameaçadora por acidente (ela estava só encaixando a bazuca de volta em seu braço), e isso deixa ela ainda mais irritada. Agora, com Wall-E e M.O nos braços ela propositalmente ameaça o mesmo robô fotografo que atualiza a foto para uma onde Eve é de fato uma robô rebelde. Ao tirar essa foto eles acabam salvando um dos robôs defeituosos que Wall-E libertou, e que voltaria para o reparo se Eve não tivesse atacado o robô-guarda. O robô defeituoso reconhece Wall-E e resolve seguir o trio assobiando Put on Your Sunday Clothes, ao ouvir o assobio, Wall-E liga seu gravador com a sua música favorita, e pronto, todos os robôs defeituosos espalhados pela nave reconhecem a música que ecoa na nave inteira. Eles não só reconhecem, como vão atrás da música, encontram o protagonista e agora vão seguindo Wall-E. Agora o trio está acompanhado de um exercito de robôs deslocados dispostos a ajudar Wall-E. Como Duracule Mihawk disse no mangá One Piece uma vez. “A habilidade de transformar todos com quem você se encontra em seus aliados, talvez seja a habilidade mais poderosa do mundo.” E foi isso que Wall-E fez desde que entrou na Axiom, transformou todos com quem se encontrou em seus amigos, ao fazê-los ver um mundo além de suas diretrizes, e agora todos esses robôs estão se rebelando para salvar Wall-E.

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E agora começa a batalha final. Eve, e seu exercito chegam ao centro da nave, onde tudo está pronto para receber a planta. E o Capitão, está lutando com Auto no mano a mano. Todos os passageiros da nave estão olhando sem entender o que está acontecendo, e Auto inclina a Nave, para que todos caiam e os robôs não consigam colocar a planta no local certo. E após isso manipula a plataforma onde a planta devia ser colocada para esmagar o Wall-E. Ver o Wall-E esmagado por Auto é a gota d’água para o Capitão, ele pela primeira vez na vida levanta-se e se sustenta pelas próprias pernas, e não sua cadeira flutuante, salta em auto, e derrota o “vilão” do filme ao mudar em cima dele o interruptor com o qual foi construído, de “automático” para “manual”. O capitão resolve que vai viver a própria vida no modo manual, e não deixar Auto decidir sua vida por ele. Com Auto desligado, ele desinclina a nave, e decide a nova rota dela, como o capitão que ele é. Capitão está 100% transformado, ele é um homem livre de suas diretrizes, capaz de tomar todas as decisões da nave e de liderar a humanidade.

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Na frente de toda a tripulação, o Capitão assume o timão da nave e decide o rumo pela primeira vez em 800 anos.

Enquanto isso Eve cuida do Wall-E esmagado e moribundo. M.O acha a planta (com seu detector de sujeira estrangeira, pontos bônus, pois ele não se incomodou com a sujeira da planta e nem tentou limpá-la), e passa ela pros robôs defeituosos que passam pros humanos que passam para os robôs defeituosos que passam para Eva, que coloca a planta no local certo e conforme os planos do capitão a Axiom agora vai voltar ao planeta Terra. Por ter finalmente usado suas habilidades incapazes de obedecer a própria diretriz, para ajudar o Wall-E, eu considero que os robôs defeituosos se provaram transformados nessa cena também, já que agora eles não tem mais uma função que define se eles cumprem bem ela ou não, eles estão livres da diretriz que não eram capazes de cumprir. Só faltou o retorno do Type-E, mas ele é personagem quaternário e nunca mais voltou.

E ai vem o fantástico retorno a Terra. No que a nave pousa, Eve vai voando para consertar Wall-E em uma velocidade incrível, que M.O e os robôs defeituosos nem conseguem alcançar. O capitão meramente olha para Eve voando com Wall-E quebrado nos braços, e tira o quepe em homenagem ao amigo a beira da morte. Eve chega à casa de Wall-E e o conserta, pega todas as peças que quebraram a substitui cada peça de Wall-E por uma nova. Após montar Wall-E de novo, ela liga o seu amado e ele acorda. E assim que Wall-E acorda, Eve vê que ele está consertado e funcional, e pede para eles darem as mãos, que era tão importante para ela e para ele. Mas é tarde demais, Wall-E foi totalmente reconstruído e não existem mais vestígios do robô que ele foi um dia. Ele era praticamente um robô novo reconstruído do zero peça por peça. Ele não reconhece Eve, e não vê sentido em dar as mãos. Ele não distingue sua coleção de tralhas de lixo, e agora Wall-E, que libertou a maioria dos robôs e humanos da nave e deu a eles liberdade, é um robô ordinário, que vive em função da própria diretriz. A parte em que ele processa a coleção dele como se fosse lixo comum é de dar um aperto no peito. Eve fica arrasada de ver que ele foi resetado e não é mais o robô por quem ela se apaixonou. Ela aperta o play no toca-fitas dele, e não toca Put on Your Sunday Clothes, não toca nada, a memoria dele está vazia. Ela vê que perdeu Wall-E para sempre.

