Adventure Time, perdas, mudança e desapego.

A

Olá, bem vindos ao Dentro da Chaminé, ao meu centésimo texto e à segunda parte da minha homenagem ao que foi sem dúvida nenhuma a série animada mais relevante e influente dessa década. Os anos 2010 representaram uma guinada na aceitação que a animação recebe enquanto mídia, e entre muitas séries revolucionárias nesse quesito, quem liderou essa guinada na maneira como a mídia era percebida pelos seus fãs foi Adventure Time.

Além disso a série foi relevante para mim a nível pessoal, motivo pelo qual o post anterior conteve uma retrospectiva dos episódios que mais me marcaram, mas também eu quero falar agora da grande figura, e de qual foi a essência dessa série, que foi o tema do desapego.

Não sei dizer se foi o maior tema da série toda, mas foi o que mais me afetou, o que ficou visível pra mim quando eu tive que resumir os mais de 200 episódios da série em uma lista de 35, e eu vi que eu deixava muitos episódios impactantes de lado para selecionar os que me marcaram mais, e eram justamente os que falavam de desapego.

Então vamos lá. O que é desapego? Desapego é um conceito de se desprender de coisas materiais que te conectam à terra e alcançar uma perspectiva que lhe permita ver as coisas para além da sua conexão com o que você tem. Muitas religiões e filosofias trabalham o desapego de maneiras semelhantes, mas ao mesmo tempo diferentes, e eu adoraria dizer que eu conheço o suficiente sobre religiões e filosofias que trabalham o desapego para saber qual se aproxima mais da maneira como Adventure Time trabalha, mas eu não sei qual é. Se tiver algum fodão em filosofia aí, é bem-vindo a falar nos comentários sobre como isso dialoga com filosofias reais. Mas em Adventure Time desapego é a caneca favorita do Jake, ele adorava aquela caneca, então ele jogou ela pela janela, e essa caneca não existe mais, então o Jake não se importa mais com ela.

Essa cena resume algo que é a essência básica de Adventure Time: tudo no mundo é finito, mas a vida segue, e você não deve ser prender no que ficou pra trás, em vez disso, deve aproveitar o presente.

Jake adora a caneca enquanto a possuí, mas se ele perder a caneca, então é bola pra frente. E no episódio em que essa cena ocorre: Puhoy, Finn não faz isso, ele se perde de Jake em uma dimensão onde ele passa a vida toda preso, até morrer de velho em outra dimensão. Mas Finn nunca aproveitou a dimensão em que ele estava, ou se dedicou a passar o tempo presente com a esposa e filhos que ele tinha lá, ele passou literalmente a vida inteira querendo recuperar o que perdeu e morreu sem recuperar nada.

Finn morre depois de uma vida vã em que voltar ao mundo de onde saiu priorizou aproveitar a companhia das pessoas que ele amava ali.

Adventure Time segue essa mensagem de constante desapego e de deixar o passado pra trás a conclusões pesadas e sombrias, típicas da série. Afinal, a série é sobre o nosso mundo sendo deixado para trás, Marceline conheceu o nosso mundo, mas ela vive em Ooo agora e esse é o mundo dela. Pessoas, relacionamentos, o que vive é o presente. Finn tem que aprender a deixar o braço pra trás. E isso pode soar horrível, mas acho que a perspectiva de Adventure Time é mais inocente e envolve mais uma tomada pelo lado positivo da vida.

Então falemos sobre como os personagens de Adventure Time lidam com o que ficou pra trás. A começar com o personagem que é a personificação desse conceito. Ice King, ou rei-antigamente-conhecido-como-Simon-Petrikov.

Antes do mundo acabar Simon Petrikov era um acadêmico brilhante que havia descoberto uma fonte de magia imensa. Porém na medida que o mundo foi acabando, ele foi sobrevivendo com o uso de uma coroa que lentamente o transformou em um homem louco, imaturo, que maltratava seu subordinado Gunther, e com uma obsessão imensa em sequestrar princesas. Ice King é em muitas maneiras o oposto de Simon. Se Simon era brilhantemente inteligente, o Ice King é abobado e com pouco tato social. Se Simon tinha um relacionamento estável, Ice King assediou todas as mulheres de Ooo e tentou casar com todas com uma estratégia mais desrespeitosa que a outra. Se Simon era discreto e educado, o Ice King é rude, espalhafatoso e destrói coisas acidentalmente.

Simon foi um grande homem. E o Ice King é um vilão. E para quem conheceu e interagiu com Simon, ter que interagir com o Ice King dói, por sabermos que ele só existe porque um grande homem se foi.

Do homem que lutou pra resistir a loucura para salvar uma criança solitária para um assediador em série. Muito mudou por causa da coroa. E isso é notado nos personagens e nos fãs.

E existe uma lição em aceitar o Ice King na série. Ele que começa como um vilão genérico pra cacete, vai aos poucos se revelando um dos personagens mais complexos da série. Ele é difícil de lidar, e ele é problemático em seus avanços com as mulheres, e ele é inconveniente, mas aos poucos se vê que ele não é maligno, ele tem problemas e está se esforçando, está fazendo o melhor que pode. Ele fez muita coisa boa, e uma vez que ele se encontre em um ambiente em que ele é aceito, ele surpreende em como pode ser uma boa pessoa.

Em Thanks for the Crabapples Giuseppe, ele pode ser visto cercado de amigos em uma viagem de ônibus e sendo extremamente decente e de boa.

Ao longo da série, vemos um a um os protagonistas aprendendo a se abrir para o Ice King. Marceline é a primeira, ela foi criada por Simon depois que sua mãe morreu, presumidamente na guerra que destruiu a civilização. Por ter conhecido Simon como uma figura paterna, ela não suportava interagir com o Ice King, era doloroso demais, ele não lembrava dela, e nada que simbolizava a conexão dela com Simon tinha valor para o Ice King.

Em sua enésima interação frustrada com Ice King, Marceline encontra uma carta escrita por Simon, pedindo que ela entenda que ele enlouqueceu tentando protegê-la e para que ela perdoe o Ice King, quando ele for a única coisa que existir. Desde então eles compuseram uma música juntos, Marceline chorou muito e passou a aceitar o Ice King em sua vida, do jeito que ele é.

O que é marcado em Marceline chamando o Ice King pra uma partida de basquete em sua casa.

Mas o real reste veio depois, quando toda a magia do mundo foi anulada, isso incluiu a coroa que transformou Simon no Ice King. A transformação foi desfeita e ele voltou a ser Simon, porém agora que ele não tinha mais a proteção mágica da coroa, Simon estava morrendo. Os amigos de Simon tem que escolher se eles preferem viver temporariamente com Simon, ou que ele vire o Ice King e viva pra sempre em seu estado sem memória e enlouquecido, e Marceline escolhe viver com o Ice King a deixar Simon morrer. No mesmo episódio que Marceline toma essa decisão ela devolve para Simon o Hambo.

Marceline concorda que a melhor solução é transformar Simon no Ice King pra ele viver.
O fim de Hambo.

Hambo era o boneco de pelúcia de Marceline, sua possessão mais valiosa, o que ela mais amava no mundo, e isso era por ter sido um presente que Simon deu pra ela na infância. Na série ela tem o Hambo vendido pelo seu ex-namorado para uma bruxa, e então ela luta fortemente pra recuperar o boneco. Tendo eternamente a memória de sua relação com Simon. Nesse episódio em que ela aceita que o Simon vai ser o Ice King pra sempre e luta para ajudar que ele se transforme de novo para sobreviver, ela devolve o Hambo pro Simon, e Simon destrói a memória deles, para usar uma ciência louca que traria sua namorada do passado pro futuro. Assim como Jake perdeu a caneca, agora não tem mais Hambo, só tem o Ice King para Marceline lembrar do Simon. Mas tudo bem. Sabe por que está tudo bem? Porque ela e o Ice King são amigos, ela vai amá-lo pra sempre por ser o Simon, mas agora ele é o Ice King e ela conseguiu ser amiga do Ice King, então está tudo bem. Marceline se desprendeu do passado que a segurava e aprendeu a apreciar o que o presente oferecia a ela.