A imagem do Wall-E não reconhecendo a coleção dele e tratando feito lixo é de apertar o coração. Destaque para como o olhar do Wall-E está muito mais alinhado e desumanizado do que os olhos tristes tradicionais dele.
A imagem do Wall-E não reconhecendo a coleção dele e tratando feito lixo é de apertar o coração. Destaque para como o olhar do Wall-E está muito mais alinhado e desumanizado do que os olhos tristes tradicionais dele.

Frustrada com a indiferença de Wall-E com ela, e com seu fracasso, Eve abaixa os olhos, se ela não fosse um robô provavelmente estaria chorando, mas não dá para dizer. Ela segura a mão do ex-Wall-E a força, e deprimida, dá um “beijo” nele igual o que deu quando viu que ele não morreu na autodestruição da navezinha. E com isso ela ativou a mágica mais poderosa da ficção. “O poder do amor.”

É, eu também acho que foi uma saída boba, único ponto do filme inteiro que eu achei de fato bobo. Mas é um filme que carrega o logotipo da Disney, que antes de começar mostra um castelo de fadas brilhando enquanto ouvimos When you wish upon a star, não podia terminar com o Wall-E resetado e no que diz respeito ao robô que ele era no passado, morto. Então o beijo de Eve restaura todas as memorias dele.

Ou se pudermos viajar na explicação. O choque na testa dos dois quando se encontram na verdade transferiu as memorias de Eve pro Wall-E e isso permitiu que ele se lembrasse de tudo. Ou isso ou o poder do amor, escolham a opção mais digna.

Independente da opção, ele recupera as memorias, e percebe que ele está segurando a mão de Eve, ele fica super feliz e empolgado, e ela acha graça na empolgação dele, e o clima entre os dois finalmente acontece. E eles ficam juntos.

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A ultima cena do filme é a câmera se afastando dos humanos plantando a planta pela qual todos lutaram tanto, se afastando até chegar em um plano da terra vista do espaço sideral (assim como o filme começa com um plano da terra vista do espaço sideral e vai se aproximando até chegar no local onde Wall-E vivia), e o filme acaba.

Uma grande história de amor, sobre o ultimo ser de pensamento livre, que libertou robôs literais e robôs metafóricos de uma vida mecanizada e sem capacidade de tomar decisões. De um homem que revolucionou o mundo por acidente ao tentar se aproximar da garota por quem se apaixonou.

Eu não consigo ver o subplot da planta como um excessivo espaço para a moral do meio ambiente. É uma moral para a proteção do meio ambiente, sem duvida, mas é em uma menor escala. O único personagem que quer restaurar o meio ambiente é o capitão. O Wall-E não se importa, o Wall-E só se importa em dar a mão pra Eve, e nunca se importou com a condição dos humanos. E é justamente isso que torna tão genial seu envolvimento acidental com essa história. Ele se mantém o mais alheio possível a tudo que rolou na Axiom, ele só queria a Eve, e nada mais. E no fim isso quase custou sua vida, porém seu valor foi provado, e Eve salvou sua vida, e correspondeu aos seus sentimentos.

E sinceramente, todos os meus momentos favoritos do filme estão na segunda metade, na metade falada dentro da nave. M.O. desobedecendo sua diretriz saindo da linha verde, a dança no espaço, o Capitão percebendo que diferente de seus antecessores ele queria liderar o navio como um Capitão faria, e se opondo ao Auto, Eve jogando a planta no lixo, Wall-E juntando seus aliados tocando Hello Dolly e a batalha final do Capitão contra auto. Como alguém pode achar que a metade que reúne todos esses momentos é a metade fraca?

Mas para mim a mais genial ideia é retratar a inteligência artificial como a grande salvadora da humanidade. E não como a causa da ameaça como é o Hal 9000 e seus sucessores. Ou como Stephen Hawkins disse que ia acontecer caso os robôs passassem a pensar por si só.

Por ultimo, eu não mencionei aqui, pois não tem relação com minha análise de ver o filme sob o ponto de vista do Wall-E libertando os demais robôs, mas ainda sim não pode ficar sem ser mencionado. Os créditos finais de Wall-E são do mais alto nível. De verdade, entre os melhores da história do cinema. Através de vários estilos artísticos que marcam a evolução do homem, vemos a humanidade aos poucos tomar o domínio da Terra novamente, e progredir de novo do zero até voltarem a ser o que somos hoje, só que mais sábios. E após a humanidade se restaurar, séculos depois, Wall-E e Eve continuam juntos, de mãos dadas, em frente a árvore que nasceu da planta que eles salvaram.