Igualmente, Finn e Jake aprendem a ver o Ice King como um amigo gradualmente ao longo das temporadas, e no final, até mesmo a Princesa Bubblegum, aprende com a mediação de Marceline a ver no Ice King um amigo, mesmo ela sendo a vítima mais comum dos sequestros dele.

A única que não aceitou o Ice King até o fim foi Betty, a namorada de Simon, que não aguentou ver a forma patética ao qual o amor da vida dela foi reduzido. Ela aos poucos foi cedendo a um enlouquecimento semelhante ao que o próprio Simon passou, tentando encontrar a cura pra ele voltar a ser Simon, e culminou na minissérie Elements, onde ela tenta matar o Ice King, em frustração por ele não ser o Simon. O Ice King, que mesmo não lembrando de Betty sempre foi leal a ela então se rebela e defende o direito de existir em um dos meus momentos favoritos do personagem:

“As pessoas dizem ‘não devemos viver no passado.’ pois eu digo ‘por que não?”
“Olha, esse Simon aí parece um cara legal, mas eu sou o Ice King, sou um homem decente e eu mereço ser respeitado.”

No final Betty é absorvida por GOLB, o Ice King volta a ser Simon, mas Betty não fica na terra para apreciar, ela é punida e não recompensada com o retorno de Simon, justamente porque ela não ficou de boa apreciando o que ela poderia ter.

Mas o Simon não é a única perda que devíamos aceitar e seguir em diante. O Finn por exemplo, perdeu o próprio braço.

Finn perde o braço em um ato de desespero, em que ele tentou se reconectar com seu pai, Martin, um saco de bosta que estava abandonando Finn pela segunda vez. Finn não aceitou seu pai indo embora e tentou segurar sua nave a consequência foi a nave ir embora levando seu braço junto. Finn não aceitou bem isso.

Lembram da musiquinha? “O bebê está construindo, uma torre para o espaço. No espaço ele vai achar seu pai. Papai tem um braço, e o bebê vai machucar seu braço e arrancá-lo de seu pai.” Pensamentos saudáveis.

Seu primeiro instinto foi o da pura vingança, ele queria reencontrar o pai e arrancar o braço dele, no melhor estilo olho por olho. Mas essa ideia não tem muito resultado, e ele desencana de ir arrancar o braço do pai, e fica em vez disso, em depressão sobre o braço perdido.

Ele sai em uma jornada de festas e pegação para esquecer de sua dor, até que no instante em que ele lembra de quem ele é, e do que ele precisa fazer: proteger a princesa Bubblegum, seu braço cresce de novo sozinho. Quando ele lembrou-se de que ele não precisava de um braço para ser quem ele é, ele ganhou um braço.

Ele perde novamente o braço no futuro. O seu braço se transforma em um monstro de grama e sai de seu corpo, e futuramente se tornaria um clone do Finn. Quando ele perde o braço pela segunda vez ele simplesmente relaxa a respeito, põe um braço mecânico e aceita, fala que por não ser a primeira vez, estava tudo bem.

No episódio What is Missing todos os personagens haviam perdido um item sentimentalmente importante, e lutam para recuperá-lo. Jake havia perdido o teco de cabelo da Bubblegum que ele guardava. Jake perdeu seu cobertorzinho. Bubblegum perdeu sua camiseta que era um presente de Marceline, e Marceline não havia perdido nada, o que pode ser explicado (mas não foi confirmado) que é porque seu objeto mais amado e com valor sentimental já havia sido perdido antes, que era o já mencionado Hambo, que na época do episódio havia sido vendido por Ash para a bruxa Maja.

Exceto pelo cobertor de Jake, os demais todos em determinado momento serão induzidos a sacrificar esses objetos ao quais são tão apegados, para lidar com uma questão imediata, que apesar de ser mais importante, seria imediata, um problema de um episódio só. Finn que era apaixonado por Bubblegum e guardou o cabelo dela por muitos episódios como símbolo de sua paixão, deixa de guardá-lo e o usa para escalar a parede de sua casa e segurar Flame Princess, que caia lá de cima, enfraquecida pela chuva, largando o cabelo-chiclete ali, e nunca o recolhendo. Ele não precisava mais se apegar à crush antiga, se ele tinha a chance de um amor novo nascer de seu primeiro encontro com a Flame Princess.

Bubblegum por outro lado, ao descobrir que o Hambo que Marceline ama tanto estava com uma bruxa, faz uma troca com a bruxa. Maja queria um objeto amado, pois o amor embutido no objeto alimentaria a magia dela. Então ela dá para Maja a própria camiseta para pegar o Hambo de volta e devolvê-lo à Marceline, recomeçando um novo laço entre elas no presente ao invés de cultivar o laço que elas tinham no passado. E Marceline, como já estabelecido, deixa que Simon destrua Hambo posteriormente, decretando o fim dos três objetos.

E temos o caso do Jermaine, que passou a vida na casa dos pais, protegendo objetos que seu pai roubou de demônios, dos demônios que queriam suas posses de volta. Jermaine desperdiçou sua vida toda protegendo esses objetos, até que um dia, por culpa de Jake, ele falhou, e tudo se foi. Foi quando ele percebeu que transformou o passado de seu pai em uma prisão. Diante da tragédia de ver todo o trabalho de sua vida reduzido a nada, ele se levanta, faz amizade com um dos demônios e vai virar artista.

Ironicamente, mesmo com Jermaine deixando tudo pra lá, e parando de dedicar a sua vida em restaurar o legado de seu pai. O legado de Joshua foi preservado na figura de seu neto, o filho de Jake: T.V, que se torna um detetive assim como o avô e reabre um escritório de detetives no mesmo prédio em que era o escritório de Joshua.

Assim como o braço de Finn crescendo de novo, ou Simon retornar para todo mundo menos para Betty, em Adventure Time, as coisas boas retornam para aqueles que não estão procurando esse retorno, porém os que ficam obcecados em restaurar o passado, encontram somente tragédia e nenhuma recompensa.

O Magic Man enlouqueceu tentando trazer o passado de volta a vida, e uma vez curado de sua loucura aprendeu a viver em paz, nostálgico pela própria perda, mas priorizando manter a sanidade e uma boa vida no presente.

Por mais que Flame Princess estivesse disposta a ser amiga de Finn desde um tempo muito curto depois deles terminarem, precisou do Finn aceitar o término dentro dele, e aceitar não tentar a todo custo voltar com Flame Princess para ele conseguir se comprometer a ser amigo dela. Ele não estava pronto pra ser amigo dela em The Red Throne, pois ele ainda estava focado em “recuperar o que ele perdeu.” e essa mentalidade de “recuperar o que foi perdido” nunca é recompensada na série.

Finn foi patético e inútil o episódio inteiro, pois seu foco central era retomar sua relação com Flame Princess, e por consequência, ele teve que testemunhar o Cinnamon Bum ganhar o coração da princesa na sua frente.
Muitas temporadas depois, ele se senta com Flame Princess e pede desculpas sinceras não só pela atitude que causou o término, como por ter dado um pedido de desculpas vazio na hora sem genuinamente entender o que ele havia feito de errado. Flame Princess perdoa ele e só a partir desse momento que a amizade deles engrena de vez, sem o passado ficar no meio deles.