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Sou da sincera opinião de que Wall-E foi o melhor filme de 2008, e isso implica que foi um filme melhor que Slumdog Millionaire, e que merecia ter ganhado (ou pelo menos ter sido indicado) ao Oscar na categoria de melhor filme. Ou ao menos ser considerado um roteiro original superior a Milk, que seis anos depois ninguém mais fala desse filme. Fantástico. Melhor filme da Pixar, e é um dos melhores filmes animados de todos os tempos.

9 thoughts on “Wall-E a humanização e robotização de seus personagens.

  1. Incrível!!! Por favor volte a comentar coisas de animação e desenhos, sua escrita e pontos de vista são espetaculares. Nunca tinha visto dessa forma esse filme, deu até vontade de rever…

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  2. Asistir ao filme, foi como uma palestra de 90 minutos sobre os perigos do excesso de consumo, das grandes corporações e a destruição do meio ambiente. Tudo isso da mega empresa Disney, que quer que nós compremos brinquedos WALL-E para nossos filhos que são fabricados na China em fábricas destruidoras de meio ambiente e embaladas em plástico que levarão centenas de ano para biodegradar.

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  3. WALL-E é um assalto à civilização moderna, suportado por profunda ignorância econômica e histórica. O filme revela vergonhosamente os esforços de inúmeros indivíduos heróicos que levantaram a humanidade da sujeira da barbárie. Sua mensagem anti-tecnológica e anticapitalista precisa ser exposta e contrariada por todos os indivíduos pensantes.

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  4. WALL-E especificamente se destaca e aponta pessoas obesas como a principal causa do desaparecimento da humanidade, perpetuando ainda mais o estereótipo da pessoa preguiçosa. Além disso, o filme sugere que, em sua preguiça exagerada, as pessoas obesas ignoram não apenas a saúde pessoal, mas também a dos planetas, e são consideradas como a causa da destruição da paisagem ambiental. Isto é, apesar das montanhas de evidências que mostram, como um grupo, as pessoas gordas não comem mais do que pessoas magras, nem são menos ativas e que a chamada “epidemia de obesidade” foi muito exagerada pelos interesses corporativos de si mesmo .

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  5. Os espectadores com excesso de peso de hoje gastarão seu dinheiro para ver um filme que, de fato, está caracterizando seus próprios corpos como o primeiro passo na estrada para a queda da humanidade?

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  6. É uma jogada bonita para criar um filme que condena a cultura da gula e da insatibilidade corporativa enquanto se dedica a essas práticas para comercializar um filme (crianças, certifique-se de comprar um brinquedo Wall-E no caminho!). “Wall-E” tentando educar os membros da audiência mais jovens com horríveis vistas de uma Terra poluída, desperdiçada e o comportamento geral, enquanto também certificando-se de que o Wall-E é bastante atraente para usar nos jogos, brinquedos e bichos de pelúcia para que todos os envolvidos façam uma mina fora do público familiar vulnerável.

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  7. É sem negar um filme sincero e liberal sobre o aquecimento global e a preservação da nossa Terra; no entanto, o próprio filme que critica o materialismo é, de fato, materialista em si.

    A Disney é um negócio, sempre que produz um filme, também produz várias mercadorias pertencentes ao filme para vender: brinquedos de pelúcia, figuras de ação, pratos, copos, tigelas, camisas, etc. Certamente, o próprio filme que critica esse tipo de materialismo e o merchandising seria a única exceção da Disney em vender brinquedos de pelucia de seu herói mundial recente?

    No entanto, os brinquedos WALL-E foram vendidos nas lojas da Disney assim que o filme saiu. Na verdade, o site da Disney oferece mesmo uma seção específica de seu site para vender mercadorias para WALL-E.

    Greg Pollowitz, da The National Review, diz que, ao assistir ao filme, “foi como uma palestra de 90 minutos sobre os perigos do excesso de consumo, das grandes corporações e a destruição do meio ambiente. Tudo isso da mega empresa Disney, que quer que nós compremos kitsch WALL-E para nossos filhos que são fabricados na China em fábricas destruidoras de meio ambiente e embaladas em plástico que levarão centenas de ano para biodegradar “.

    Isso realmente faz uma maravilha, existem filmes que promovam idéias reais e progressivas e realmente seguem com elas? Filmes que não “lemos” sobre materialismo e enchendo nosso planeta com lixo, enquanto imprime seu logotipo em brinquedos que serão jogados fora?

    Talvez, mas é improvável. O negócio do cinema é apenas isso, um negócio.

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