A série usa nossa obsessão com o passado como arma, como expectadores somos curiosos pelo lore da série, para saber o passado dos personagens e para vê-lo afetar o futuro. E como o grande Mike Rugnetta apontou no seu vídeo de Adventure Time para o Idea Channel, muito do apelo de Adventure Time, vez de um sentimento de nostalgia que a série nos provoca. Por isso que mesmo vindo depois de vinte anos de desenhos quebrando a barreira entre público adulto e público infantil, tenha sido justo Adventure Time que fez a maior quebra. O público vê na narrativa simplificada e aventureira de Adventure Time uma maneira de resgatar a maneira como pensava na infância, e então se depara com conteúdo adulto e com uma reflexão que só pode ser feita pois o episódio foi visto com a mente do adulto. Tanto as tentativas dos personagens quanto do expectador de reviver o passado para fugir do presente, são deparadas com ambivalências, momentos simultaneamente felizes e tristes, que são a emoção que a série mais tenta passar, ficamos tristes pelo que perdemos, mas felizes pelo que o presente é.

Exatamente o sentimento que sentimos ao final de I Remember You, um misto de tristeza, com recomeço e esperança.

E nossa obsessão pelo passado é usada narrativamente o tempo todo, como maneira de articular as nossas expectativas. Isso pode ser personificado no personagem Sweet P. Sweet P é um bebê gigante em que o Lich se transformou após tocar o líquido-mágico-da-vida e se tornar um ser vivo. Somente Finn, Jake e nós sabemos que Sweet P não é um bebê fofo e sim a reencarnação do ser que personificava a morte, então os episódios focados no Sweet P são focados nele sendo um bebe inocente, enquanto a audiência fica tensa por saber quem ele era no passado. Nossa tensão raramente é recompensada, e esse tiro nunca saiu pela culatra, no episódio final vemos ele se formar na escola, e vemos que no futuro, ele seguirá vivo, e será um aventureiro andarilho que nem o Finn, sem nunca voltar a ser o Lich. A série nos reforça que o passado passou e que o que importa é o presente, enquanto nos força a perder as expectativas de que Sweet P se corrompa, ao mesmo tempo que nos dá dicas de que o Lich pode voltar, só pra frustrar tais expectativas.

A cena mais icônica da série flertando com o retorno do Lich certamente é quando Sweet P entra em transe e o Lich faz um discurso terrível para os adultos que estavam abusando da inocência de Sweet P. Outra cena mais discreta é quando eles fazem o chifre de Sweet P crescer em contato com a Lumpy Space Princess que retorna as pessoas para sua forma original.

O período em que Bubblegum perdeu seu trono, e se mudou para uma cabana fora do reino doce pra viver uma vida simples, não foi marcada por tentativas de tomar seu trono de volta, ou de derrubar o maligno King of Oo que ursupou seu trono. Apesar do reino ter sido criado por ela, ser literalmente o que ela mais se importa na vida e ter sido roubado dela, ela usou a oportunidade pra passar uns 9 episódios aproximadamente sendo uma fazendeira. Curtindo o presente. E sua calma, e preocupação de viver com o que ela tem em vez de viver com o que não tem a recompensou, pois no fim o trono voltou pra ela sozinho, com praticamente nenhum esforço vindo da mesma.

Entre o Simon, o Reino da Bubblegum, o Hambo e as tralhas do Jermaine estamos falando muito no verbo “perder”, mas a série nunca olha para esses assuntos como perdas, e sim como mudanças. Simon não foi perdido, ele só mudou demais para ser reconhecível no Ice King, mas isso tudo é mudança, e mudanças são normais e constantes. O mundo está mudando, mas nós estamos sempre no presente, e o presente um dia mudará e será o passado. O personagem que melhor entendia isso era Jake, que sempre esteve no lado relaxado e desapegado quando o assunto vinha a tona, e só foi ser desafiado quanto ao medo de mudanças em um dos últimos episódios da série. Quando Jake tem sua forma exterior mudada radicalmente para um alienígena azul de cinco olhos, ele insiste em provar pro mundo que não importa que ele seja diferente por fora, que ele não mudou nada por dentro. O episódio dá então a surpreendente revelação de que: claro que ele mudou por dentro, todo mundo está mudando o tempo todo, e ele nunca vai ser o mesmo por dentro. E quando o Jake aceita que ele está em constante mudança, e não ser sempre o mesmo, aceitando sua forma nova como um reflexo de seu interior, ele ganha o que queria: a forma original amarela. Novamente, os personagens são recompensados por estarem de boa.

Aceitar que ele mesmo mudou, para Jake era aceitar que as pessoas mudavam. O que no caso era simbolizado em Jake aceitar que Jermaine, que odiava arte abstrata se tornou um pintor de arte abstrata.

Tudo isso culmina no final. Onde vemos que daqui a séculos, Ooo não vai existir mais, o que vai existir é uma gama nova de personagens, que vão explorar aquela terra que surgirá da destruição de Ooo, entre eles, Shermy e Beth, que vão morar na ex-casa da Marceline e interagem com o que as vezes reconhecemos como vestígios de Ooo, da mesma maneira que Finn e Jake interagem com vestígios do nosso mundo.

A noção de que Ooo um dia vai ser uma mera memória, é a noção de que tudo é finito, tudo se transforma em outra coisa, o mundo moderno se transformou em Ooo que se transformou em uma terra pós-pós-apocaliptica. Simon se transformou no Ice King. O Lich se transformou em Sweet P e o Root Beer Guy se transformou no Dirt Beer Guy. O Ice King se transformou em um amigo do Finn, e o Fern se transformou em um inimigo. E um dia tudo se transformará em algo diferente ao ponto que o nosso presente vai ser só uma memória e um bando de vestígios.

Vestígios como a espada de Finn que reencarnou em Fern e voltou a ser uma espada, e agora é de Shermy.

E sabendo disso o que Shermy e Beth nos dizem sobre Ooo e o mundo de Adventure Time ter acabado não é para ficarmos tristes, mas sim felizes, pois ocorreu. E por termos testemunhado dez temporadas de aventuras, e o mais importante. Finn e Jake podem estar mortos no futuro, mas a aventura não, Shermy e Beth são aventureiros e séculos depois deles virão novos aventureiros. A aventura, o sentimento, essas coisas não acabam, são passadas adiante, e isso é o que importa.

E assim uma série que chamou a atenção por ser uma das coisas mais aleatórias e nonsense da televisão em sua estreia, terminou sendo uma das séries animadas mais maduras e reflexivas de sua geração, e uma que por esses motivos vai entrar pra história como um dos maiores desenhos de todos os tempos.

E devo dizer, que sou grato de ter podido acompanhar essa série de seu primeiro ao seu último episódio. Adventure Time deixa um legado de seguidores, com vários animadores e roteiristas lançando suas séries com Steven Universe sendo o mais famoso, mas temos também Bravest Warriors, Bee and Puppycat e recentemente Hilda que estreou o Netflix, então a série acabou, mas ela moldou a cara da animação atual e seu legado durará por anos, e a série merece ser vista como o primeiro dominó derrubado para uma excelente década de desenhos animados!

Sobre o autor

Izzombie

Sou um cara chato que não consegue ver um filme sossegado sem querer interpretar tudo e ficar encontrando simbolismos e mensagens. Gosto de questionar a suposta linha que separa arte de filmes comerciais, e no meu tempo livre pesquiso sobre a história da animação.

Por Izzombie

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Sou um cara chato que não consegue ver um filme sossegado sem querer interpretar tudo e ficar encontrando simbolismos e mensagens. Gosto de questionar a suposta linha que separa arte de filmes comerciais, e no meu tempo livre pesquiso sobre a história da animação.

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  • – Todos os posts desse blog contém SPOILERS de seus respectivos assuntos, sem exceção. Leia com medo de perder toda a experiência.
  • – Todos os textos desse blog contém palavras de baixo calão, independente da obra analisada ser ou não ao público infantil. Mesmo ao analisar uma obra pra crianças a analise ainda é destinada para adultos e pode tocar e temas como sexo e violência.

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